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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #9: João Barradas / André Fernandes / Azar

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.


[João Barradas] Solo I (Live at Centro Cultural de Belém) + Portrait / Nischo + Inner Circle Music

Procurar novos ângulos para abordar um instrumento estabelecido, cristalizado no imaginário colectivo, pode ser um desafio titânico, que o digam John Cage, Jimi Hendrix ou Peter Evans, não é? Mas, invariavelmente, esse gesto traduz o pensamento profundo do artista sobre o que possa eventualmente ser a sua ferramenta de eleição e o espírito inquieto do criador que nunca desiste de questionar os limites da arte ou pelo menos da sua arte. Em 2020, o acordeonista português João Barradas apresenta uma dupla visão desse pensamento que produz e desse espírito que o inquieta sob a forma de dois registos, Solo I (Live at Centro Cultural de Belém) (trabalho apenas disponível, para já, como edição digital para as plataformas de streaming) e Portrait, álbum que conhece edição colaborativa da Nischo e da Inner Circle (está disponível em CD).

Solo I será, porventura, o mais intrigante e entusiasmante destes registos, por nos permitir escutar esse pensamento e inquietude sem as “distracções” de um mais amplo contexto de ensemble, como acontece em Portrait. São 10 momentos de absoluto improviso em acordeão clássico e acordeão MIDI que reproduzem fielmente o alinhamento do recital registado em Novembro último. Essa exposição extrema e sem a rede que o recurso a um reportório composto lhe poderia proporcionar revela toda a amplitude de recursos de que Barradas dispõe: de técnica sólida e superior, este acordeonista é também um artista equipado com amplas referências estéticas, capaz de correr o longo caminho passível de estabelecer entre o jazz fusionista à lá Joe Zawinul ou Chick Corea tal como praticado na década de 70 (como se pode escutar em “Solo, Pt. V”) e as derivas mais acercadas da música contemporânea de uma Pauline Oliveros, que também explorou outras formas de fazer soar o acordeão, (em “Solo, Pt. I”). É quando Barradas, no entanto, usa as capacidades MIDI do acordeão para explorar outras texturas (que podem ir do cristal do piano Rhodes à névoa tímbrica mais difusa que associamos aos sintetizadores clássicos) que o seu universo realmente se expande, alcançando as estrelas (“Solo, Pt VI”) em meditações de beleza transcendente. O facto da inteligente gravação (o álbum foi misturado e masterizado nos Estúdios de Vale de Lobos por Pedro Vidal, mas não é creditada a responsabilidade do registo em Belém…) nos “revelar” o espaço em que teve lugar esta viagem (lembrando-nos que há apenas alguns meses ainda se ouvia gente a tossir em espectáculos…), deixando-nos perceber a presença da audiência, o teclar de João Barradas ou os seus movimentos corporais, só confere a Solo I uma dimensão ainda mais humana e de beleza sinceramente arrebatadora que se vai desenrolando em natural crescendo à medida que o músico se deixa transportar pela sua própria interpretação. O final decorre num espaço espiritual elevado, de uma solenidade quase religiosa, que num par de auscultadores de qualidade poderá mesmo cortar-nos a respiração.

Portrait é farinha de outro saco, mas, diga-se já, o “pão” que dela se obtém é igualmente delicioso. Acompanhado pelo saxofone tenor do americano Mark Turner, pelo vibrafone do francês Simon Moullier, contrabaixo do italiano Luca Alemmano e bateria da espanhola Naíma Acuna, João Barradas apresenta-nos o sucessor de Directions, trabalho que já datava de 2017. A menção das nacionalidades, neste caso, pretende sublinhar esse lugar criativo comum que este “retrato” deseja apresentar. Nas notas que acompanham a edição, o líder João Barradas faz questão de frisar que este é o seu registo mais “livre” no sentido de ter menos “coisas” escritas: “Menos informação”, explica o acordeonista, “não existem grooves definidos, nem grandes kicks ensaiadas”. Menos mapas, mais espírito de aventura. Menos indicações, mais intuição. E a verdade é que nesse lugar de ninguém em que todos se encontraram, a comunicação aconteceu de forma natural e fluída. A gravação aconteceu em Vale de Lobos sob os comandos de Pedro Vidal (seria bom saber em quantas sessões…), e o resultado é de total clareza, com o carácter distinto de cada instrumento a ocupar o devido espaço no generoso “ecrã” sonoro. Turner participa em menos de metade do álbum (faz-se ouvir apenas em 4 das dez faixas), decisão que permite maiores diálogos entre o som etéreo do vibrafone de Moullier e a respiração intensa de Barradas, que volta a usar não apenas o acordeão convencional, mas também a versão MIDI com que, como é seu apanágio, se aventura noutras “vozes”.

Entre passagens mais baladeiras, que permitem que cada músico se espraie em discursos de lirismo mais pronunciado (em “Common Good”, por exemplo, o contrabaixo de Luca Alemmano conduz-nos por uma belíssima avenida, com pulso seguro e elegante, sugestão a que Barradas responde via electrónica com um solo de “Rhodes” profundamente evocativo e de equivalente sofisticação), ou momentos de cadência mais pronunciada que traduzem evidente prazer de partilha de ideias, o líder desenha um sólido retrato do seu acordeonismo progressivo. E com o saxofonista Mark Turner ao lado, beneficiando do seu assertivo e imaginativo discurso como, por exemplo, bem demonstrado em “Joy Rider” (tema de Wayne Shorter e única peça não assinada pelo acordeonista), a música de João Barradas ganha uma mais vívida abstracção, nunca se escusando o seu “respirar” de secundar com brilho o “sopro” de quem nesse caso aponta caminho: o “diálogo” entre o saxofone o acordeão acústico no final do tema é particularmente feliz na forma como nos enreda numa “história” que tem uma conclusão tão inesperada como a de alguns filmes mais memoráveis. E essa é, enfim, a maior qualidade da música de João Barradas, que consegue ser cerebral e emotiva, desafiante e estranhamente confortável ao mesmo tempo. E para se ser assim, diverso e múltiplo, é preciso talento e capacidade de risco, valores que João Barradas tem de sobra.


[André Fernandes’ Centauri] Dianho / Nischo

É André Fernandes que dá o mote para o arranque de Dianho, o trabalho com que sucede a Draco, álbum que a Nischo lançou em 2018. Ao lado do guitarrista voltam a estar José Pedro Coelho (sax tenor), João Mortágua (saxes soprano e alto), Francisco Brito (contrabaixo) e João Pereira (bateria), os centauros que André Fernandes continua a orientar através de um mundo povoado de figuras fantásticas que, desta vez, são reclamadas ao nosso imaginário folclórico depois de uma apaixonada leitura de Bestiário Tradicional Português. É daí que chegam as tenebrosas – ou nem por isso… – figuras que inspiram os títulos das sete peças, de “Maria Gancha” a “Bicha-Serpe” passando por uma “Velha da Égua Branca” que percorre as noites armada com uma faca gigante com que liberta animais fazendo um “barulho assustador”, como nos revela Fernandes.

Esta mitologia popular, misto de bruxarias e animismos sobrenaturais, foi-se erguendo como forma alternativa de explicar o mundo ou de incutir medo nas crianças (a Maria Gancha, explica-nos ainda o patrão dos Centauri, vive nos poços e é um perigo para as crianças curiosas…), mas apesar da fonte de inspiração para este trabalho, não se pode dizer que este Dianho soe como a banda sonora de um qualquer festival de arrepios. Ao invés, o álbum apresenta-se como um intrigante exercício que Mário Delgado, outro notável guitarrista que oferece algumas palavras como notas de capa, descreve como “polimórfico”. Na verdade, a linguagem guitarrística de Fernandes, que assina todas as composições que servem de ponto de partida para as derivas do quinteto, soa bastante coesa, contida e refreada, não se prestando aos “barulhos assustadores” que a matéria de reflexão literária poderia sugerir. Com o primeiro plano tímbrico quase sempre dominado pelos sopros, Fernandes revela-se um discreto colorista que num plano mais recuado vai pintando figuras de uma abstracção sobretudo poética e nunca expansiva no sentido “eu, eu, eu” que a destreza técnica às vezes pode sugerir. Ainda assim, como acontece em “Tardo”, é uma delícia escutar André Fernandes a desmontar o assomo bluesy em que começa por embarcar, carregando o tema cujo título remete para uma figura nocturna capaz de se transformar em lobisomem numa ronda da noite de espírito paradoxalmente bastante lúdico. Por outro lado, e para dar apenas mais um exemplo, as “Aventesmas” “de túnica branca” que dão o mote para o tema seguinte não incutem, como no folclore, o medo, antes se resolvem como tranquila e breve exploração de pequenas figuras circulares, sem espaço para o “bú” que nas histórias de assombro fazem os pelos da nuca eriçarem-se.


[Azar] Miles Davis – Azar Reworks / Jazzego

Quando Miles Davis gravou Bitches Brew tudo estava em mudança: o mundo, o jazz, os estúdios. E esse registo que contava com um elenco de luxo – de Wayne Shorter a Chic Corea, Joe Zawinul, John McLaughlin, Dave Holland ou Jack DeJohnette, entre outros – é um portentoso documento dessas transformações: Miles vivia então uma electrizante (no sentido literal) relação com Betty Davis que lhe abriu os ouvidos para o psicadélico universo de Jimi Hendrix, Sly Stone e James Brown, o que o levou a pensar a música em termos radicalmente diferentes dos que tinha experimentado em In A Silent Way, por exemplo. Mais energia, mais nervo rock, mais riffs, menos complexidade nas mudanças de acordes, mais voltagem na fórmula dos instrumentos. Dessas gravações nos estúdios da Columbia em Agosto de 1969 emergiu o material que depois Teo Macero esculpiu na fita magnética com tesoura e cola, criando “edits” a partir de momentos diferentes das jams, desenhando a posteriori uma música que sempre viveu do momento, gesto radical que marcou o futuro oferecendo um manual de boas práticas para o que viria a ficar conhecido como jazz de fusão.

No momento presente, em que essas experiências de fusão dos 70s parecem estar de novo a orientar laboratórios com sede de futuro (que o diga a malta da Brainfeeder), compreende-se – ainda por cima à luz de um recente 50º aniversário – que Bitches Brew volte a inspirar e a desafiar criadores. Caso do português Azar, aka Sérgio Alves, teclista e DJ portuense que tomou como suas as dores de crescimento eléctrico de Miles usando a matéria de 1970 para este exercício que marca o arranque da aventura Jazzego, etiqueta comandada por André Carvalho e Hugo Oliveira, aka Minus, dois incansáveis agitadores da batida particular da Invicta.

Em quatro breves faixas (que tão bem encaixariam num 12 polegadas… “just sayin’…”), Azar extrai argumentos de pista da matéria conjurada há meio século e que, muito sinceramente, continua a traduzir futuro. Nas mãos de Sérgio Alves, os pianos eléctricos, os pulsares graves e o expressionismo abstracto de Miles adquirem uma fluidez ainda mais moderna que encaixa em cadências mais hip hop (“Sanctuary”) ou de feição mais “housey” (como sucede em “Spanish Key”), mas com as suas “apropriações” a nunca resultarem descabidas ou desprovidas de sensibilidade. Muito pelo contrário: é sempre óbvio que se trata de uma sentida vénia a um mestre que Azar terá certamente a sorte de contar entre os faróis que lhe iluminam o caminho. Na verdade, ilumina-nos a todos.

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