O mundo lá fora é cruel, mas Leikeli47 riposta sempre

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Philip-Daniel Ducasse

Leikeli47 diz não ter nome, idade ou nacionalidade. Em fotografias, a máscara é sempre o ponto de interesse que capta a atenção de quem a vê. Quando dá entrevistas, prefere falar sobre a sua vida profissional e responder a perguntas mundanas sobre a sua infância. O misticismo é um elemento-chave, mas não a define enquanto artista, até porque já “ultrapassou” várias tendências musicais e propensões da Internet. Mas a verdade é que, para a surpresa da própria, Leikeli47 é humana – apesar de não ser um facto assim tão linear: a um olhar mais amplo, as letras dela são fleumáticas, rondando um exibicionismo por vezes exagerado e um discurso assertivo que não se perde em meras exibições de ostentação. Há um lado mais sério, claro, mas talvez só devido às histórias que ela por vezes nos conta em certas músicas, quando se sente realmente confortável com a sua audiência. E é essa a principal impressão que se deve ter de Leikeli47: uma rapper secretiva que se preocupa primordialmente com sua visão; uma jovem com aspirações mundiais, mas com raízes bem firmes na sua comunidade; uma “rockstar mixed with a ghetto chick”.

Este enigma ajudou a fazer com que a sua estreia desse nas vistas e, em 2017, Wash & Set revelou-se como uma curiosidade emocionante que balançava um elegante, mas amotinado rap, a reboque de elementos de house, neo-soul e dancehall: “I don’t rock with you homie/ I don’t go out my circle”, diz-nos em “O.M.C”. Neste primeiro álbum, ela menciona Grace Jones, diz que Beyoncé é uma deusa, mas que ela também o é. Ainda assim, apesar de todas referências, Leikeli continua como uma figura mítica no hip hop, astutamente desimpedida e underground.   



O segundo registo, Acrylic, chama-nos para um panorama diferente: um mundo de retalhos com uma corrente orgulhosamente feroz e inspirada em grande parte por um recente momento de violência extrema em Nova Iorque. Em Agosto de 2017, imagens das câmaras de vigilância do salão Happy Red Apple Nails mostraram funcionários a agredir duas clientes negras. O incidente chocou os membros daquela pequena comunidade, especialmente num ano que colocou os Estados Unidos numa verdadeira crise em termos de crimes raciais. A dor sentida serviu como um grito de guerra entre as mulheres negras de Flatbush para se unirem contra o racismo ainda hoje vivido, dando ao mesmo tempo mais uma razão para que Leikeli cumprisse o seu trabalho: para celebrar os lugares, as pessoas e os momentos que lhe dão força, independentemente do quão desvalorizado são pelas grandes oculares dos média norte americanos. Este orgulho é irrefutável quer pela pele negra da rapper, como pela sua feminilidade. Acrylic mostra um conjunto de esperanças, ambições e resiliências contadas através de confissões sobre si mesma.

Espaços como salões de beleza são para ela, e para milhões de mulheres afro-americanas, sítios inclusivos em que todos se devem sentir seguros e confortáveis. “Tem a sua simbologia”, conta à revista Fader. “Cresci a visitar vários salões de beleza, por isso sei o que significa para várias mulheres. Quando estamos em sítios como esse, nunca sabemos como nos estamos a relacionar com a outra pessoa sentada ao nosso lado. Às vezes entramos com a cabeça cheia de problemas – outras vezes, estamos apenas a ter um bom dia”.



A música ao longo do disco segue quase o mesmo patamar: um tom hipermoderno que caminha bipartido ao som de ritmos quentes e dançáveis, e versos metralhadores. À superfície, faz-nos lembrar uma M.I.A num tempo de Arular, Azealia Banks ou até mesmo MF Doom – que a própria refere como uma das maiores influências. O produto final é agressivo, mas também antagónico: oscilações entre uma excelente contadora de histórias e uma vilã são presentes em faixas como “Girl Blunt” e CIAA”: há uma típica mudança de “rags to riches” – “’Cause being broke and poor, man, just wan’t my intent/ So no, I can stop, but I won’t stop” – para a dona do seu próprio império – “Top shelf, bitch, I’m on the honor roll/ Hot fire, make your n*** stop and roll”. De um modo geral, as letras assumem várias personalidades que ocupam espaços privilegiados nas várias canções: há exuberância, mas continência; alma, mas também festa; luz e sombra. Todo este exercício emocional é trabalhado desde os seus anos de ensino secundário quando passava grande parte do seu tempo a idealizar a sua arte: “Aprendes coisas por ti mesmo e tornas-te num adulto muito rapidamente. Digo-te: eu ainda sou uma criança, mas sou uma criança madura […] e não tens como escapar a isto – só tens mesmo a música”, diz numa entrevista à Noisey.

Mesmo em criança, Leikeli47 cresceu sem muitos amigos. Auto-descrevendo-se como uma solitária, a timidez fazia com que sofresse de bullying e bloqueou o processo de formar amizades com quem tivesse interesses em comum, como música ou fazer skate. Brooklyn foi quem a viu crescer, mesmo que significasse estar sempre em mudanças e dormir em sofás diferentes de familiares distantes ou em alojamentos locais proporcionado pelo governo. “Endurece-te e faz-te pensar na vida. Quando estava nesses sítios, olhava para a minha janela e pensava naqueles prédios velhos e empoeirados e na maneira como os iria pintar para que todos vissem. Todos vão querer saber de onde eu sou”.



A máscara apareceu pouco tempo depois das primeiras mixtapes começarem a surgir e, segundo a mesma, deu-lhe um nível de anonimato confortável que a fez destacar num género musical que ainda enfatiza as aparências – particularmente as das mulheres. Para ela, a máscara – que muitas vezes varia entre uma máscara de ski, um gorro furado ou uma bandana – faz com que o ouvinte tenha um contacto directo com os olhos dela, pondo em segundo plano qualquer outra concepção ou primeira impressão feita: não é uma maneira eficaz para esconder a sua identidade, mas uma interpretação da realidade através da sua mestria ao contar cada olhar como uma maneira de ver a vida.

Isto para uma outcast é crucial, uma vez que cria uma linha de pensamento mais honesta e orgânica, e é por isso que ela a abraça: “É sobre manter o foco na minha arte, na diversão e em todo o amor que recebi e que ainda está para vir. Este é o verdadeiro significado da máscara”, revela à ABC. “No final do dia, sou eu e serei sempre eu”.


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