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Fotografia: Sebastião Santana

Quando sabotar é o início de algo bom.

Notwan sobre Sabotagem: “Está a ser um pretexto para eu pôr os pés na rua em nome próprio”

Fotografia: Sebastião Santana

A arte de remisturar implica reinventar, repescar, reciclar, entre outros gestos começados por “r”. Em Sabotagem, curiosamente, tais ideias não se aplicam: Notwan, colaborador regular de NERVE, já tinha os beats deste EP feitos, sendo “mais originais que o original”. Ficámos familiarizados com estes temas aquando da edição de Auto-Sabotagem, em 2018, nos quais o produtor destas remisturas gravou o saxofone. Dois anos depois, Mestre André decidiu abrir-nos a sua gaveta e mostrar-nos o que era este último registo discográfico de Tiago Gonçalves antes sequer de existir, digamos assim.

Os únicos samples ou registos que vêm do trabalho de 2018 são as vozes de NERVE: os instrumentais foram feitos completamente à parte, como se estivéssemos perante dois sistemas solares de uma mesma galáxia. O mundo soturno e enevoado de Auto-Sabotagem é recuperado, mas alberga mais cores e timbres, numa proposta mais abrasiva e disfuncional, portanto, voltados para sonoridades mais experimentais, com as quais Notwan está já familiarizado – particularmente, mas não unicamente, sentido em “Música de Dança”, a adaptação directa da intensa “Loba”. Há também, sonicamente falando, alguns timbres e samples que surgem duma pesquisa voltada para música tradicional africana.

Sabotagem é uma “desculpa” para estrear a discografia de Notwan em nome próprio, o primeiro de uma série de lançamentos que estão para chegar e nos quais o produtor dá espaço à sua voz, seja em modo rap ou até a cantar. No ano passado, André trabalhou na banda sonora da peça Parlamento Elefante – com o apoio da Bolsa Amélia Rey-Colaço do Teatro Nacional D. Maria II –, lançou com Banha da Cobra e Alforjs, e ainda colaborou em &FANTASMAS de Sã Bernardo, uma edição colaborativa entre a combustão lenta records e o Colectivo Casa Amarela. Apesar da proficuidade do seu trabalho nos campos da electrónica mais experimental, é possível que vejamos o seu leque estilístico a expandir-se no futuro. Estas remisturas são só o princípio.

Ao Rimas e Batidas, Notwan falou sobre a origem de Sabotagem, os (muitos) trabalhos que tem na sua gaveta e a transformação interior que resultou do isolamento.



O que te levou a revisitar o Auto-Sabotagem? Porque escolheste estas três músicas (“Deserto”, “Loba” e “Simone”) para as remisturas? 

A verdade é que isto não foi propriamente uma revisita. Os instrumentais são anteriores ao próprio Auto-Sabotagem final. Por exemplo, a primeira experiência que o NERVE fez da “Deserto” foi num protótipo da “Witchdoctor”, e ele, a certa altura, andou meio atarantado relativamente a beats para o Auto-Sabotagem. Eu tinha a “Witchdoctor” e a “Mão Morta” já na gaveta (eu tenho TUDO na gaveta) que funcionavam bem na “Deserto” e “Simone”, e nessa altura, numa desportiva, pus também as mãos à obra na “Música de Dança”, que foi a única feita mesmo de propósito para a letra. Mas, entretanto, o NERVE também tinha começado a produzir para o EP e decidiu fazer ele tudo, o que acho óptimo. Para mim, no entanto, serviu de desculpa para lançar a primeira coisinha sem grande compromisso de Notwan cá para fora.

No Auto-Sabotagem tinhas só gravado o saxofone, certo? Ou também produziste?

Só saxofone!

Qual foi o processo técnico nestas três produções? Gravaste muitos instrumentos novos, ou grande parte dos sons são samples do arranjo original?

Não há sons nenhuns do Auto-Sabotagem tirando as pistas de voz. As três produções são na verdade de três anos diferentes e já nem sei bem… Eu tenho muitas coisas começadas na gaveta, às quais chego uns anos depois e decido terminá-las. Este foi mais ou menos o caso (tirando a “Música de Dança”) e o pretexto foi adaptá-las à voz do NERVE. [Tira poeira do álbum de fotos]. A “Witchdoctor” faz parte de uma série de beats que comecei em 2015 com uma carga bastante ritualista, com samples de música tradicional africana e não só, com que imaginei um projecto mais longo mas que entretanto se manteve em águas de bacalhau, mas que me parece que talvez haja bom material suficiente para um futuro EP. A “Música de Dança” fiz de propósito para letra. A “Mão Morta” é de Janeiro de 2015 e não faz parte da tal série, acho que é uma daquelas cartas soltas que ganhou sentido com a “Simone”.

Que máquinas usaste para o Sabotagem? Há algum hardware que te puxou mais durante este registo, ou baseias-te mais no digital e no trabalho em DAW?

Eu antigamente até usava o meu MPC1000 e era um prazer, mas a preguiça faz-me ser um nerd do trackpad, eventualmente até uso um teclado MIDI para tocar melodiazinhas e tal, mas se o teclado MIDI está muito longe, o teclado do laptop está sempre aqui para mim.

Estás sempre metido em vários projectos em simultâneo e, quando falaste connosco sobre este EP, mencionaste que este era o princípio de “uma série de lançamentos”. O que está por vir? E com quais dos teus pseudónimos artísticos? O que podes contar?

Exacto. Este EP está a ser basicamente um pretexto para eu pôr os pézinhos na rua em nome próprio — Notwan… devagarinho. Apalpar terreno. Estou a planear lançar brevemente mais um ou dois trabalhos. Um deles com as malhas em que faço rap, que é o que mais me pedem e provavelmente a malta mais anseia. Outro é uma coisa que me deu recentemente, que eventualmente será um trabalho mais longo, mas que foge já um bocado ao hip hop, e roça várias estéticas entre umas electrónicas mais sci-fi (que quem tem ido aos concertos já terá ouvido), spiritual jazz e talvez r&b?, pop?… Não sei bem. Enfim, a revelação é que estou a cantar numas malhas…

Relativamente a outros projectos: estou há anos (desde 2017, intermitentemente) a compor o próximo álbum d’O Morto para a Discrepant, que girará em torno de uma viagem extremamente psicologicamente intensa de carro por Marrocos e, ao mesmo tempo, a compor um outro álbum d’O Morto que, por razões que não posso revelar, tem que sair este ano (sairá pelo carimbo da Rotten Fresh). E estou entusiasmado com o próximo passo de Jibóia desde que começámos a gravar nós próprios o que fazemos e a trabalhar mais com computador, os métodos de composição estão agora a transformar-se e eu estou a adorar os resultados que estamos a ter! Vocês ouviram o “coronaloop #09”? ‘Tá uma maravilha! :D

Estou também bastante entusiasmado com a ideia de compor o próximo álbum de Banha da Cobra, por aí fora no Atlântico, mas também não revelo que é mau agoiro. ;)

Além de produtor e músico, és também um investigador de musicologia (ecologia acústica e arte sonora). Tens trabalhado esse músculo? Tens algum paper ou investigação em curso? 

Infelizmente, a vida académica tem uma ligação complicada com a vida real e a vida real tem um impacto bastante evidente nas formas de pensar a academia e o percurso académico. Acho que estou em processo. Tenho desenvolvido trabalho como artista sonoro no campo da instalação, e desenvolvido ideias que certamente me serão úteis numa eventual continuação do meu percurso académico. Estou neste momento em Melbourne a trabalhar como assistente de investigação de um artista sonoro investigador na RMIT University, basicamente a ser o nerd técnico que resolve problemas práticos, tipo: como processar em tempo real o som de um microfone de contacto numa árvore ao ar livre sem um Macbook Pro, por aí fora. Mas estou mortinho por voltar para Portugal, que esta situação, mais vicissitudes da minha vida, aliadas à pandemia (embora eu esteja na prática num dos sítios mais protegidos), afectou-me a vida profundamente a vários níveis… até me pôs a cantar em malhas pop, vejam bem! Então estou num processo intenso de transformação interior e este isolamento, e tudo o que o envolve, está a ser um grande desafio. Mas, como me diz a minha grande amiga Miró (Sequin), isto vai fazer de mim um diamante. E é esse o meu objectivo. Próximo disco vai-se chamar “Auto-ajuda” (risos). ‘Tou a gozar.


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