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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #27: Tigran Hamasyan / Redman, Mehldau, McBride & Blade

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Tigran Hamasyan] The Call Within / Nonesuch Records

Edições na Verve e na ECM, entre outras, cimentam um talvez tranquilo, mas ainda assim sólido percurso que o pianista arménio Tigran Hamasyan tem vindo a trilhar desde 2009. O novíssimo The Call Within, porém, é já o seu quarto registo na prestigiada Nonesuch, segundo em trio depois de Mockroot (2015), com os restantes a serem exercícios solo plenos da exuberância técnica que já levou Herbie Hancock a declarar-se seu discípulo. Tigran Hamasyan, ressalve-se já agora, tem apenas 33 anos e provavelmente ainda nem falava quando o veterano pianista lançou Perfect Machine, em 1988.

Escutando o ultra-complexo novo álbum, que conta com o incrível Arthur Hnatek na bateria e com o não menos espantoso Evan Marien no baixo eléctrico, percebe-se que Tigran quis assinar uma espécie de manifesto. Claro que um músico com uma tão elevada competência técnica como Hamasyan não poderia brilhar com o seu pianismo se não fosse ladeado por uma secção rítmica de idênticas capacidades. E sim, The Call Within é um daqueles discos que deve estar neste preciso momento a ser dissecado por estudantes de piano, baixo e bateria em todo o mundo, inspirador de uma devoção extrema que justifica que haja quem se esteja a dar ao trabalho de postar transcrições e tablaturas dos diferentes instrumentos no YouTube. Normalmente, devo confessar, esse é o tipo de trabalho que me arrefece imediatamente o ânimo. A proficiência técnica e a demonstração gratuita de complexidade nunca foram valores que me tenham interessado por aí além na música (problema meu, obviamente, não da música), mas de facto parece que o pianista arménio quer aqui tentar algo de novo.

Pegando nalgumas nuances do metal mais progressivo, em modos harmónicos do folclore arménio e, pois claro, na infinita capacidade de invenção do jazz, Tigran Hamasyan consegue em The Call Within cumprir a difícil missão de equilibrar forma e conteúdo, técnica e emoção, rigorosa composição e invenção espontânea. E é esse delicado equilíbrio que de facto agarra quem escuta The Call Within, disco que parece ser igualmente capaz de evoluir com fluidez em tempos rítmicos impossíveis, daqueles que causam calafrios a estudantes de música, mas também de viver de um pulsar emocional muito humano, expresso nas melodias, nas dissonâncias atonais, nos intervalos dos ritmos, na beleza harmónica que sustenta cada uma das ideias. Sim, The Call Within pode ser escutado com metrónomo, lápis e caderno de notas ao lado. Pode ainda ser apreciado com o corpo a tentar encontrar o lugar nos grooves matematicamente avançados que nos propõe. Mas também tem matéria para o espírito, produto natural de um artista que se inspira na poesia, na contemplação dos mapas e nas lendas que o folclore cristão e pré-cristão da Arménia resguardou como sinais fundos de identidade.



[Redman, Mehldau, McBride & Blade] RoundAgain / Nonesuch Records

Comecemos pelos números: juntos, estes quatro gigantes do jazz moderno somam cerca de oito dezenas de discos enquanto líderes (com todos a terem editado os respectivos discos de estreia nessa qualidade entre 1993 e 1998); mas é na ordem das largas centenas que se situa o fôlego combinado das suas discografias se a esses registos se juntar todo o restante trabalho em diferentes regimes colaborativos. É essa vasta experiência que todos possuem, que só se conquista com agendas geridas com absoluto rigor, que justifica que o saxofonista Joshua Redman, o pianista Brad Mehldau, o contrabaixista Christian McBride e o baterista Brian Blade tenham demorado “apenas” 26 anos para se reencontrarem de novo em estúdio os quatro. Moodswing, álbum de 1994 de Redman, foi o primeiro momento em que tal aconteceu, quando todos eram ainda jovens leões em busca do reconhecimento que hoje já ninguém lhes disputa. Mas esse quarto de século bem medido só parecerá muito tempo para os que nunca foram capazes de viver quase sempre no futuro – é que lá, nesse tempo que está sempre por chegar, os anos passam com outra velocidade…

Claro que os currículos que todos construíram entretanto justificam que o protagonismo seja agora repartido na capa de RoundAgain, expressão que se pode traduzir por “de volta”, que é, na verdade, o que aqui acontece: Redman, Mehldau, McBride e Blade estão de volta, mas não exactamente ao mesmo lugar de onde se projectaram em 1994. Nessa altura, o seu jazz fazia-se de um inteligente compromisso entre a história dos modos clássicos e o presente das novas práticas e ideias que então os rodeava, com esse pendor “modernista” a ser, no entanto, suficientemente contido para lhes conseguir garantir um ambicionado espaço de acção no lado mais mainstream da cultura. Nessa altura, o material de Moodswing foi todo composto por Redman, desta vez cada um dos membros do quarteto é chamado a contribuir com pelo menos uma das peças (ainda assim volta a ser o saxofonista o mais prolífico autor, assinando três das peças do alinhamento).

Elegância é aqui a palavra-chave: Redman é um melodista de corpo inteiro, um mestre que sabe pegar em baladas e transformá-las em pedaços de luz intensa, como acontece em “Silly Little Love Song”, mas também entende as subtis dinâmicas do swing e do tempo como tão bem demonstra no tema que oferece o título ao álbum e que é de certa forma o seu centro, “Right Back Round Again”. Claro que a secção rítmica está à altura do solista principal: Brad Mehldau tem duas mãos que entendem de forma profunda como gerir diferentes tempos rítmicos e que sabem “colorir” o espaço harmónico com imaginação e até, é lícito dizer, com um fresco espírito lúdico. Depois, tanto McBride como Blade têm aquela qualidade quase telepática, desenvolvida ao longo de incontáveis sessões, em cima de milhares de palcos por esse mundo fora, que lhes permite tocarem “juntos” ou em contraponto, dominando o pulsar swingante e as cadências mais bluesy (como tão bem demonstrado em “Floppy Diss”, tema assinado pelo contrabaixista) com aquela leveza de quem parece nunca ter feito outra coisa na vida.

Não há um único momento “ahhh!??” neste álbum, algum tipo de rasgo que veja estes agora veteranos a tentarem afastar-se dos terrenos universalmente identificados com o jazz e a arriscarem alguma dissonância mais livre, algum desvio por outro tipo de territórios mais longínquos ou “difíceis”, mas isso não significa também que este reencontro após 26 anos de outras experiências seja desprovido de interesse. Muito pelo contrário: RoundAgain é um sólido álbum de jazz tocado por quatro músicos que estudaram a fundo o idioma e conquistaram por pleno direito um lugar num fluxo cultural e histórico que continua em marcha. E, já se sabe: não há margens, mais próximas ou mais distantes, se não houver uma corrente principal…

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