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Fotografia: David Vance

Imperadora da rádio nos anos 70 e 80, Dionne Warwick é uma das maiores divas do r&b – um estatuto hoje pendente de recordação. A caixa Déjà Vú recupera os seus álbuns de maior sucesso para mostrar que a obra de Dionne ainda não fossilizou.

O que aconteceu, Miss Dionne?

Fotografia: David Vance

Dionne Warwick tem a seu título uma das piores abreviaturas jornalísticas. “Prima de Whitney Houston”, assim se descreve frequentemente uma das vozes mais longevas dos EUA, galardoada em 2019 com um Grammy honorário (o sexto na sua colecção). Tal como Janet Jackson será sempre a irmã de Michael, ainda que mais pioneira e audaz. Warwick não se pode gabar desse cunho autoral, seja a cantar Burt Bucharach ou Tom Jobim, mas que lhe importa? De 1973 a 1999, lavrou 69 êxitos tabela de vendas dos EUA, apenas atrás de Aretha Franklin, com 88, no campeonato feminino. Não precisa das nossas flores, é certo, mas o que nos fez esquecermo-nos dos seus frutos?

Não terá sido pela repatriação no Brasil há 26 anos. Uma celebridade a mudar de país, quanto mais para o arquétipo do exotismo, soa a reforma permanente, mas Dionne Warwick nunca se calou. Continua na estrada para concertos esgotados, eventos de beneficência (ela que foi embaixadora da saúde no regime de Ronald Reagan e um dos primeiros megafones na luta assumida contra o HIV). Também não se deverá ao processo de insolvência que moveu em 2003, alegando “má gestão” das suas finanças – aconteceu a Toni Braxton, que conserva o seu legado intacto, incluindo o clássico de karaoke “Un-Break My Heart”. Porque é que não cantamos “Walk on By” ou “Do You Know the Way to San José” quando embriagados, então?

É possível aplicar a Dionne Warwick a lei da natureza: a nova geração acotovela a sua anterior para uma penumbra cada vez mais voraz. Ainda assim, a decadência não é linear: o nome de Aretha Franklin – a quem emprestou o tema “I Say a Little Prayer” para nunca mais ser devolvido – é imortal no ideário pop. Ambas tinham alguma propensão para os tablóides, onde se defrontaram em 2017 (“a Dionne nem sequer se vai dignar a responder à declaração ridícula de Ms. Franklin”, palavras carinhosas da sua agente), mas o que susteve a luz da última estrela é impermeável a galhardetes. Tanto a “Lady Soul” como a némesis Warwick apostaram em estratégias de modernização, na ressaca de uns anos 70 classicistas, mas só Aretha se reinventou sempre que necessário: o funk electrónico de Get It Right, o grito synthpop de Who’s Zoomin’ Who?, a parceria com Lauryn Hill em 1999, para o álbum A Rose Is Still a Rose

Warwick teve mais dificuldade em manter a cabeça à tona – o caminho desde a sua renascença pop até ao esquecimento pode ser traçado em Déjà Vú, caixa com assinatura da editora Cherry Red. O conjunto reúne os discos gravados pela intérprete entre 1979, ano em que assina com a Arista Records, e 1994, quando entrega a sua carta de rescisão sob forma de uma Aquarela do Brasil. O último álbum no boxset é também o mais interessante: talvez porque despojado de ambições comerciais, desenvolve uma filigrana de produção e arranjos que parece um desvio deliberado da sua zona de conforto – mesmo quando soluça com clichés exóticos e bossa nova diluída.

É em Dionne (1979) que começa a aventura da rememoração. “Who, What, When, Where, Why”, onde a cantora nos ensina os fundamentos da escrita noticiosa, abre com chave de ouro a sua estada na Arista. Um momento de soltura antes de um rol de baladas sísmicas, com o savoir-faire de quem passou a década de anos 60 num zénite comercial graças ao adult contemporary (a categoria radiofónica de soul e derivados). Continuidade na modernidade; o estilo em que Warwick sempre singrou – sempre os ritmos e blues – com cara lavada para uma nova década.



[Da descoberta à renascença]

Foi Burt Bacharach, lendário pianista e compositor, que a descobriu. “Como miniaturas de barcos em garrafas” – assim descrevia a voz de Warwick, em 1967, à revista Time. Uma voz fina como manda o modelismo, acoplada com a “força tremenda” da sua personalidade: sabendo que o seu suposto single de estreia fora entregue a outro cantor, Warwick exaltou-se com Bacharach e o letrista Hal David, um dos mais lendários duos na história da música pop, e deixou escapar um pedido revoltoso: “Don’t Make Me Over”, que não a tentassem mudar. 

O pedido foi respeitado e deu título à música substituta, o primeiro de 27 sucessos entre 1962 e 1969, anos que deram luz a diamantes como o álbum The Windows of the World (1967). Várias compilações, como The Dionne Warwick Collection, arquivam essa primeira década da sua música, orquestrada de forma opulente, manifestamente talhada com perícia e cantada por uma das mais envolventes mezzo-sopranos da história.

Seguiram-se uns turbulentos anos 70, após a separação do duo Bacharach-David. Nesse período, colocou 11 canções no top 100 dos EUA, o suficiente para se manter nos escaparates, mas também para se levar por tácticas bizarras: deu ouvidos a uma amiga médium, que lhe recomendou modificar o seu apelido de Warwick para Warwicke. Não foi o êxito esperado, mas a cantora ainda teria outra experiência com o além, nos anos 90, ao receber um salário milionário enquanto porta-voz de um call center de vidência. Um momento que parece ter moldado a reputação de Warwick mais do que toda a sua discografia dos anos 80 – talvez por ser um pouco mais memorável.

Déjá Vù é como um sortido de trufas de chocolate: a textura algo poeirenta encobre o recheio aveludado, mansamente doce. Cada uma derrete-se no palato, mas não traz surpresa alguma – o que é verdade para a primeira, a quinta ou a décima-quarta trufa. Os primeiros três discos cultivam o romance de um r&b respeitoso, elegante, nunca frívolo nem inebriado pelo drama. É o que acontece quando produtores como Barry Manilow (responsável por Dionne de 1979), Steve Buckingham (No Night So Long, 1980, com alguns laivos de disco e funk) ou Jay Graydon (Friends in Love, 1982) atendem ao pedido original de Warwick: escrevam-lhe bons temas, mas conservem a sua identidade.



[Dos Bee Gees ao Brasil]

O que acontece quando a obediência é perturbada? Um registo ligeiramente incaracterístico, mais fervilhante, como Heartbreaker. Data de 1982 o longa-duração em que Warwick se uniu aos Bee Gees, na triste ressaca dos anos disco – queimado em 1979, dois anos após o trio inglês ter assinado a banda sonora de Saturday Night Fever. Deslocados do topo das tabelas, por muito que tentassem, só lhes restava escrever para outrem – o vocalista principal, Barry Gibb, foi então chamado a produzir para Warwick ao lado dos americanos Albhy Galuten e Karl Richardson. Uma constelação de grooves – “Take the Short Way Home” o maior deles – balizados pela caixa de ritmos e abrilhantados pela guitarra, de forma similar ao que Tina Turner faria dois anos depois em Private Dancer.

Heartbreaker foi uma injecção de energia que lhe deu, através da faixa-título, uma das suas canções de assinatura. Mas é um engodo na discografia oitentista de Dionne: Friends (1985), cujo som encontra afinidades com o material mais emotivo de Patti LaBelle ou a (muito mais desafiadora) Chaka Khan, devolve-a aos compassos moderados, as prestações bem comportadas, as batidas soporíferas e os sintetizadores inofensivamente melódicos. “That’s What Friends Are For”, um single de beneficência com Elton John, Gladys Knight e Stevie Wonder, foi outro momento de platina para Warwick.

Nenhum disco, excepto a pitoresca Aquarela do Brasil de 1994, virá perturbar gravemente esta ordem de trabalhos – salvaguardando uma pequena aceleração em Finder of Lost Loves (1985). O álbum seguinte, Reservation for Two (1987), não se coíbe de jogar pelo seguro, mas é de tal forma rico em refrões pegajosos – como “No One in the World”, versão original de um êxito de Anita Baker – que pode ser mesmo o seu melhor LP (logicamente, não está disponível nas plataformas de streaming). Friends Can Be Lovers (1993) poderia ser apenas uma operação cosmética para vender as suas clássicas baladas na era do “new jack swing”. Mas isso é apenas metade de um disco que exsude um espírito genuinamente fresco, uma Warwick aberta a mais uma renovação.

Infelizmente, o seu voo para o Brasil é a última página do longo, homogéneo livro de Déjà Vú. Num momento em que parecia disposta a rejuvenescer, Dionne Warwick retirou-se dos originais – não dos palcos, nem dos discos, continuando a andar sobre ouro até hoje. Em Fevereiro, vestiu-se de rato no concurso televisivo The Masked Singer, adaptado para Portugal como A Máscara, onde um júri de celebridades procura desvendar a identidade dos concorrentes. Naturalmente, Warwick não durou muito tempo, à conta de uma voz indelevelmente icónica. “É demasiado distintiva”, disse ao The Guardian. Será sempre, mesmo quando a música de fundo não chega aos seus calcanhares.


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