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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #25: Larry Ochs – Aram Shelton Quartet / Roots Magic / Tyler Higgins

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Larry Ochs – Aram Shelton Quartet] Continental Drift / Clean Feed

A movimentação tectónica a que alude o título do registo que documenta o encontro do saxofonista Larry Ochs (tenor e sopranino) com o quarteto conduzido pelo também saxofonista Aram Shelton (alto) caracteriza-se, essencialmente, por ser lenta e massiva. Essa deriva continental pressupõe afastamento de massas, mas também um encaixe primordial. E essa será uma boa metáfora para o que se escuta neste Continental Drift em que os saxofonistas que lideram esta sessão e que repartem, alternada e igualitariamente, as autorias do material, conduzem um ensemble que conta ainda com os préstimos de Kjell Nordeson (bateria), Mark Dresser (que assegura baixo na primeira de duas sessões, em que se gravaram seis dos oito temas aqui incluídos) e Scott Walton (outro baixista, este de serviço apenas nas faixas 4 e 8 do alinhamento, as que resultaram da segunda sessão).

Ochs, com 61 anos, é um veterano em plena posse de uma assombrosa força, um dos motores do lendário Rova Saxophone Quartet desde finais dos anos 70, pilar da cena jazz da Bay Area, na Califórnia e participante em dezenas de grandes sessões ao longo das últimas quatro décadas. Já Shelton, “jovem” de 44 anos, começou a deixar marcas na paisagem jazz americana em finais dos anos 90, exactamente duas décadas depois de Ochs ter dado os seus primeiros passos, tendo ao longo dos anos participado em trabalhos de Tortoise, Fred Lonberg ou Henry Kaiser, para citar apenas um par de nomes. Dos oito temas do alinhamento, seis foram gravados em Julho de 2013, e os restantes (as peças “Continental Drift” e “The Others Dream”, faixas 4 e 8 do alinhamento, respectivamente) exactamente 5 anos mais tarde. Talvez o material mais recente seja mais feérico e abstracto, com as restantes peças a circularem entre terrenos mais devedores da tradição (“Anita”, peça composta por Shelton, é um bom exemplo, na sua cadência mais baladeira), com diferentes encaixes em noções de tempo rítmico (uma das mais interessantes peças nesse aspecto é “Strand”, da autoria de Ochs, quase parecendo que os dois líderes, o veterano mais associado a São Francisco, o mais jovem tendo feito nome no circuito de Chicago, decidiram encontrar-se em terreno neutro, com o tema a parecer viver com típico pulso e pura energia nova-iorquina).

Ambas as sessões são tremendas, com os dois líderes do quarteto a apresentarem-se em absoluto topo de forma, elegantes no estilo, generosos na entrega e incapazes de cederem um milímetro à facilidade, com a secção rítmica a revelar o nervo necessário para seguir em qualquer direcção proposta, seja qual foi a dose de inventividade que possa estar em causa. E a já citada “Strand” é um bom exemplo disso mesmo, com Dresser e Nordeson a oferecerem aos solistas um criativo trampolim rítmico que os impulsiona até à estratosfera.



[Roots Magic] Take Root Among The Stars / Clean Feed

De acordo com LeRoi Jones (mais tarde Amiri Baraka) em Blues People, o blues é a música que resulta da experiência de “transformação” do negro africano forçado a ir para o Novo Mundo em “negro americano”. A música, explica o poeta e autor, é indissociável desse processo de mutação identitária. Poderia, por isso mesmo, questionar-se o que fazem Alberto Popolla (clarinetes, objectos), Errico de Fabritiis (saxes alto e barítono, harmónica), Gianfranco Tedeschi (contrabaixo) e Fabrizio Spera (bateria, percussão, zither), um quarteto nascido em Roma, quando reclamam como raiz do seu som o blues nascido nos (geográfica, cultural e cronologicamente) distantes  campos de algodão do sul dos Estados Unidos. A resposta poderá estar numa das palavras do nome escolhido para este colectivo: Roots Magic.

Essa magia a que o ensemble romano se refere poderá ser a que explica que os blues tenham igualmente sido reclamados como um pilar do pensamento por trás do free jazz, a outra grande referência destes Roots Magic que aqui chegam ao seu terceiro e talvez mais completo e ambicioso registo (sempre com o carimbo editorial da Clean Feed). Assim, ao lado de peças de Charlie Patton (“Mean Black Cat Blues”) ou Skip James (“Devil Got My Woman”), há por aqui abordagens à obra de Phil Coran (“Frankiphone Blues”), Kalaparusha Maurice McIntyre (“Humility in the Light of Creator”, peça que admite alusões a “Space is the Place” de Sun Ra), Charles Tyler (“Still Screaming for Charles Tyler”), Ornette Coleman (“A Girl Named Rainbow”, tema originalmente gravado por Andrew Cyrille), Sun Ra (“When There is no Sun”) ou John Carter (“Karen on Monday”).

Um lamento resultante de opressão que se transforma em urgente grito de liberdade, portanto, o eixo em que assenta o libertário jazz deste quarteto pontualmente dilatado neste assombroso trabalho (Eugenio Colombo acrescenta flauta e flauta baixo em “Frankiphone Blues” e “Devil Got My Woman”, respectivamente, e Francesco Lo Cascio junta-se igualmente aos mesmos dois temas, no primeiro em vibrafone e no segundo em gongo). E é essa telúrica, porventura mágica, força que lhes guia os aventureiros passos pelo reportório cuidadosamente escolhido e a espaços radicalmente transformado. A visão que os Roots Magic possuem dos blues, e já agora do free jazz, não é estanque ou académica, antes emocional ou estética, uma abordagem que os liberta, muito literalmente, para se inscreverem eles mesmos num fluxo histórico que continua aberto a mutações. O resultado é uma música carregada de audácia, espírito de aventura, servida por um grave sentido sonoro, como se os Roots Magic quisessem fazer estremecer as fundações da própria História, não para a destruírem, antes para lhe sacudirem o pó, expondo as suas cicatrizes, conquistas, os seus lados mais sombrios, mas também os episódios de afirmação mais brilhantes.



[Tyler Higgins] Broken Blues / Clean Feed/Shhpuma

As primeiras três notas de “Electricity”, de tão redondas e transparentes, quase prometem uma leitura ligada à corrente de “Mudar de Vida” do mestre Carlos Paredes, uma ideia não tão rebuscada assim quando se pensa que este já é o segundo trabalho do guitarrista americano inscrito no catálogo da editora lisboeta. Tyler não seria, certamente, o primeiro americano fascinado pela obra do mestre da guitarra portuguesa. Mas essa é uma micro-coincidência cósmica derivada de uma mesma ambição: tanto Higgins como antes dele Paredes entendem que o silêncio é afinal o lugar onde repousa toda a música.

Tomando os blues – e os seus derivados, o gospel, a folk e todo o jazz – como ponto de partida, o guitarrista – que aqui também assume pontualmente o órgão, além de assegurar as peças originais e respectivos arranjos – amparado pelo contrabaixo de Gabriel Monticello e pela bateria de Paul Stevens (que também toca piano), assina aqui uma viagem ao âmago de uma cultura, pegando em ecos de hinos, de um país ou de uma igreja, no lado mais rugoso de um som que se estendeu do Delta às vibrantes ruas de Chicago e mais além, pega no lado solene de uma música que também soube ser de diversão pura e de invenção livre e transforma toda essa viagem num recital sério e profundo, demorando-se em cada nota, permitindo que o silêncio recorte cada som, obrigando-nos assim não a afixarmo-nos em melodias, antes no valor intrínseco de cada gesto deliberado da guitarra, na vibração harmónica amplificada, nas sombras de cada frequência. E tudo isto enquanto os seus companheiros de viagem lhe proporcionam subtil referência, descurando o tempo tradicional em favor de uma leve acentuação que não se prende a noções estabelecidas de groove, antes oferece coloração adicional para as abstractas figuras que se compõem a partir desse mergulho na mais funda alma musical americana que existe.

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