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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #8: Lakecia Benjamin

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.


[Lakecia Benjamin] Pursuance: The Coltranes / Ropeadope

John Coltrane morreu aos 40 anos, em 1967, mas se tal não tivesse sucedido, não é preciso abusar em demasia do sentido especulativo para argumentar que o genial saxofonista teria, certamente, olhado para o hip hop. Afinal de contas, Miles Davis, que era uns meses mais velho do que John Coltrane, lançou Doo Bop quando já contava 66 anos. Se, por um lado, My Favorite Things, lançado em 1961, mostrava Coltrane a abordar o disco mais vendido do ano anterior, The Sound of Music, e se, por outro, “Alabama”, tema que gravou três meses depois de um ataque bombista do Ku Klux Klan que vitimou quatro meninas negras, em Setembro de 1963, e que motivou o histórico discurso de Martin Luther King, Jr. a partir do qual moldou o seu extraordinário solo, revelava a importância que o saxofonista atribuía às vozes que se erguiam contra as injustiças do seu tempo, então não é esforçar demasiado a imaginação pensar que o hip hop de inícios dos anos 90 que se começou a instalar no topo das tabelas de vendas poderia ter-lhe inspirado novos solos, novos discursos musicais. Coltrane teria, certamente, escutado 2Pac e os Public Enemy, A Tribe Called Quest, Rakim…

Lakecia Benjamin é uma jovem saxofonista alto que acaba de editar um sentido tributo aos Coltranes, John e Alice, registo em que reúne uma série de luminárias de diferentes gerações do jazz para a ajudarem na sua releitura de um cânone que se tem revelado dos mais duradouros do jazz. Em entrevista a Francisco Noronha do Público, Lakecia confirma essa ideia quando afirma não ter dúvidas de que, caso fosse vivo, Coltrane conheceria a música de alguns dos expoentes do hip hop: “Penso que Coltrane saberia tudo sobre Dilla”. Já Reggie Workman, lendário contrabaixista que trabalhou com John e Alice e que foi um dos mentores de Lakecia durante o seu percurso académico, explica à Downbeat que faz sentido que a sua antiga aluna aplique a sua própria experiência e bagagem nesta releitura da música que ambos os Coltranes espalharam pelas suas respectivas (e altamente reverenciadas) discografias: “John Coltrane ficaria incomodado se fizéssemos o seu trabalho da mesma forma que ele o fez há 65 anos. Os ouvidos dela estão abertos e as suas raízes são fundas e firmes. Este álbum é a sua forma de dizer onde se encontram as suas raízes. Que estão firmemente plantadas e a aguardar para crescerem”.

A abertura de Lakecia levou-a a trabalhar com muitos nomes de várias esferas musicais logo que terminou os estudos na sua Nova Iorque natal: Gregory Porter, David Murray, Stevie Wonder, Alicia Keys, The Roots, Macy Gray, Missy Elliot, Talib Kweli ou Anita Baker são artistas que não dispensaram os seus serviços, em palco e em estúdio, levando-a a aplicar a experiência particular que acumulou ao crescer a ouvir hip hop e música latina num bairro nova-iorquino que é o epicentro da cultura dominicana na América, Washington Heights, e ao estudar noutro bairro, Manhattan, que foi sempre um dos mais fervilhantes hubs do vasto universo do jazz graças a uma ampla rede de clubes históricos.

Escutando o ambicioso Pursuance: The Coltranes percebe-se no entanto que Lakecia está apostada em dar um passo atrás, na direcção das tais raízes apontadas por Reggie Workman, antes de eventualmente dar vários outros em frente, descartando de alguma forma as experiências mais próximas do funk e da soul que informaram os seus dois registos anteriores como líder, nomeadamente Rise Up, trabalho de 2018, para se focar no estudo das ideias de John e Alice Coltrane, aplicando-as no entanto no presente em que se move. O álbum foi gravado, à maneira clássica do jazz, em duas longas sessões que se estenderam por outros tantos dias do último Verão num estúdio de Brooklyn. Brandee Younger, harpista que se tem afirmado como importante peça do presente puzzle jazz, explicou à Downbeat o quão especial foi a ocasião: “Estava lá toda a gente e foi realmente especial. A Lakecia foi muito cuidadosa na sua instrumentação e na selecção dos músicos. E a Lakecia deposita sempre alma naquilo que faz, o que quer que possa estar a tocar. Quando gravámos ‘Going Home’ foi um momento muito belo e espiritual no estúdio, precisamente por causa da alma que ela trouxe para o arranjo”.

Os arranjos assinados por Lakecia espelham, precisamente, a ambição e o fôlego deste projecto, com cada uma das versões – e o reportório foi seleccionado, em partes praticamente iguais, nas discografias de John e Alice – a ser feita com um elenco pensado de forma particular. Na já referida entrevista concedida ao Público, a saxofonista explica que em primeiro lugar pensou em músicos que pudessem trazer para este projecto a memória dos Coltranes por terem com eles trabalhado ou convivido: ou seja lendas do jazz como o já mencionado Reggie Workman, que é co-produtor do álbum, ou o também contrabaixista Ron Carter e ainda o saxofonista Gary Bartz (outro dos seus mentores académicos). Depois, Lakecia seleccionou expoentes da geração seguinte, músicos que têm entre os 50 e os 70 anos, como a cantora Dee Dee Bridgewater, os saxofonistas Greg Osby e Steve Wilson, a violinista Regina Carter, o “declamador” Abiodun Oyewole dos Last Poets e a baixista Meshell Ndegeocello ou o pianista Marc Cary. E, finalmente, gente da sua própria geração – a saxofonista conta agora 38 anos – como a já mencionada harpista Brandee Younger, a cantora Jazzmeia Horn, o baterista Marcus Gilmore, a multifacetada artista Georgia Anne Muldrow (responsável por ter pela primeira vez mostrado Alice Coltrane a Lakecia Benjamin), o trompetista Keyon Harrold ou o saxofonista Marcus Strickland. Ao todo, são cerca de quatro dezenas de músicos envolvidos em Pursuance: The Coltranes, o que é demonstrativo da ambição artística depositada nesta produção (aparentemente auto-financiada e com distribuição através da independente Ropeadope). Desta forma, Lakecia parece dizer-nos que o jazz que os Coltranes sonharam e projectaram para o futuro continua a ser um corpo em constante evolução, uma linguagem a que uma nova geração se entrega com o comprometimento de, não esquecendo as tais raízes fundas evocadas por Reggie Workman, nela empregar as suas próprias experiências ou, como explica Younger, a sua particular alma.

Logo no tema de abertura, “Liberia” (retirado do mesmo Coltrane’s Sound, álbum editado em 1964 mas com material que sobrou das sessões de My Favorite Things, de onde também se subtraiu “Central Park West”, outro dos temas do alinhamento deste Pursuance), o encontro entre os diferentes saxofonismos de Lakecia e do veterano Gary Bartz clarifica uma espécie de manifesto para este registo, expondo duas formas de discurso devocional que se harmonizam, mas que também divergem, deixando claro que a líder deste projecto não está interessada em simplesmente mimetizar o passado, mas muito mais em aprender com ele a projectar o seu próprio futuro. E isso faz-se com uma sucessão de solos elegantes e assertivos, em que Benjamin demonstra claramente estar em plena posse das suas faculdades técnicas – mercê dos diferentes níveis de aprendizagem ao longo de um amplo percurso cultural, académico e profissional que a levou de tocar merengue para públicos dominicanos em Washington Heights a tocar jazz, funk, soul e hip hop em palcos de quatro continentes ao longo de mais de duas décadas de total entrega à música – e portanto à altura dos desafios naturalmente impostos por um casting tão extraordinário como o que reuniu para este álbum.

É verdade que os espíritos de John e Alice funcionam aqui como farol para uma belíssima viagem que se detém em momentos tão especiais quanto “Alabama” ou “Acknowledgment” (um dos “andamentos” do superlativo A Love Supreme) e “Om Shanti” ou “Turiya and Ramakrishna”, mas a referência do monumental legado dos Coltranes serve também para que Lakecia se aventure em águas bem mais distantes dessa “costa”. “O álbum tem por título Pursuance”, explica Lakecia, por fim, à Downbeat, descodificando o mais profundo significado da palavra que, em português, traduz a ideia de “perseguição”, no sentido de esforço para alcançar, “porque ainda continuo a trabalhar para chegar a esse lugar. Esteticamente, estou a tentar chegar ao céu de cada vez que toco”. Lakecia, faz, portanto, muito bem em tomar os Coltranes como guias, como faróis. É que eles descobriram há muito, na sua música, esse caminho que tantos outros procuram trilhar, o da iluminação.


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