Ao longo dos últimos anos, os Old Mountain afirmaram-se como um dos projectos mais singulares da improvisação contemporânea feita em Portugal. O núcleo formado por Pedro Branco e João Sousa foi moldando uma linguagem própria onde composição e improvisação coexistem numa escuta permanente entre músicos. Another State of Rhythm, o mais recente disco do grupo, abre novas possibilidades nesse percurso. O piano substitui a guitarra e assume agora um lugar central, a formação expande-se e a música ganha novas camadas de interação colectiva, contando, nesse registo, com a participação do saxofonista norte-americano Tony Malaby e com uma instrumentação pouco habitual que inclui dois contrabaixos a cargo de Hernâni Faustino e João Hasselberg.
No dia 7 de Março, os Old Mountain apresentam este novo capítulo no Centro Cultural de Belém, operando, uma vez mais, uma transformação na formação: desta vez, Pedro Branco, João Sousa, Hernâni Faustino e João Hasselberg contarão com a presença do saxofonista José Soares, uma figura de corpo cada vez mais presente na cena jazz actual. Mais do que uma transposição literal do disco para o palco, o concerto será mais um momento de transformação de um repertório que vive precisamente dessa tensão entre estrutura e liberdade.
Antes da data em Lisboa, conversámos com Pedro Branco e João Sousa sobre o caminho que trouxe o projecto até aqui, as mudanças sonoras recentes e o que se pode esperar desta apresentação.
Desde os primeiros registos até Another State of Rhythm, o som dos Old Mountain sofreu uma transformação evidente. Que mudanças consideram mais estruturais na identidade do grupo — ao nível da escrita, da instrumentação e da interação?
[Pedro Branco] Antes de mais é preciso salientar que Old Mountain sou eu e o João Sousa, e a música resulta dessa nossa relação ao longo dos anos. Muitas coisas mudaram desde que começámos o projecto — já vivemos em países diferentes, cidades diferentes, já tivemos interesses diferentes, casas diferentes, amigos diferentes, bandas diferentes. Já passámos dias inteiros juntos a pensar sobre música, a pensar sobre o futuro, a ouvir coisas, já passámos meses sem nos vermos. Já discutimos por tudo e por nada, já choramos juntos, já rimos muito. Tudo isso moldou o som do projecto ao longo dos anos, mais do que o papel e a caneta poderiam fazer. Eu acho que os primeiros dois discos são dois miúdos a começar a tentar juntar peças e a perceber como funcionam as coisas, neste disco já há uma ou duas certezas, principalmente por caminhos que não queríamos seguir.
Neste mais recente trabalho, há uma expansão tímbrica clara e uma abordagem diferente ao ritmo. O que motivou essa viragem estética? Foi uma necessidade artística, uma consequência natural do percurso ou uma vontade deliberada de ruptura?
[Pedro Branco] Não creio que haja uma “abordagem diferente ao ritmo”, a intenção é um bocado a mesma, tentar conversar com o outro mantendo as nossas escolhas musicais íntegras ao mesmo tempo que tiramos o tapete debaixo dos pés de um amigo para o receber com um sorriso logo a seguir. Esta pergunta fez-me tentar perceber o que nos motivou a tomar estas decisões e penso que em grande parte foi em querer homenagear os nossos heróis. Na contracapa do disco agradecemos a Masabumi Kikuchi, Misha Mengelberg e a Thelonious Monk e este disco foi uma dedicatória sentida ao que a sua música e atitude fizeram por nós.
Pedro, a transição da guitarra para o piano neste projeto alterou profundamente o centro harmónico da música. Como é que essa mudança impactou a dinâmica interna do grupo?
[Pedro Branco] Old Mountain sempre foi uma dança a dois, no fundo. Sempre foi esse o drive. No entanto, todos os outros elementos da banda nesta formação só tinham tocado comigo em situações em que eu desempenhava o papel de guitarrista no ensemble (tirando o saxofonista norte-americano que não me conhecia de lado nenhum, por isso para ele era igual) e por isso esta nova aventura trazia desafios a que eles não estariam tão habituados, pelo menos de forma imediata. A minha abordagem puramente instintiva e animalesca ao instrumento, sem respeitar certos mecanismos tão próprios da linguagem e da história do mesmo, fez com que a função dos meus camaradas fosse mudando e as suas próprias escolhas nunca fossem pelo caminho mais confortável. Bill Evans definia o som do seu trio como “liberdade com responsabilidade” e essa ideia agrada-me bastante naquilo que trago para a mesa neste disco.
João, de que forma essa alteração influenciou o teu papel enquanto baterista?
[João Sousa] Essa mudança foi natural e ao mesmo tempo essencial para o som e abordagem que queríamos para este disco. Acho que estávamos à procura de uma ideia de improvisação mais real e sem filtros onde o primeiro instinto ou reação tivesse impacto. O facto do Pedro não ser pianista ajudou muito, daí surgiram diferentes limitações e caminhos sonoros. A dinâmica e interação do grupo mudou totalmente e a minha forma de tocar e reagir também.
O título Another State of Rhythm sugere uma redefinição da própria ideia de pulso e tempo. Que “estado” é este? Estamos perante uma abordagem mais textural, mais aberta, ou mais estrutural do ritmo?
[Pedro Branco] Sendo muito honestos, o título do disco nada tem a ver com escolhas estéticas ou técnicas da música em si. O título surgiu após uma troca de emails com o nosso convidado saxofonista que nós achámos hilariantes e que era bom demais para ficar guardado no nosso gmail.
[João Sousa] O título surgiu em conversa mais ou menos etérea com o Tony Malaby, gostámos da expressão e ficou [risos]. Pensando melhor, é talvez o disco que mais se aproxima da ideia de ausência de tempo, mas não foi premeditado. Acho que podíamos ter tocado todos os temas a tempo naquele dia no estúdio, no entanto a música aconteceu assim e respeitámos isso. É interessante pensar sobre como as canções ou o material escrito podem ou não estar presos à ideia inicial do compositor. Eu gosto que o material escrito possa ser absorvido e transformado pelos músicos, dessa interação emerge uma outra dimensão, colectiva, livre e espontânea da própria escrita.
O grupo tem trabalhado com formações alargadas e novas colaborações. De que forma essas presenças externas contribuíram para a nova direção sonora? Trouxeram novas tensões, novas camadas, outro tipo de escuta? E o que tem ditado esses convites? Que buscam nos músicos que trouxeram para dentro do projecto?
[João Sousa] Sim, a escolha dos dois contrabaixos é um exemplo disso mesmo, uma procura por novas camadas ou diferentes dinâmicas de improvisação. A ideia sempre foi chamar músicos de que gostamos e que admiramos. Queremos que tragam o seu universo musical e input criativo, fazer com se sintam completamente livres é uma das premissas fundamentais de Old Mountain.
Em concerto no CCB, o público pode esperar uma reprodução fiel do disco, no sentido de seguir o seu alinhamento, ou uma reinterpretação mais livre do material? O que muda entre o estúdio e o palco no universo dos Old Mountain?
[João Sousa] Vamos tocar temas do disco, mas não todos. O “Goodnight, Irene” e o “Blend In By Standing Out” não temos tocado ao vivo. Posso adiantar que a abertura do concerto será o “Aurora”, nova canção escrita pelo Branco para a minha filha, canção essa que ainda não foi gravada.
[Pedro Branco] A verdade é que por muito que tentemos ser totalmente livres, sempre que tocamos este reportório já existem expectativas, quanto mais não seja porque muito do material já foi tocado. No estúdio, os nossos camaradas nunca tinham ouvido a música sequer e não sabiam do que estavam à espera, muito menos com um convidado estrangeiro, portanto acho completamente impossível que aconteça uma reprodução fiel do disco no dia 7 de Março.
Como têm preparado especificamente esta apresentação no CCB? Houve adaptações de arranjos, novas peças ou um foco particular na dramaturgia do concerto?
[Pedro Branco] Os concertos são todos diferentes uns dos outros e por isso difíceis de preparar, tornando-se muitas vezes uma tarefa inútil até. Eu sinto que temos jantado algumas vezes uns com os outros e temos falado sobre muitos assuntos diferentes, o que me faz acreditar que o concerto possa ser inspirado. Em termos técnicos, assegurámo-nos que está tudo ao nosso gosto e que vamos ter os instrumentos certos para fazer música, tirando isso já não há grande coisa a preparar. Vamos esperar que os deuses da música nos queiram ajudar.
Ao longo dos anos, os Old Mountain têm equilibrado composição rigorosa com espaços amplos de improvisação. Neste momento da vossa trajectória, onde sentem que está o maior grau de liberdade dentro do repertório?
[Pedro Branco] O maior grau de liberdade está em fazermos a música que ressoa em nós e em que continuamos a acreditar passados todos estes anos. Está em acordarmos de manhã e pensarmos que conseguimos mudar um bocadinho o dia das pessoas com meia dúzia de acordes e sons organizados e abdicarmos de estar com as nossas famílias para fazermos quilómetros e quilómetros para tocar para desconhecidos que, de repente, se tornam membros deste nosso clube. Está em tentarmos tratar da nossa saúde mental enquanto verdadeiras catástrofes humanitárias se passam mesmo à nossa porta. Está em tentarmos ser as melhores pessoas que conseguimos diariamente e tentar transmitir essa nossa verdade em notas e ritmos que nos fazem sentido neste momento.
Em termos de repertório para o concerto, vão centrar-se sobretudo em Another State of Rhythm ou haverá espaço para revisitar peças anteriores do grupo?
[Pedro Branco] Uma das poucas tradições de Old Mountain que se foi cumprindo ao longo dos anos foi de tocar o tema “Ballad for Paul”, uma balada linda do João que tocámos com todas as formações da banda até ao momento. São duas melodias que se vão entrelaçando e que foram compostas em homenagem ao nosso herói musical Paul Motian. Já a tocámos em rubato, já a tocamos a tempo, em balada, forte, piano, sei lá, de todas as formas e feitios. Já tivemos histórias surreais dela não estar no alinhamento, mas ser chamada pelo contrabaixista com quem não tocávamos há anos e que depois percebemos que se lembrou dela a meio do concerto por causa de uma história pessoal familiar. Já foi tocada em quarteto, em duo, em trio, em sexteto. Enfim, isto tudo para dizer que há sempre espaço para temas anteriores, previamente combinados ou não, e que com esta conversa toda o mais provável é que nos esqueçamos desta música e não a toquemos.
Olhando para esta fase atual, sentem que os Old Mountain estão num momento de consolidação ou de transição? Este concerto no CCB marca um ponto de chegada ou o início de uma nova etapa sonora?
[João Sousa] Talvez ambos, um ponto de chegada e ao mesmo tempo um novo começo. Ainda vamos fazer alguns concertos com esta formação mas há algum tempo que queremos escrever música nova para uma formação diferente — violoncelo, viola de arco e talvez guitarra acústica. Ainda é muito cedo para ter uma representação mental fiel do que será, mas estamos muito entusiasmados. Depois temos já gravadas algumas faixas em duo, bateria e electrónicas. Queremos dedicar-nos a isso e fechar o disco em duo.
[Pedro Branco] Acho que a sensação de transição é uma constante neste projecto e é essencial para a sua continuidade. Agora que estamos a chegar ao final desta fase das apresentações deste disco, a verdade é que fico muito feliz que o tenhamos feito e que tenhamos tido a inconsciência/coragem de o fazer. Sinto que somos muito sortudos por ter um projecto que é uma casa e um porto de abrigo, um laboratório onde todas as ideias são válidas à partida e onde os limites são definidos apenas através de valores como a amizade e o amor.