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O testemunho está bem entregue nas mãos de Statik Selektah

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

A vida é feita de progressos e a música é como a vida. No hip hop, mais precisamente, é notória a evolução da sua sonoridade nestes 44 anos de vida. Aquilo que hoje nos entra nos ouvidos já pouco ou nada se assemelha àquela batida primordial com que DJ Kool Herc se apresentou numa festa no Bronx. No entanto, as bases mantêm-se e são essenciais para que, nos dias de hoje, ainda existam verdadeiros artesãos dos beatmaking.

O século XXI trouxe-nos muitas lufadas de ar fresco: assistimos à emergência do experimentalismo de J Dilla que passou do analógico para o digital com o aparecimento de Flying Lotus; a bass music e o hip hop andam cada vez mais de mãos dadas; o future beat nasceu da necessidade que o hip hop tinha de “roubar” o protagonismo da música house na cena clubbing mundial; já existe, praticamente, um trapper em cada esquina…

E o som clássico do hip hop? Quem são os herdeiros de DJ Premier ou Pete Rock, por exemplo? Madlib, The Alchemist, Illmind, Knxwledge ou Daringer preenchem os requisitos para segurar a tocha dos eternos reis. Também Statik Selektah entra nesse já quase limitado lote de príncipes do groove. Produtores que não esquecem a tradição do sujar dos dedos com a poeira que assenta nos discos velhos, perdidos numa qualquer caixa de cartão ao abandono numa cave escura. São eles os responsáveis para que, ainda nos dias de hoje, se continue a celebrar o tão tradicional casamento entre os cortes dos breaks e os samples de linhas melódicas.

 



Patrick Baril é tudo isso e muito mais. A grande vontade em entrar no mundo da música fê-lo ingressar no mercado de trabalho aos 12 anos, para poder sustentar os gastos necessários que o início de carreira exige. Pela altura do ensino secundário, ainda antes de se afirmar enquanto Statik Selektah, o jovem Patrick passava os dias dividido entre o trabalho, a escola e as actuações. Sem ter sequer produzido o seu primeiro instrumental, aos 17 anos já conseguia obter todos os seus ganhos através da música, graças às funções que desempenhava na rádio e às actuações enquanto DJ.

Foi exactamente no virar do milénio que a trajectória da sua carreira se alterou um pouco, dando início à fase pela qual melhor o conhecemos. Patrick Baril foi estudante de produção musical na faculdade de Boston New England Institute of Art, o ponto de partida que o levaria a assinar as primeiras batidas, que viria a compilar em diferentes volumes de uma série de mixtapes. Spell My Name Right foi o título que transitou para o seu disco de estreia, lançado pela ShowOff Records, o selo editorial criado por Statik Selektah em 2003.

Toda a experiência adquirida ao longo da sua vida fez com que o produtor se tornasse um verdadeiro “polvo” do hip hop, cujos tentáculos conseguiam alcançar diferentes tipos de personalidades com quem desenvolvia relações profissionais, que viriam a tornar-se fulcrais na sua trajectória. No departamento de marketing da ShowOff, a Reebok, a Universal, a Virgin ou a G-Unit eram alguns dos seus clientes. O papel que desempenhou em diversas rádios – só na Shade 45, de Eminem, Statik Selektah tem tido direito a um espaço seu na programação durante os últimos 12 anos – foi o combustível perfeito para que a vertente social da sua carreira subisse a pique. E isso reflecte-se em Spell My Name Right, o LP de estreia em 2007: Talib Kweli, Styles P, KRS-One, Slum Village, DJ Premier, The Alchemist, Large Professor, Jadakiss, Kool G Rap ou DJ Khaled deram uma ajuda ao, na altura, newcomer no seu primeiro álbum.

 



Hoje, Statik Selektah guarda na prateleira mais de duas dezenas de projectos com o seu cunho. Lucky 7 foi o seu último disco, editado em 2015, que será sucedido ainda este ano. 8, o oitavo longa-duração em nome próprio, está já marcado para sair no dia 8 de Dezembro, e vai contar uma lista de convidados recheada de talento. Run The Jewels, Action Bronson, Raekwon, M.O.P., Prodigy, Joey Bada$$, 2 Chainz ou Sean Price surgem nos créditos do álbum. A sua passagem por Lisboa, na edição deste ano do Vodafone Mexefest, poderá ser sinónimo de alguns temas inéditos a passar pelos nossos ouvidos.

Pelo caminho, assinou vários projectos colaborativos que o juntaram a alguns dos melhores nomes do MCing norte-americano num formato extenso. O mais recente é Statik KXNG, ao lado de KXNG Crooked, editado no ano passado que sucedeu a parcerias anteriores com Bumpy Knuckles, Freeway, Slaine, Termanology, Action Bronson ou Freddie Gibbs.

O legado que Patrick Baril já criou é a prova viva que o boom bap nunca desapareceu do mapa. A arte mais tradicional do beatmaking corre nas veias do produtor de Lawrence, Massachusetts, e isso reflecte-se, não só nas suas batidas, como também nos prestigiados rappers que abraçam o seu som revivalista. Os samples recortados de álbuns que ficaram esquecidos na história ganham uma nova vida nas mãos de Statik Selektah, que os reformula em prol da montagem de temas que têm lugar no espectro sonoro actual. Se procuram por um bom manual de reciclagem musical, pois claro, basta percorrer um pouco da sua discografia.

Resta agora a questão: e depois de Statik Selektah, a quem deve ser passado o testemunho? Em entrevista a Zo Duro, o produtor não tem dúvidas que a tocha já tem herdeiros à medida. “Adoro os meus manos mais novos da Pro Era. O que eles fazem é óptimo. O Kirk Knight faz muitos beats, o Chuck Strangers, o Bruce Leekix… Mas toda a nova geração tem estado a olhar de novo para esta sonoridade.”

 


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