Notas sobre o exercício de opinião, a imparcialidade e o jornalismo que praticamos

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Neste admirável mundo digital há um novo paradigma: o exercício de opinião deixou de ser exclusivo daqueles que tinham algum tipo de voz ou espaço nos media tradicionais — rádios, jornais e revistas ou televisões. Hoje, cada um de nós — fazendo uso das possibilidades oferecidas pelas redes sociais, pelas plataformas de publicação de blogues, vídeos ou podcasts — pode muito facilmente colocar-se na posição de emissor de opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Mas a democratização desta possibilidade do exercício de opinião não clarificou, antes deturpou o que é isto de ter uma voz crítica sobre o mundo.

Permitam-me que me concentre no Rimas e Batidas. A nossa revista digital emite opinião, mas, em boa verdade, também se sujeita à opinião dos que nos seguem, lêem, vêem e escutam. Desde logo através do espaço de comentários a que os conteúdos da revista que são divulgados através das redes sociais estão sujeitos. Quando publicamos uma crítica a um disco ou uma crónica de um concerto, cada um dos nossos leitores é livre de comentar, concordar, discordar, discutir as nossas ideias. E no ReB fazemos questão de nunca censurar qualquer comentário, por muito negativo que possa ser.

Há outra forma, mais discreta, mas porventura ainda mais difícil para nós, dos nossos leitores/seguidores exercerem a sua opinião acerca do nosso trabalho: simplesmente deixando de nos lerem e de nos seguirem nas redes onde vamos divulgando os nossos conteúdos. Optar por não prestar atenção ao nosso trabalho também é uma forma de exercer uma crítica sobre o mesmo. Não nos agrada, mas aprendemos a viver com isso.

Um par de ideias sobre como entendemos o exercício da opinião aqui no ReB. Muitos dos feedbacks que recebemos, de forma pública e aberta, mas também em privado, falam de “imparcialidade”, muitas vezes exigindo essa condição quando emitimos opinião. Ora, uma opinião nunca poderá ser imparcial: ela é, em primeiro lugar, informada pelo projecto editorial do ReB, sustentada pelo que entendemos ser o território — musical, estético, etc — em que nos queremos mover; logo depois, a opinião recebe o filtro da bagagem de quem a emite, e por isso ela carece sempre de assinatura: é pessoal, embora desejavelmente transmissível. Escrever críticas — a discos ou concertos — é verter pensamento para a página e pensar sobre o trabalho de alguém nunca é coisa negativa, muito pelo contrário. Devotar horas de audição a um disco, procurar dissecar uma rima ou tentar entender um determinado momento na carreira de um artista a partir de uma perspectiva pessoal pode ser um exercício ingrato se porventura não se alinhar com a opinião dominante, caso ela exista, mas nunca será sintoma de desrespeito precisamente porque implica trabalho, dedicação, tempo e pensamento. Também é para isso que aqui estamos, afinal de contas. Também, mas não só.

Para lá de emitir opinião e pensamento crítico sobre o objecto da nossa atenção editorial — os discos, as rimas e os beats, os concertos, vídeos, etc — o ReB também assume como missão informar os seus leitores. Não sobre tudo, claro: não somos uma publicação de desporto, de sociedade ou “lifestyle”, como agora também se diz, de ciência, de política ou economia, de automóveis ou de tecnologia, de moda, de culinária ou de história. Não somos sequer uma publicação “de música”. Somos, isso sim, uma revista que devota a sua atenção aos mundos do hip hop e da música electrónica, permitindo-nos esse âmbito desvios pontuais por terrenos do funk, reggae ou do jazz, da soul ou de algum rock. Acreditamos que olhamos para estas galáxias musicais com as lentes generosas que o hip hop forneceu a DJs e produtores ao longo dos tempos: se a música possui um certo groove, se costuma infiltrar-se no hip hop ou na música electrónica por via do sampling, então poderá também merecer a nossa atenção. Não faz sentido para nós falar de hip hop e ignorar a música que os produtores samplaram nestes últimos 30 anos, falar da Príncipe ou Enchufada e não prestar atenção às incríveis reedições da mesma música africana que inspirou os seus artistas. E por aí adiante.

Temos portanto espaço para notícias e entrevistas, para conteúdos mais informativos e directos, por oposição a outros mais críticos e subjectivos. Assinamos sempre estes últimos, pois dependem sempre de uma voz individual, nem sempre assinamos os primeiros, pois reflectem antes a nossa postura colectiva.

Posto tudo isto, há que esclarecer que não podemos nem queremos “ir a todas”. Nem todos os lançamentos de hip hop ou electrónica nos interessam. Ou porque não se alinham com o que entendemos serem as linhas estéticas com que estamos mais sintonizados, ou porque falham na qualidade que procuramos. Às vezes também somos limitados pelo tempo, pela dimensão da nossa equipa ou pelo volume de trabalho que temos em mãos. Portanto não falamos de, não escrevemos sobre, não prestamos atenção a tudo. E não existimos para “partilhar”, “divulgar” ou “promover”, antes para informar, criticar, reportar.

No caso dos concertos, uma nota em particular: o ReB viu este ano espectáculos no Lisboa Dance Festival, Bourse Rideau, Caparica Primavera Surf Fest, Westway LAB Festival, NOS Primavera Sound, Sumol Summer Fest, Jardins Efémeros, Super Bock Super Rock, Beat Fest, O Sol da Caparica, EDP Cool Jazz, NOS Alive, MEO Sudoeste, Work On Sunday, Neopop, Festival F, ZigurFest, Artes à Rua, Nova Batida, Lisb-On, Portugal Alive, Iminente… Festivais por todo o Portugal, mas também no Canadá, Espanha e Holanda. A equipa ReB prepara-se ainda para o Parkbeat, Semibreve, Mucho Flow, Misty Fest, Super Bock Em Stock, Waves Vienna, Red Bull Music Academy de Berlim… E isto, claro, sem mencionar concertos isolados em salas espalhadas por todo o país e não só. Estivemos em Amesterdão a ver Kendrick Lamar, em Paris a venerar Beyoncé e Jay-Z, espreitámos Masego em Barcelona e tanto mais.

Não podemos — nem queremos — ver tudo. Ou porque já vimos antes, ou porque nestes eventos acontece tanta coisa em simultâneo que não é humanamente possível estar em todo o lado ao mesmo tempo.

Claro que perdemos coisas importantes: discos que saem e de que não conseguimos dar opinião crítica, vídeos que estreiam e que não conseguimos ver, livros, documentários, exposições e debates a que não somos capazes de dar a devida atenção. E concertos, claro, a que, por alguma das razões antes enumeradas, não queremos ou conseguimos assistir.

Nestes casos pensamos sempre que lá estaremos da próxima vez. Porque o amanhã é sempre mais importante do que o hoje e o hoje mais urgente do que o ontem.

É do cruzamento de tudo isto — da vontade de informar e do dever de criticar, do tamanho da equipa, da capacidade de assumir trabalho, da divisão de tarefas, dos gostos colectivos e individuais, da disponibilidade… — que nascem os nossos conteúdos: as notícias imparciais e objectivas, as críticas subjectivas e parciais, as reportagens com um bocadinho de tudo, as crónicas e as entrevistas, e pontos-de-vista como este.

Continuem desse lado. Não precisam de ler sempre e sempre que lêem não precisam de concordar com tudo. Mas isto, como sabemos agora, é cada vez mais um diálogo. E num diálogo, vocês também têm algo a dizer. Podem fazê-lo nas caixas de comentários e respostas nas redes. Ou mandando-nos dar uma volta…

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu