O legado de Jean-Michel Basquiat aos olhos de um talentoso conjunto de músicos britânicos

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTO] Direitos Reservados

Editada a partir de uma colaboração entre a editora The Vinyl Factory, a DJ londrina Anja Ngozi e a plataforma Lonely Table, Untitled é uma compilação inspirada na vida e obra de Jean-Michel Basquiat, artista norte-americano que se notabilizou no ramo da street art.

Nascido a 22 de Dezembro de 1960, filho de pai haitiano e mãe porto-riquenha, Basquiat abraça desde muito cedo a vida de rua e, consequentemente, o mundo do grafitti, depois de ter sido expulso de casa derivado ao insucesso escolar. Com apenas 16 anos, começa a pintar paredes em Manhattan em parceria com um amigo, sob o pseudónimo SAMO, naquele que seria o primeiro passo de uma carreira que, apesar de não ter sido unânime ou imediatamente reconhecida, é actualmente vista por muitos como brilhante. Que o digam os 18 músicos que se juntaram para uma vénia ao homem que chegou a ter Madonna como namorada (quando esta ainda era muito nova, longe dos holofotes da fama) ou um tal de Andy Warhol como amigo e entusiasta.



Untitled, que faz uso do título com que Basquiat assinou boa parte das suas obras, concentra ao longo de sete temas vários talentos britânicos, entre eles Shabaka Hutchings, Nubya Garcia, Kojey Radical, Wu-Lu, Mala, Joe Armon-Jones, Kwake Bass e Lex Amor. E de que forma terá o artista norte-americano, que também deixou marcas no mundo da música (fez parte de uma banda de noise-rock e produziu um single de hip hop), influenciado estes nomes? É a questão à qual o artigo “Jean-Michel Changed My Life: Artists Reflect on Basquiat’s Legacy“, publicado pela The Vinyl Factory no passado dia 31 de Maio, responde.

Assinado por Anton Spice, a peça coloca uma série de perguntas a nove dos músicos que participam em Untitled. O resultado final ajuda-nos a perceber de que forma Basquiat interferiu no processo criativo da compilação mas ajuda-nos a entender, sobretudo, como estes músicos olham para o seu legado.

Roxanne Tataei, que entra no tema “Know Ways” com Lord Tusk, começa precisamente pelo início. “Eu acho que a primeira vez que o vi foi na fotografia icónica em que surge ao lado de Andy Warhol”, referindo-se ao primeiro contacto que teve com o artista. “Lembro-me de pensar no quão belo e poderoso ele parecia. É estranho porque inúmeros artistas ao longo dos anos foram influenciados pelo seu trabalho e tentaram reproduzir o seu estilo. Mesmo nunca tendo visto uma obra dele, o seu espírito e estilo está presente no trabalho de tantos outros. Quando olho para as suas obras, penso no misticismo e magia de África, a vulnerabilidade que advém da partilha do lado mais profundo da mente, a importância do debate político na arte e a verdadeira habilidade da street art.”



Para Confucius MC, que divide tarefas com Kwake Bass em “Same Ol Samo”, canção que é uma referência ao pseudónimo utilizado por Basquiat, o caminho foi outro. “Eu sempre ouvi muito o seu nome no universo hip hop, e era por diversas vezes referenciado como um importante artista moderno a par de nomes como Andy Warhol. Tinha cerca de 20 anos quando me envolvi a sério no seu trabalho e chocou-me mais do que tudo a óbvia influência que ele tinha e ainda tem no mundo da arte e da cultura popular. Se olharmos para as suas peças, é possível concluir que era não só um talentoso artista mas também um especialista no strorytelling”.

Em “Same Ol Samo” Confucius MC debita palavras sobre uma base de ritmos e efeitos sonoros que pisam em várias alturas os terrenos do dub. “Inspirei-me originalmente num tema chamado ‘Suicide Hotline’ dos Gray, que é basicamente uma conversa telefónica entre Basquiat e uma linha de ajuda ao suicídio que foi gravada e cortada para dar origem a um loop de hip hop. Basquiat era um enorme fã de colagem. Para manter essa aproximação, o que eu fiz foi trabalhar no que já existia dele. Vi e ouvi todas as entrevistas que consegui encontrar, escrevi tudo o que ele disse e construí um verso reagrupando as diferentes frases. A ideia original era samplar todas essas entrevistas e cortá-las para que a minha voz e a de Basquiat se ouvissem ao mesmo tempo, mas infelizmente não pudemos utilizar essa versão”.



Questionada sobre as influências directas que Basquiat teve na sua música, Ego Ella May, que participa em “Legend” com Lex Amor e Wu-Lu, não tem a menor dúvida. “O capítulo da confiança. Quando editas o teu trabalho, toda a gente o vê e o julgamento pode ser rápido, mas eu acho que o que eu aprendi com o Basquiat é que nada disso interessa. É só a tua expressão livre. Não interessa o que as pessoas dizem, e ele tem uma frase que é precisamente sobre o facto de não precisar de críticos de arte para o julgarem. Quem precisa de críticos de arte? É arte. Isso para mim é muito importante. É a verdade, e é nisso que eu gosto de me apoiar”.

A palavra a Lex Amor: “há uma gravação dele em que é possível vê-lo a pintar um pormenor no centro de uma tela durante muito tempo – três ou quatro horas de volta da mesma coisa. Depois, pega num rolo, mergulha-o em tinta preta e cobre literalmente tudo. Ficas naquela ‘mas que raio estás a fazer?’. Para ele, assim que tu acabas a obra, a arte está acabada, está feita, ponto final. A arte está no processo, por isso existe uma essência em ele ter gasto muito tempo nesse pequeno detalhe e depois o ter coberto por completo. Não tem a ver com o produto final, não tem a ver com o que vemos externamente, tem a ver com a execução. Acho isso o máximo”.

Ao longo da sua vida, Basquiat sempre fez o que lhe ia na alma, e isso reflectiu-se não só nos quadros que pintou mas também nas roupas que usou, criando tendências e uma imagem de marca. “Há tantas opiniões e tantas pessoas a tentarem dizer-te para fazeres algo ou escolher uma certa direcção”, partilha Wu-Lu. “Muitas pessoas vêm ter comigo e dizem-me que não conseguem perceber onde é que a minha música se encaixa; eu respondo que eu faço aquilo que sinto e é exactamente a isso que soa”.



Shabaka Hutchings, saxofonista que integra os colectivos Sons of Kemet e The Comet is Coming, é um dos principais pilares da compilação. É ele que, em parceria com o rapper Kojey Radical, dá vida a “No Gangster”, o single que apresenta Untitled. “Quando a ideia me foi apresentada, pensei bastante nela: como é que iríamos tentar pegar em algo do Basquiat e reflecti-lo na nossa música sem que isso soasse a invenção? Sem que soasse como se estivéssemos a intelectualizar uma ideia ou uma fantasia daquilo que Basquiat supostamente representa. Não queria representar uma fantasia. Para mim a verdadeira essência foi ver o trabalho de Basquiat, mergulhar na obra dele, passar muito tempo de volta das fotografias, sem querer trabalhá-las mas sim tentar espremer o máximo delas, quase como se estivesse a abrir o meu subconsciente para todos os pensamentos que tinha no momento e no espaço em que os trabalhos se encontravam. Depois, fomos para o estúdio e limitámo-nos a tocar, até chegarmos ao ponto em que sentimos que tínhamos que fazer uma música. Não havia uma necessidade de falarmos sobre isso em linguagem. Quando fomos para o estúdio, deixámos as ideias surgirem e enquadrámos tudo numa peça apenas”.



Para AJ Kwame, que partilha “Broadcast By Chocolate” com Layfullstop e Moroka, o processo foi diferente. “Inicialmente, deliberámos sobre o efeito e o sentimento que a sua obra tinha sobre nós e facilmente chegámos à conclusão de como queríamos responder. A estrutura musical teria de ser, por exemplo, baseada na forma como Basquiat recorria ao tríptico em todos os seus significados e referências históricas – construímos três peças musicais destinadas a serem apreciadas em conjunto, ‘articuladas’ com skits e paisagens sonoras”.

O derradeiro testemunho vai para Maxwell Owin, artista que se emparelha com Coby Sey para “Response to Michel”. “Sou pessoalmente um grande fã dos cartões postais que Basquiat fez no início da sua carreira. Tentei fazer uma ligação entre isso e a música – é como se fossem três ideias sobrepostas. A primeira é Coby Sey, que transferiu a ideia que tinha para o piano; a segunda é uma gravação telefónica na estação de Lewisham no seu telefone – é o elemento principal a partir do qual nasce a canção, antes de adicionar os pianos tocados pelos dois. Por fim, coube-me a mim a tarefa de manipular o som: estiquei, encolhi, mudei o pitch e imprimi-lhe uma textura maioritariamente composta por sons de jogos de computador”.

Jean-Michel Basquiat morreu a 12 de Agosto de 1988, vítima de overdose. Para trás deixou um extenso legado que influenciou e continua a influenciar um incalculável número de artistas, além de fazer as delícias de abastados coleccionadores de arte. A 18 de Maio de 2017, num leilão da Sotheby’s, um quadro seu de 1982 foi leiloado por 110,5 milhões de dólares (o equivalente a 90,21 milhões de euros), tornando-se na obra mais cara de sempre de um pintor norte-americano e a obra pós-1980 mais valiosa.


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