Digital

Odete

Water Bender

New Scenery / 2020

Texto de Francisco Couto

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O percurso de Odete tem sido algo singular, tendo em conta que se desenha a partir de Portugal. Em pouco mais de um ano, a artista conta já com três EPs e vê a sua carreira crescer abruptamente a cada passo que dá, tendo já tocado pelas grandes capitais europeias e passado pelos sites de prestigiados media como a FACT e a Resident Advisor. Não é por acaso que isto está a acontecer: Odete tem desenvolvido ao longo da sua ainda curta carreira uma identidade musical bastante sólida, criando música numa linguagem difícil de decifrar e de catalogar, que mistura elementos dreamy, desapegados, polidos e etéreos, com facas, motosserras e outros sons violentos, acompanhados por uma batida também ela destruída e destrutiva, uma flauta, que oferece uma pitada oriental e mística à sua paisagem sonora, e a sua voz, que tem progressivamente ganho mais espaço nas suas composições. Odete faz parte de uma nova geração de criadores de “deconstructed club” que tem vindo a ganhar força nos últimos anos em território português, tendo criado recentemente, com outros artistas e amigos, o colectivo Circa After Death com o intuito de criar uma maior diversidade sonora e aumentar a representação da electrónica club experimental criada pela comunidade LGBTQ+. Este movimento, que cresceu exponencialmente em Lisboa, associado a um maior número de criadores e, também, de curiosos que remetem a sua atenção para a música electrónica experimental portuguesa, criou o clima perfeito para a produtora conseguir florir, primeiro com o EP Matrafona, lançado pela Naivety em 2019, a que se seguiu Amarração ainda no mesmo ano, editado em colaboração pela Rotten / Fresh com a Troublemaker Records. Em Water Bender, o seu mais recente lançamento, a artista aventura-se por águas internacionais e junta-se à editora britânica New Scenery para lançar o seu trabalho mais coeso e equilibrado até à data. Ao contrário de Matrafona e Amarração, que incidem nas suas experiências de vida e nas dificuldades que tem de enfrentar enquanto mulher trans, Water Bender conta a história de uma mulher que tem o poder de controlar a água, poder esse que vira contra si própria após lhe terem partido o coração, o que a leva a utilizar essas capacidades para se sufocar e morrer. Cada uma das músicas do disco é dedicada a um dos capítulos da história, e estas estão ligadas pela partilha comum de ambiências, geradas pela sua complexa linguagem, repletas de uma parafernália de samples que tão rápido aparecem como desaparecem, muitos deles repetidos ao longo de todo o disco, para gerar a coerência necessária para transformar uma compilação de músicas numa densa narrativa sonora. A flauta, aliada aos samples e à sua voz processada, criam a constante mutação melódica que decorre ao longo de cada faixa. Quando ouvimos algo de Odete, é fácil reconhecer que é de sua autoria, mas, ao mesmo tempo, é complicado memorizar particularmente as suas músicas, por essas mesmas partículas serem transmutáveis e pouco sólidas, sendo constituídas por frases que mudam a cada 10 segundos, muitas vezes sem qualquer fio condutor melódico ou rítmico, meramente pairando sobre a sua voz, algo que é mostrado logo no primeiro minuto de “YUE”, primeira faixa do EP: há sons de badalos, espanta-espíritos, várias camadas diferentes de vozes processadas com delays e reverbs, facas e sinos, que coexistem num universo musical que flui entre ideias da forma mais natural possível, sendo por vezes impossível entender sequer a estrutura por detrás das suas faixas, como se de um rio que flui sem parar se tratassem. As batidas agressivas e totalmente desconstruídas não tardam a aparecer ainda na primeira faixa, mais intensas e potentes que em Amarração. Em “FEITIÇO”, a melancolia ganha um misticismo maior graças à utilização de elementos que criam uma camada mais homogénea e menos glitchy que, em contraste com a música anterior, e juntamente com uma melodia vocal que mais parece um ritual de bruxaria, gera uma sensação de solidão profunda, afundando-nos nos acontecimentos da narrativa. “O RO”, feita em colaboração com BLEID, está recheada de texturas que nos transportam para o mundo oriental, como os sons de água (não fosse esta história sobre uma waterbender) e percussões meditativas. Apesar da força desta faixa, o espaço existente para o desenvolvimento de cada elemento é grande, impedindo assim que se torne demasiado overwhelming para os nossos ouvidos. É esse o caminho que Odete parece ter vindo a desenvolver (e melhorar) ao longo do último ano: a capacidade de falar muito com pouco; a criação de espaços para respirar no meio da cacofonia de diferentes sons; o equilíbrio entre o caos e os momentos solenes que nos fazem mudar a nossa respiração e ritmo cardíaco. E se a música de Odete sempre se focou nesses dois estados, o etéreo e os ritmos pesados que percorrem todo o espectro de frequências, a verdade é que tem aprimorado cada vez mais essa complicada arte de equilibrismo. Ritmos quentes e kicks de hardstyle são apresentados em “SANGUE”, o tema mais pesado do EP, que traz uma energia mais forte e abrasiva com a densa distorção dos graves, que toma as rédeas da música e colide de frente connosco sem qualquer tipo de aviso prévio. E depois desta tempestade, a calma e a paz chegam pela sua voz em “INTERLUDE” que, apesar da dificuldade em perceber as letras, nos transmite emoções fortes e nos faz voltar ao ambiente melancólico e enigmático de “FEITIÇO”.  Em “DESPEDIDA”, produzida com DRVGジ, dizemos adeus à heroína da história. Odete compõe o momento em que a sua alma passa do mundo dos vivos para o mundo dos mortos — o fim do seu sofrimento –, utilizando a sua voz natural de uma forma que por vezes nos lembra o fado e a melancolia que este nos faz sentir. Para além dos remixes de Herlander, que enaltece as batidas afro de “SANGUE “e o seu potencial rave, e de Jasper Jarvis, que transforma “INTERLUDE” numa espécie de PC Music ambient, com texturas ultra sintetizadas e emocionais, há ainda a faixa-bónus “BANSHEE.”, que remete para o conceito da mitologia irlandesa no qual um espírito feminino volta do mundo dos mortos para avisar as famílias que uma morte se avizinha, o que acrescenta uma última linha a este plot (ou, dado que é uma faixa-bónus, uma espécie de mini-sequela): a waterbender, magoada com as injustiças que sofrera, volta ao nosso realm para nos assombrar com os seus gritos de desespero e a sua aura misteriosa, enquanto continua presa numa vida de solidão, desta vez entre dois mundos. É difícil perceber as influências de Odete quando está a produzir. Entre a electrónica hardcore, música oriental, videojogos, ambient e witch house, Water Bender percorre vários espectros da música, apropriando-se da linguagem destes para construir algo completamente novo. Focando-se maioritariamente na voz, na flauta e nos field recordings, as músicas são reflexões do mundo em que vive e do seu dia a dia, e, apesar deste último EP ter uma dimensão mais ligada a um universo de fantasia, é difícil não criar um paralelismo entre ele e Amarração por se tratarem ambos de histórias sobre heartbreaks e o processo de os ultrapassar. Embrulhados numa camuflagem club, as músicas acabam por ir no sentido oposto da filosofia rave: seja no techno, no trance, no house ou no gabber, o objectivo acaba por ser abstrair-nos de nós próprios e entrar num estado de trance em que o nosso corpo se mexe quase involuntariamente, como se durante umas horas os graves substituíssem os nossos pensamentos, e o constante loop rítmico preenchesse a sala e nos fizesse transcender a realidade; no caso de Odete, é exactamente o oposto, expondo todo o seu lado emocional e psicológico nas músicas, pondo de parte as repetições de batidas, criando uma experiência que nos transporta para o seu complexo mundo, mas sempre assentes em nós próprios e conscientes da nossa vida lá fora. Criamos paralelismos emocionais com as diferentes nuances de cada faixa, como se de um ecossistema se tratasse, no qual vários elementos vivem em simbiose, apesar das suas diferenças. Water Bender é para se ouvir, reouvir e contemplar. Analisar e usufruir de cada pequeno detalhe e de como estes constroem o universo de Odete. Uma história simples sobre a dor de viver com um coração partido, assunto que toca à maioria das pessoas que o ouvem porque, afinal de contas, atire a primeira pedra quem nunca passou por essas circunstâncias. Entrar neste EP pode ser desafiante, mas é uma experiência na qual se desfruta cada segundo das suas diferentes camadas e da estranheza que envolvem as músicas, que parecem saídas de uma outra realidade musical à qual não estamos habituados. O experimentalismo das suas músicas parece algo natural, não tentando ser aquilo que não é, mas tentando encontrar o ponto de ebulição em que se transformam em algo mais e transcendem o nosso domínio. Um carimbo de uma nova forma de expressão musical na nossa era que ficará marcado nos “nossos” livros.

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