No passado dia 7 de fevereiro, tomaram lugar na mais recente edição do Festival Porta-Jazz dois dos que seriam, talvez, dos mais aguardados concertos em todo o programa: ouviríamos, pois, o novo álbum do pianista e compositor português Pedro Neves, Northern Train (com Carimbo Porta-Jazz), apresentado pelo quarteto do pianista, e, após este concerto, uma comissão da própria associação Porta-Jazz — o trabalho “Go Tell It On the Mountain”, da autoria de Zé Stark: uma profunda e rica reflexão reminiscente do clássico de James Baldwin.
O concerto de Pedro Neves, acompanhado por Nuno Campos no contrabaixo, Javier Pereiro no trompete e José Marrucho na bateria, apresenta-se imediatamente como uma travessia sonora, como sugere o próprio título do álbum, Northern Train — trata-se de uma viagem de comboio, por entre vales e planícies cobertos de neve. E esta é uma viagem dupla: ouvimos os interiores das carruagens, conhecemos os seus recantos e particularidades, mas ouvimos também um sujeito lírico que nos conduz nesta expedição. Ouvimos a sua esperança, a sua ânsia, o seu entusiasmo doce e sereno, as suas incertezas e expectativas, a satisfação pura, benevolente e paciente de perseguir um sonho, um passo de cada vez. Estes são dois mundos que se misturam e que nunca se separam um do outro, por todo o disco. O sujeito musical e o comboio fundem-se num só, a perspetiva muda ocasionalmente para formar um retrato vivo e colorido da ideia pretendida — um que não se preocupa em dar-nos respostas se não as que nos suscita conferir-lhe.
A nível musical, Pedro Neves move-se pelos corredores mas avant-garde do jazz — os mesmo por onde deambulam artistas como Tigran Hamasyan ou Alfa Mist — e a sua música é inovadora e atual de uma maneira discreta, porém sobejamente bela e interessante. Utilizando grooves muitas vezes inabituais e descolando do swing tradicional, o pianista e compositor pratica um jogo impressionantemente bem equilibrado a nível harmónico, construindo progressões que balançam perfeitamente entre um caráter inesperado e, ao mesmo tempo, coeso. O resultado é uma música que se manifesta envolvente e permeante, porém ao mesmo tempo cativante e agradavelmente surpreendente. Sem, no entanto, alguma vez perder a atmosfera de confortabilidade e sereno contentamento que nos preenche durante todo o concerto.
Este sentido de equilíbrio entre coesão e surpresa não é atributo apenas da harmonia, mas sim transversal a todos os aspetos musicais. Destaca-se-lhe o campo melódico, em que é claro o lirismo magnífico de que está imbuída esta música, mas também os saltos nos fraseados que vão aparecendo ao longo da música, abrindo-a e realçando a luminosidade da harmonia, que não é uma luz extravagante ou “beckiana”, mas sim encantadora e refrescante. No entanto, as linhas são arquitetadas com extremo cuidado e interpretadas com um cantabile maravilhosamente pleno — e aqui destaca-se o “diálogo” com Nuno Campos num dos temas do LP, em que o contrabaixo tocado com arco lhe aufere um caráter notavelmente poético.
Finalmente, há que realçar a diversidade de ambientes que este álbum vai tecendo, que realmente é a principal responsável pelo dinamismo e vivacidade que o tornam tão vasto em significado, mas também, curiosamente, faz realçar o sentimento fundamental de que a obra cresce pelo próprio afastamento — ou melhor, pela ramificação da própria ideia central em si. Ouvimos talvez um dos grooves mais viciantes do trabalho em “Engine Room”, uma harmonia algo mais fusion em coo “Dreams and Plans”, e o intimismo e melodismo deste álbum no seu máximo apogeu em “Too Shy” ou “Winter’s Lament”. É uma exploração multifacetada de uma imagem sobejamente poética, em que a música nos mostra que existem facetas e caminhos intermináveis, incontáveis, e, acima de tudo, memoráveis a seguir.


Seguimos com o concerto de Zé Stark e o seu “Go Tell it On The Mountain”, com um ambiente radicalmente diferente daquele que escutámos no concerto anterior. Sobressaem os grooves eletrizantes, um ambiente que vai buscar bastante ao jazz de fusão, e uma originalidade que é sempre abundante e relevantíssima.
O que este concerto nos fez lembrar imediatamente foi John Coltrane. Não por ser algum Giant Steps — longe disso — mas pela própria formação instrumental escolhida, com flauta transversal, saxofone alto, piano, bateria e percussão, algo que conferiu à música um timbre que não podemos deixar de associar à fase mais experimental e espiritual de Trane, em que explorou as mais variadíssimas influências culturais e étnicas e da qual resultaram discos como A Love Supreme, Meditations ou Om.
A música de Zé Stark, efetivamente, transbordava destas influências étnicas e da música dita “do Mundo”, encapsulando na perfeição a jornada espiritual e cultural afirmada pelo artista nas notas de programa. Tornou-se vital para a música o seu caráter por vezes quase “tribal”, de forte influência da etnomusicologia africana e da América Latina. E tal como seria de esperar de um bandleader baterista, a música de Stark reafirma a velha máxima de que o elemento mais importante no jazz é o ritmo. Mesmo quando este é facilmente ofuscado por belíssimas e intrincadas harmonias, a música deste compositor demonstra, precisamente, a importância magistral que o ritmo tem no género. Esse pulso formidavelmente contagiante (para o qual também contribuíam um triângulo e vários instrumentos de percussão que pareciam de origem latino-americana) não só enriqueceu a sonoridade geral com um timbre muito mais detalhado e interessante, como tornava ainda mais enérgico e delicioso o cariz já de si viciante da música. E não podemos deixar de mencionar os solos estonteantes realizados pelos sopros, que foram pura e simplesmente impressionantes.
Terminamos, então, o que foi um bloco riquíssimo e sobremaneira diversificado a nível musical, que nos deixa com a feliz certeza não só do auspicioso futuro que tem o jazz português, mas também do meticuloso trabalho que a Associação Porta-Jazz tem feito em promovê-lo. Foram dois concertos muito diferentes mas altamente memoráveis, e que serão, certamente, uma dose a repetir.

