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Texto: Paulo Pena
Fotografia: xicocostaph

Derivados do isolamento social.

O que aprendemos na conversa de Regula com Sam The Kid no Instagram

Texto: Paulo Pena
Fotografia: xicocostaph

Privados do contacto físico, formatos como os “lives” no Instagram têm ganho espaço como uma forma de aproximação mais directa, colmatando, até a um certo ponto, a ausência de concertos, entrevistas e conversas entre amigos. Pois bem, no passado sábado, tivemos de tudo isto um pouco, com dois velhos conhecidos juntos mesmo que distantes, num diálogo com moldes de entrevista, em que ambos, dois dos rappers da mais alta estirpe no panorama nacional, trocaram histórias, perguntas, memórias e alguns versos e cantorias.

Com sessão marcada para as 22 horas, o anfitrião Tiago Lopes reuniu os convidados para receberem Samuel Mira. Porém, como mandam as regras de etiqueta, um ligeiro atraso aos convívios sociais nunca é de censurar. Assim, já com o café pós-jantar tomado, e com alguns entraves técnicos pelo meio, começou a tertúlia que, como todas as boas tertúlias, deixou-se levar noite dentro sem darmos conta disso.

Dois pilares do hip hop tuga, dois amigos e fãs assumidos um do outro, a dupla deu início à conversa com Regula a exibir as suas relíquias, em forma de t-shirts, referentes à carreira de Sam The Kid, numa homenagem a abrir a sessão. Regula, um rapper que sempre se destacou pela notoriedade alcançada fora das luzes dos holofotes, desceu ao patamar daqueles que tanto o admiram para se tornar num deles. E apesar da longa amizade entre ambos, Bellini tinha ainda muita coisa por descobrir, tal qual um acérrimo mas insaciável fã.

Desta feita, começou a “entrevista” propriamente dita. E como não podia deixar de ser, o ponto de partida foi o início no rap, os primeiros passos, as primeiras influências. De Gula para Sam, de Rapública para Souls of Mischief, começou o ping-pong entre os dois galácticos. Até que surgiu a inevitável pergunta, como curiosidade unânime dos espectadores: quais os favoritos do nosso favorito? É certo que a biblioteca de Sam é demasiado vasta e rica para ter apenas uma estante de eleição. Contudo, e ainda assim, STK deu-nos alguns dos muitos nomes que se distinguem no que toca ao seu gosto pessoal – Elzhi, NASLupe FiascoBlack Thought, Royce Da 5’9” a nível internacional e Da WeaselMind Da Gap e Boss AC, como as referências nacionais nos anos 90.



A partir daqui, a troca de recordações tomou conta da emissão, desde o concerto mais marcante na vida de STK, no Estádio de Alvalade, onde tocaram os U2, e em que dois aventais serviram de credenciais a dois miúdos que confiaram na sorte e nos imaginativos esquemas característicos da idade, ao concerto de Kanye West, ao qual assistiram em conjunto (mas não desde o início), com a particularidade de que Sam tinha sido convidado para fazer a primeira parte, e não a ter feito por coincidir com a data do seu aniversário. Desde as boas experiências ao conhecer nomes como HavocMarco Polo ou Louis Parker, à desilusão na estrada com De La Soul. Desde os filmes de eleição como GoodfellasJackie BrownParasiteBack To Futureou Karate Kid à carreira de Van Damme, figura do cinema marcante para ambos os rappers. No RetreatNo SurrenderBloodsportKickboxerCyborgLegionnaireDouble ImpactDeath WarrantHard TargetUniversal SoldierNowhere to RunStreet Fighter: estes foram os filmes discutidos e analisados numa vibrante nerd talk. Afinal, “nem tudo é para todos”.

Entre outras tantas trivialidades, o autor de Pratica(mente), a certa altura, foi posto à prova numa espécie de mini-quiz. Regula escolheu alguns versos de figuras do hip hop nacional, e a cargo de Sam estava o desafio de descobrir a autoria de cada conjunto de rimas. A jogar (literalmente) em casa, esta era a praia de STK. Missão cumprida: a pontuação foi a máxima, de três em três, temas de Supa Shor, Dom Mac 1º e Carlão, respectivamente.

Já a chegar ao fim, a conversa voltou às raízes. Mas, desta vez, em relação aos primeiros passos no break dance, quer nos bailes de Chelas e dos Olivais, quer nas festas de hip hop, passando ainda pela participação não-materializada no disco dos Da Weasel, cujos créditos com o devido agradecimento a Samuel serviram como prova desse convite para os miúdos mais cépticos da Escola Secundária D. Dinis. Também revelou que gostaria de colaborar com General D e de ver KRS-One ao vivo. “Eu nunca comi uma maçã” foi outra das revelações de Sam The Kid que marcaram a conversa. E vocês? Já comeram fruta hoje?

Ficámos assim com um inédito encontro público com o eterno miúdo de Chelas e o Júlio César do Catujal, com direito à mostra de pedaços da história de uma cultura que tanto evoluiu por culpa destes dois ícones. E ficam por contar “mil histórias escritas que nenhum freguês lê”…


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