O Bairro’19 – Dia 3: com Chullage e Halloween a revolução não vai passar na televisão…

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Pedro Vilhena e António Carrapato

Garantiu em tempos Gil Scott-Heron que a revolução não vai passar na televisão e que acontecerá ao vivo. A letra do famoso tema de 1971 é muito clara e explica que a revolução nos colocará no lugar do condutor, ou seja, a revolução dependerá de cada um de nós. Ora, quem por estes dias circule por Évora poderá ter um entendimento mais fundo do que queria dizer o já malogrado poeta-cantor: a revolução acontece quando a arte nos dá uma voz e não se trata apenas de uma responsabilidade de quem está em palco, mas também de quem, na plateia, se envolve, amplificando, às vezes simplesmente através do aplauso, o que os artistas têm a dizer. E ontem, os artistas que passaram pela praça do Giraldo ou pela Praça do Sertório tinham muito que dizer…

Chullage e Allen Halloween fecharam a noite na principal praça da cidade, mas ali bem perto, na Praça do Sertório, o writer Le Funky assinou um expressivo mural, que incluiu menção ao Rimas e Batidas e tudo, trazendo uma explosão de cor para o meio das paredes centenárias do espaço, um curioso contraste que ajudou a criar o ambiente perfeito para a actuação conjunta, umas horas mais tarde, dos “vídeo guerrilheiros” Paredes em Carne Viva e de Badja MC num espectáculo colaborativo que recebeu o título O Bairro Anthiphopulismo. Antes disso, já Mr Razor tinha, no Jardim Público, viajado com elegância, entre o hip hop e outras sonoridades swingadas, proporcionando uma boa banda sonora para o final de tarde.

Quando a noite já tinha caído, barras pesadas, batidas agrestes, um cravo vermelho projectado no ecrã gigante e uma sessão de improviso em torno de palavras-chave que iam sendo “disparadas” pelos homens do vídeo — “guerra”, “morte”, “Europa”, “sonho”, “exclusão” ou “minorias”, por exemplo — deixaram bem claro que Badja e restantes companheiros sabem, como Scott-Heron antes deles, que não é no sofá que se vai mudar o mundo. Um preâmbulo certeiro para a sessão de despertar de consciências que se seguiu uma hora mais tarde, numa praça do Giraldo recheada de gente atenta.



E liberdade, é importante que se diga, é isto mesmo: duas lendas do MCing nacional em palco, sem censuras, a discorrerem sobre o mundo, com palavras mordazes, certeiras, ácidas e reais, repetidas em muitos dos casos por gente que sabe bem que há rimas que abalam, quanto mais não seja o torpor em que às vezes caímos.

Chullage, secundado por Lowrasta no microfone e Tayob J nos pratos, citou “Fight the Power” dos Public Enemy, mostrou temas do seu projecto paralelo Pretu, incluindo um que conta com colaboração de Dino d’Santiago, “dedicado a todas as mulheres cabo-verdianas que se levantam às 6 da manhã para irem limpar Lisboa”, e outro ainda que se apoia num belíssimo sample de Ildo Lobo, o lendário e já desaparecido vocalista dos Tubarões, que fala de uma vida de emigração e que conta com participação de Landim. O veterano “warrior” tem sempre uma imponente presença em palco e carrega consigo palavras plenas de verdades a que todos deveriam prestar atenção porque são fundadas em vivências e experiências reais. Quando chegou a “Rhymeshit Que Abala”, que o público agarrou desde a primeira barra, já a praça estava cheia, com muitas consciências já bem despertas, todos sintonizados com a força que as palavras conseguem ter quando são debitadas com alma.

A Allen Halloween coube a responsabilidade de fechar a noite, missão que o próprio não enjeitou. Com Lucy e Buts MC a darem-lhe as backs e DJ Wize nos pratos, Allen mostrou-nos o seu “bairro”, aquele onde circulam “Drunfos”, onde há sempre um “Zé Maluco”, um “Marmita Boy”, um “Bandido Velho”, um “Fly Nigga” e uma “Mary Witch” ou outra, onde por vezes se emite um “SOS Mundo” e onde há quem grite “Killa Me” n’”A Porta do Bar”. O povo, nada sereno perante as imagens que Allen vai projectando com as suas letras, conhece cada dobra destas rimas e carrega nos ombros o rapper, que a dada altura empunha a sua MPC para um par de temas, assumindo uma dimensão de anti-herói que lhe assenta como uma luva.

Que Chullage e Allen Halloween sejam, muito justamente, reverenciadas figuras de culto, diz muito do caminho que esta cultura e as pessoas que nela se revêem já trilharam nestas últimas duas décadas e meia, mas o país que eles cantam também diz muito do que ainda falta fazer. Este Bairro em Évora, como outras iniciativas noutras cidades, poderá ser mais uma pedra para esse monumento de liberdade que nunca se pode dar por concluído. Venham mais palcos assim, abertos, livres e cheios de gente à frente, palcos onde se possa ensaiar a revolução de elevação de consciências em que todos devíamos participar. Ao vivo.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu