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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #16: Manuel Mota / Giovanni Di Domenico & Manuel Mota / Pedro Melo Alves

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Manuel Mota] LPC / Headlights

Talvez a designação desta coluna, Notas Azuis, nunca tenha encaixado tão bem na música por aqui semanalmente abordada quanto neste trabalho do guitarrista Manuel Mota, homem do leme da editora Headlights. Não que sejam “notas musicais”, o que Manuel aqui apresenta, antes “notas” no sentido de apontamentos ou pensamentos, pequenas e decididamente melancólicas observações de um mundo em suspensão.

O guitarrista tem uma constante e prolífica actividade editorial (e mais abaixo encontram igualmente algumas “notas” sobre outro trabalho recente, mas ao lado de Giovanni Di Domenico), não apenas para escoar os resultados das suas próprias demandas, mas também para apresentar obras de outros artistas (além deste LPC e da já mencionada colaboração que é Dyspnea (parts I-IX), a sua etiqueta já lançou este ano álbum de Takashi Masubuchi e Shizuo Uchida). O que é obviamente sinal de mente em constante, ainda que aparentemente tranquila, ebulição criativa.

Em LPC, Mota apresenta uma dúzia de delicadas miniaturas, pequenos raios de luz refractada, em jeito de banda sonora para filmes em alta-definição que mais não fazem do que acompanhar uma aranha que tece uma intrincada teia ou as gotas de água que se soltam de pedaços de gelo que o sol faz derreter no final do inverno. E como acontece com as imagens destes pormenores naturais, quando muito próximas e ampliadas, também este sereno dedilhar de Manuel Mota se torna profundamente abstracto. Nestas 12 peças, que nunca ultrapassam os 3 minutos, obtém-se a sensação de um fluir contínuo, sem se perceber onde começam e acabam, como se o guitarrista apenas rodeasse o silêncio procurando uma forma de com ele se conciliar. Desta forma, quase tudo desaparece: a técnica, os desenhos melódicos mais expansivos, as “narrativas”, quedando-se a música na sua dimensão microtonal, quase atómica, farrapos reverberantes de um mundo feito de espectral luminosidade.



[Giovanni Di Domenico & Manuel Mota] Dyspnea (parts I – IX) / Headlights

Este álbum resulta de uma gravação durante uma residência artística em Bruxelas, no Theatre La Balsamine, em Abril de 2018. E é um objecto muito distinto de LPC, não apenas porque à guitarra de Manuel Mota se junta o Fender Rhodes de Giovanni Di Domenico, mas também porque os trilhos musicais aqui percorridos por ambos são claramente outros.

Dyspnea, revela-nos o sábio Google, é uma condição médica caracterizada pela falta de ar, pela dificuldade em respirar. E é obviamente escusado sublinhar o quanto essa ideia traduz alguns dos dramas do presente. De facto, o que em LPC é luz, é detalhe e contemplação natural, aqui é sombra de carregados tons nocturnos, profundeza abissal, reverberação abissal, numa toada bem mais opressiva – e é difícil, quando se descobre o significado do título, descartar a palavra “sufocante” (e basta escutar a “part IV” para se perceber isso).

Há uma clara sintonia na forma como Mota e Di Domenico abordam os seus instrumentos, parecendo ambos muito pouco interessados nas suas clássicas capacidades expressivas, tomando-os antes como fontes geradoras de névoa harmónica, permitindo que os fragmentos eléctricos que cada um vai extraindo do seu respectivo instrumento se entrelacem até que, por via pontual do processamento, se torna difícil distinguir o que nasce das teclas ou das cordas.

A contemplativa abstracção continua a ser o caminho neste trabalho de edição limitada da Headlights, mas se LPC de alguma forma remete para uma ideia de aproximada observação, já Dyspnea sugere antes um olhar interior, as imagens que, no escuro, o nosso cérebro conjura naqueles momentos em que já não sabemos bem se estamos acordados ou imersos no mais estranho dos sonhos. E a beleza do que se adivinha para lá das sombras, ainda que eventualmente perturbadora, é total.



[Pedro Melo Alves] Zero of Form / Ed. de autor

Primeiramente apresentado como uma performance captada em vídeo, este Zero of Form agrega uma série de estudos  de Pedro Melo Alves sobre o seu instrumento, a bateria. Subtitulado Prepared Drums Studies, este lançamento digital precede uma edição iminente na Clean Feed, In Igma, que a seu tempo por aqui se abordará.

Nas notas que amparam o lançamento, Pedro Melo Alves refere a ideia do timbre como a derradeira verdade de um músico, tal como, revela-nos, por si discutido em tempos com o guitarrista Afonso Pais. O baterista explica ainda que dos seus sucessivos encontros com outros músicos nos círculos da música contemporânea e experimental resultou uma noção de que é por vezes nesses “espaços partilhados que algo de luminoso acontece”: “É quando se alcançam estes territórios desconhecidos, exteriores às nossas pequenas verdades, que se aprende algo novo”.

Nestas peças gravadas em Abril último no Ermo do Caos, no Porto, Pedro Melo Alves investe nessa íntima e necessária busca pela sua própria identidade tímbrica, procurando no seu instrumento aumentado com vários objectos e outros elementos percussivos, os detalhes sonoros que escapam às tais “pequenas verdades”.

Usando címbalos criados por João Pais Filipe, Melo Alves traz brilho metálico para as suas bases sépia arrancadas às madeiras e às peles tensas, espalhando pelo ar ao seu redor um conjunto de sons que podem ecoar algumas manifestações naturais (trovões, cascatas, deslocação de material rochoso…), mas que são sobretudo som puro, não organizado em cadências formais, sem mergulhos no rigor matemático dos ritmos estruturados. E, de forma talvez até paradoxal, isso permite-nos entender um pouco melhor a bateria, as suas capacidades, a sua funda riqueza tímbrica. Estes estudos são, enfim, Pedro Melo Alves a retratar os seus próprios anseios, a tentar encontrar-se na sua própria e mais funda verdade. E, nesse sentido, é uma viagem fascinante que o músico, generosamente, nos dispõe diante dos ouvidos. E dos olhos.

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