O Copenhagen celebra a obra dos Da Weasel em Maio

[ILUSTRAÇÃO] Dialogue.pt

Os Da Weasel vão ser alvo de homenagem no Copenhagen, no dia 25 de Maio. Todagente é a designação da festa que pretende dar continuidade ao trabalho feito no Rimas e Batidas durante a primeira semana de Abril – podem ver mais aqui.

Para dar som a esta celebração, Atsoc (alter-ego de Mário Costa, que também assina como Progressivu), Davide Pinheiro (jornalista e DJ) e Manuel Rodrigues (colaborador do ReB) são os eleitos para dedicar umas horas de quinta-feira, dia 25 de Maio, à Doninha, trazendo o melhor do seu universo para a mesa e tirando o pó a uma série de clássicos que continuam a ressoar na presente geração.

Em conversa com o ReB, Davide Pinheiro contou como surgiu a ideia de festa e falou sobre a herança dos Da Weasel:

 


[A IDEIA DA FESTA]

“No ano passado, o concerto do Kendrick Lamar deu-nos a ideia de fazer uma festa. Normalmente, as homenagens são feitas post-mortem mas o nosso pensamento foi homenagear os ícones do nosso tempo em vida. As pessoas não precisam de morrer para serem importantes nas nossas vidas sem as conhecermos. Começámos em Maio com o K.dot e continuámos em Novembro com o Kanye West. Seis meses pareceu-nos o intervalo certo para tornar cada uma das noites especial. E não nos enganámos, pareciam concertos num clube pequeno com as emoções todas à flor da pele e pessoas a vibrar como nos maiores festivais. Para Maio deste ano, tínhamos uma outra ideia mas uma vez que os Da Weasel ocupam esse lugar especial, deixaram um lastro enorme na música portuguesa, palpável num espectro que pode ir dos Orelha Negra ao Slow J e aos Expensive Soul, e felizmente ninguém partiu, aproveitámos a deixa do Rimas e Batidas. O Manuel Rodrigues de quem sou amigo já me tinha falado do artigo original que gerou toda a reflexão mas nunca tinha tido a oportunidade de ler e pareceu-me um olhar muito revelador sobre a génese de uma banda que construiu uma série de pontes a partir de uma ideia orgânica, colectiva e humanizada de encarar o hip-hop. E daí nasceu qualquer coisa que, estando para Portugal como os Beastie Boys para o mundo, ou o Planet Hemp para o Brasil, expressou uma linguagem singular e conquistou um espaço próprio. Se com o Kendrick e o Kanye, estamos a falar de símbolos vivos e duas das vozes mais influentes no Séc. XXI, desta vez pensámos que o fazer-se uma noite dedicada a uma banda portuguesa pode ser o rastilho de uma série de revisitações. Estou a pensar em pérolas do princípio do hip-hop português, com potencial para se revelarem aos olhos e ouvidos de uma geração que apanhou os Da Weasel a meio da viagem no ‘Tás na Boa’ ou já com a carruagem cheia no ‘Re-Tratamento’.”

[A HERANÇA]

“Ao longo dos anos, fui aprendendo que a música tem um contexto. Agora, tudo é muito mais veloz mas dantes era fácil pensar em música à frente do seu tempo e, por isso, incompreendida. Ou mais demorada a chegar a quem a podia ouvir. No caso dos Da Weasel, souberam chegar a horas e, a partir daí, criar a própria agenda. Os anos 90 da música portuguesa não são muito valorizados, quando o meio da década foi dos períodos mais ricos no pós-Séc. XXI. O General D já tinha gravado o primeiro disco de rap, bandas como Pop Dell’Arte, Repórter Estrábico, Rádio Macau (n’A Marca Amarela) e LX-90 ligaram o humano ao maquinal e outras como Bizarra Locomotiva ou Golpe de Estado estavam a fazer música electrónica de corpo inteiro. E de repente, estamos em 1994. ‘So Get Up’ dos Underground Sound of Lisbon está a explodir, o Rapública apresenta o rap ao país, o Gabriel O Pensador é um fenómeno e o Viagens do Pedro Abrunhosa une estas coisas todas em coisas numa linguagem sexy, física e nocturna. Sentia-se um desejo enorme de mudança e depois de um primeiro EP obscuro mas revelador, o Dou-lhe com a Alma é o álbum certo no tempo certo. Os primeiros segundos com o baixo distorcido do Jay, as vozes por trás em elipse, o scratch a deixar cair o verde para a urgência dos versos do Carlão são memoráveis. Sinceramente, acho que a influência dos Da Weasel se nota tanto ou mais fora do hip-hop do que no hip-hop. Por isso, é natural que quando se pense na árvore genealógica os primeiros nomes a vir à cabeça sejam daqueles que quebram muros, musicais ou étnicos, como os Orelha Negra, o Slow J e os Expensive Soul. Até os Buraka Som Sistema, no sentido antropológico dessa mistura entre África e Lisboa, têm qualquer de Da Weasel. É preciso ver que na geração dos Da Weasel quase toda a gente era assim. Havia os Cool Hipnoise, os Blackout, os Kussondulola, Ithaka, os Primitive Reason e até os Ornatos Violeta que, na primeira fase, tinham bastante de Red Hot Chili Peppers. Uma outra coisa que aprendi com o tempo foi que, quando a música é não só boa mas importante para as pessoas, é maior do que a própria criação. E pensando bem, os Da Weasel não só aboliram fronteiras musicais num tempo pós-tribal em que quem era do rock, tinha dificuldade em aceitar o rap, e vice-versa, como demonstraram que essa coisa do preto e branco só tem graça no cinema e em fotos de família. Sempre vi o Carlão como um contador de histórias na linha do Sérgio Godinho, e o João Nobre como um rocker tipo o Zé Pedro. Os Da Weasel tiraram partido do melhor de vários mundos: da palavra poética, da rima do rap, da energia do rock e do jeito natural para inventar refrões do Virgul. Não deixaram nenhum disco abaixo de bom mas uma boa parte da reputação fez-se dos concertos. No auge, eram uma verdadeira máquina.”

 


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