O Terno no Capitólio: recomeçar depois de um final feliz

[TEXTO] Vera Brito [FOTOS] Inês Ventura

Há um momento-chave no filme Paterson, de Jim Jarmusch: após ter perdido o seu caderno de poemas num infeliz acidente, a personagem principal, um condutor de autocarro que escreve poesia sobre fragmentos das conversas alheias dos seus passageiros, encontra-se sentado num banco de jardim de olhar apático e triste perdido no infinito e tem um encontro com um desconhecido, também ele poeta, que se despede oferecendo-lhe um novo caderno e um conselho : “às vezes, uma página em branco é a que apresenta mais possibilidades”. <atrás/além>, o último disco d’O Terno, o trio paulistano, que ontem vimos no Capitólio, é composto por 12 canções existenciais que falam desse espaço em branco, entre o antes e o depois, entre o passado e o futuro, do medo e da angústia dos recomeços, mas também da excitação pelo desconhecido e pelas suas possibilidades infinitas, aquele intervalo pelo qual todos nós já passámos em algum momento das nossas vidas — aquele vazio para todos aqueles que se sentem demasiado velhos para inventar ainda um futuro e demasiado novos para se contentarem com o seu passado. 

“Tudo Que Eu Não Fiz”, a primeira do disco e da noite, fala de recomeços, mas não daqueles que acontecem, por vezes de forma forçada, na ruptura de uma situação infeliz. Aqui fala-se de um outro tipo de recomeço, um que talvez exija ainda maior coragem: o recomeço a partir de um final feliz. Como é que se encerra um capítulo bom para poder dar lugar a algo novo, “mais aberto e leve”? E como é que se reconhece esse momento? Não estamos certos de “como”, mas quando Tim Bernardes nos canta com alegria, “Eu sei que é muito cedo, pra parar pelo caminho. Não vou ficar contente, preso num final feliz. Se tudo se transforma, tudo passa nesse mundo. Eu quero ficar velho, eu quero tudo que eu não fiz”, sai-nos um peso do peito e sabemos que esse é o único caminho que importa seguir.

Aos 28 anos, impressiona toda a sabedoria acumulada nas letras de Tim Bernardes, que ao falar-nos de si, chega a todos nós: as suas histórias são as nossas, alternando, por vezes até, o discurso de si para o ouvinte, como na balada “Atrás / Além”, em que é possível sentir a intimidade de um quarto e por momentos parece-nos não existir mais ninguém na sala para além de nós e dos nossos pensamentos. A sua voz clara e irrepreensível é um deleite para os ouvidos, enquanto as suas palavras de simplicidade desarmante são um bálsamo para o coração.



Mas a verdade é que não estamos sozinhos no Capitólio, que mesmo sem casa cheia, transborda de amor pelos três músicos. Até porque falta falar também de Guilherme D’Almeida, “Peixera o famoso rei do baixo”, discreto mas sem o qual não haveria O Terno, segundo nos conta Tim Bernardes, quando se conheceram ainda crianças e começaram a tocar juntos com apenas 11 anos. E para completar o trio, na bateria, batucada e nas pré-gravações (que preencheram a experiência de <atrás/além>, com a sua composição mais orquestral e menos rock de discos anteriores) Gabriel Basile, Bielzinho para os amigos e para todos os ali presentes, muito acarinhado e cujas interacções com o público proporcionaram dos momentos mais divertidos da noite, fez-nos também levantar o pé do chão na batucada de “Bielzinho/Bielzinho”, o momento mais leve e solto de <atrás/além>, uma lição em como misturar samba, “rock’n’roll, baião e pop erudito” com arte.

Momentos para dançar, para rir e nos emocionarmos, com muitas pausas para reflectir também, como em “Profundo / Superficial”, que Tim Bernardes introduziu após uma promoção bem humorada ao merchandise ao fundo da sala, que serviu para ironizar sobre esse artefacto chamado CD, que em menos de uma década se tornou num objecto obsoleto e sem valor, imagem dos tempos velozes que vivemos, em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo e nós, que deveríamos estar mais alerta que nunca, cada vez mais perdidos sem verdadeira percepção do ponto em que estamos: “Triste geração que pode tudo, quando tudo ficou tão banal. Se afogou no raso, procurando profundo no superficial”.

<atrás/além> acabou, como esperado, por preencher grande parte do alinhamento e sendo um disco mais próximo do trabalho a solo de Tim Bernardes e do seu álbum Recomeçar de 2017, mais introspectivo e pausado, com composições que remetem para a tropicália dos anos 60 no Brasil, fez com que as visitas ao rock psicadélico mais aguerrido de Melhor do Que Parece, naquilo que Tim Bernardes introduziu como “o lado B do show”, fossem muito bem recebidas, doseando a noite de forma inteligente e equilibrada. Se ao início existiam de um lado fãs mais confessos dessa sonoridade anterior d’O Terno e do outro os de Tim Bernardes, no final acreditamos que ambos se converteram um ao outro, derrubando esse muro imaginário na conclusão cantada em uníssono: “tudo está melhor do que parece, eu olho e vejo tudo errado, faz tempo que está tudo certo”.


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