O Bairro’19 – Dia 1: os rapazes do bairro que são homens da música

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Pedro Vilhena e António Carrapato

Ontem arrancou em Évora a programação d’O Bairro, uma “ilha” de hip hop no autêntico mar de cultura que por estes dias banha a cidade que é Património Mundial classificada pela UNESCO e candidata a Capital Europeia da Cultura em 2027. E mesmo que essa meta ainda esteja distante, é nítido o esforço produzido por esta cidade alentejana: em dia de arranque d’O Bairro, habitantes e visitantes — e são muitos os turistas que por estes dias circulam por Évora — podiam ainda desfrutar do ciclo Só Vozes, Pontes da Polifonia Portuguesa com curadoria de Tiago Pereira ou de concertos de orgão e cravo inseridos na programação do FIMÉ. Uma dica apenas: um produtor de hip hop equipado com gravador portátil teria ontem, certamente, recolhido preciosa matéria para futuras criações…

Mas a entrada neste Bairro foi conduzida por DJ É-me que assinou um belíssimo fim de tarde no Jardim Público. O DJ, que integra a equipa da Rádio Cidade e que tem vestido as cores portuguesas em certames internacionais de gira-disquismo, ofereceu aos presentes que se abrigavam do intenso calor nas sombras relvadas do jardim uma perfeita banda sonora tropical, com uma selecção certeira e cadenciada que cruzou música de DJ Hov, Avelino, Rema ou, entre outros, Silk City, entre o dancehall e os afrobeats, a pedirem areia debaixo dos pés e bebidas coloridas de chapéu e palhinha na mão.



O prato principal estava no entanto reservado para mais tarde, com a Praça do Giraldo, sala nobre de visitas da cidade de Évora, a engalanar-se para receber a Faz-Me Um Beat Big Band. E permitam-nos um veemente aplauso: a programação d’O Bairro tem previstas actuações (para mais logo) de Dealema e Papillon ou (para amanhã) de Chullage e Allen Halloween, mas não deixou de entregar a verdadeiros filhos da terra a tarefa de escancararem as portas deste “Bairro”. O dilatado ensemble que conta com o principal embaixador de Évora no universo hip hop, Valas, ou ainda com o seu habitual cúmplice DJ Sims e com o agitador incansável Bob, O Vermelho, assinou uma belíssima e muito bem balançada actuação tanto mais notável quanto se perceber que ontem foi igualmente a sua estreia.

A Faz-me um Beat Big Band alinha na retaguarda instrumental DJ Sims, exímio scratcher, carregado de flow na forma como musicalmente se integra no som colectivo, e ainda Eddie na guitarra, António Pinto de Sousa no baixo, António Dias na bateria, Xinês na percussão e Alberto Ferreira nos teclados. Percebe-se bem que o hip hop é aqui ponto de encontro para músicos que certamente terão origens e bagagens diversas, mas nenhum deles, sublinhe-se, soa ali imposto à força, com todos a revelarem o entendimento certo das cadências e das vibrações desta cultura, com noção aguda do conceito de groove. Nota máxima para eles. Nos microfones, depois, dispôs-se uma verdadeira dream team eborense: além dos já referidos Valas e Bob, o Vermelho, ainda largaram barras Krazydread, o primeiro a assumir o palco, Cachapa e D. Beat. Ao todo, 11 músicos em palco: reclamar o estatuto de “big band” não é, de forma alguma, exagero.

Para lá da óbvia responsabilidade dos músicos, no entanto, a qualidade do espectáculo pode ainda atribuir-se à mão invisível de Cristina Viana que, longe do olhar do público, assinou o desenho digital em tempo real, criando, ao vivo, ilustrações complexas para cada um dos momentos do espectáculo, pequenas maravilhas de cor, carregadas de personalidade, que pareciam partir da ideia de traço dinâmico de um Keith Haring para um território fantástico, altamente expressivo e perfeitamente condizente com o que se estava a criar musicalmente no palco. Nota máxima para ela, também.

Neste concerto, Valas mostrou a sua “Raiz”, deixando claro porque assentou nos seus ombros a responsabilidade de ter sido de facto a primeira escolha de uma multinacional para a nova realidade editorial do hip hop em Portugal (assinou pela Universal no já distante ano de 2016) e mostrou-se incansável e modesto quando na retaguarda dava “backs” a outros filhos da terra. No final do concerto, um freestyle colectivo deixou claro que o nível do rap em Évora está elevado e que neste Bairro se respira saúde e cultura. E tudo aconteceu numa Praça do Giraldo já totalmente preenchida, com muitos locais a sintonizarem-se com os também inúmeros visitantes num colectivo balanço que é, afinal de contas, o segredo desta cultura. Este Bairro pode, de facto, ser uma ilha, mas está cheia de pontes e só lá não chega — ou só não sai de lá… — quem não quiser.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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