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Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 26/01/2026

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #147: The Cosmic Tones Research Trio

Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 26/01/2026

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.


[The Cosmic Tones Research Trio] The Cosmic Tones Research Trio (Mississippi Records)

Há uma tendência recorrente, quando se fala de jazz espiritual, para o tratar como um capítulo fechado da história, uma constelação luminosa situada algures entre meados dos anos 60 e o início dos 70, com nomes como John e Alice Coltrane, Pharoah Sanders, Don Cherry ou Sun Ra a ocuparem o panteão. Tudo o resto que possa ter chegado depois serão pastiches. Mas essa leitura é redutora. O jazz espiritual nunca foi uma corrente assente em códigos rígidos: foi, desde o início, uma postura ética perante o som, uma recusa em aceitar a música como mero entretenimento ou forma, propondo-a antes como via de elevação, cura e consciência, sobretudo numa era em que as lutas de afirmação e emancipação se impunham como urgências incontornáveis. E se é verdade que esse “rótulo” tem sido reclamado ou usado nos últimos anos com alguma superficialidade, não é menos verdade que há igualmente quem entenda o peso histórico dessa ideia, a respeite e a carregue para o futuro. Até porque as lutas da era do Movimento dos Direitos Civis não se traduziram em vitórias plenas e o mundo parece continuar a arder.

É precisamente nesse fio histórico — mais filosófico do que estilístico — que se inscreve o homónimo The Cosmic Tones Research Trio (Mississippi Records, 2025). O trio de Portland formado por Roman Norfleet (saxes alto e soprano, clarinete alto, flauta, percussões e voz), Harlan Silverman (violoncelo, sintetizador modular, harpa, flauta, pequenas percussões e baixo fretless) e Kennedy Verrett (piano acústico e eléctrico, pequenas percussões, duduk, vozes) não busca uma reconstituição arqueológica desse passado e prefere assumir a sua prática artística como a continuação natural desse original impulso criativo do espírito num presente saturado de ruído, violência política e agitação social profunda.

A própria designação do grupo é reveladora: “Cosmic Tones”, mas sobretudo “Research”. Há aqui uma noção de investigação que ecoa o modo como os músicos dos anos 60 encaravam o som como matéria viva, com propriedades físicas, espirituais e comunitárias. Em entrevista a Yaz Lancaster disponibilizada pela própria Mississippi Records, Roman Norfleet descreve esse impulso de forma cristalina: “Todos nós somos investigadores sonoros por direito próprio. E o aspeto cósmico disso refere-se apenas à universalidade do que a música é, do que pode ser e do que será. Abraçando o divino e o espiritual na palavra ‘cósmico’…” Nesta frase cabe praticamente toda a genealogia do jazz espiritual: a ideia de que o som é um veículo de ligação entre os planos físico, mental e espiritual.

Historicamente, o jazz espiritual emergiu num contexto de urgência política e existencial. Obras como A Love Supreme ou Journey in Satchidananda afirmaram-se como declarações de fé no poder infinito da própria música e como instrumentos de transformação interior. O que distinguia essas obras não era um conjunto fixo de recursos formais, mas a convicção de que a música podia alterar estados de consciência.

Esse princípio é audível em The Cosmic Tones Research Trio. O álbum evita picos dramáticos, virtuosismos ostensivos ou estruturas convencionais. Em vez disso, propõe paisagens sonoras contínuas, baseadas na respiração dos instrumentos, na escuta mútua e na inteligente e subtil exploração do espaço entre as notas. Como refere Harlan Silverman, há uma linha condutora no disco: “O álbum nunca se apresenta com dinâmicas e volumes pronunciados. É tranquilo e pacífico do início ao fim”. Essa recusa da dinâmica agressiva é, por si só, um gesto político num tempo de excesso sensorial. Mas talvez a chave mais reveladora venha novamente de Norfleet, quando descreve o disco como o “óleo essencial” do trio: “É a versão destilada de nós mesmos. A nossa música do coração”. A imagem é feliz: tal como um óleo essencial, esta música é concentrada, densa em intenção, exigindo uma relação sensorial plena. Não se ouve de passagem, sente-se e respira-se.

Essa dimensão respiratória, tanto literal como metafórica, liga o trio às práticas rituais do jazz espiritual clássico. Nas entrevistas, os músicos falam de tonificações coletivas antes dos concertos, de incenso, de chamadas e respostas com o público, de uma preocupação em envolver todos os sentidos na experiência que é sempre comunal e extática. Kennedy Verrett sublinha igualmente a importância da psicoacústica e da “arte de ouvir” como prática transformadora. Aqui, a escuta deixa de ser passiva e torna-se participação.

Em termos históricos, isso coloca o trio numa linhagem que vai de Coltrane a Alice, de Sanders a Don Cherry, mas também dialoga com uma geração contemporânea que recupera essa herança não como revivalismo, mas como necessária resposta aos tempos agitados que atravessamos. Publicações recentes têm apontado para um ressurgimento do interesse pelo jazz espiritual como resposta à fragmentação digital, política e social do presente. Esta é, de facto, música que exige tempo, presença e interioridade. É nesse ponto que The Cosmic Tones Research Trio se torna particularmente pertinente. Norfleet reconhece explicitamente o contexto em que a música é criada: “Estamos a tentar equilibrar a equação sonora do mundo neste momento… inserir mais paz, mais harmonia e cura”. 

O trio não oferece catarse, oferece estado. Não oferece clímax, oferece continuidade. E é precisamente essa continuidade que liga este álbum ao verdadeiro espírito do jazz espiritual: a música como prática de atenção, como espaço de comunhão, como ferramenta de reorganização interior. Essa proposta radical do The Cosmic Tones Research Trio resolve-se numa música que evolve em espirais melódicas e pulsantes de enorme beleza, como imediatamente demonstrado na peça de abertura, “Awakenings”, guiada por uma figura circular do baixo de Silverman, sobre a qual piano e sopros ensaiam jogos de pergunta e resposta melódica de enorme elegância. E é o baixo e as pequenas percussões que prosseguem a imersão no lago do espírito proposta em “Sankofa”, em que o violoncelo processado assume a direcção da peça numa hipnótica busca do êxtase como ferramenta de libertação desta dimensão. Esse é o tom de todo o álbum que se desenvolve como uma suíte em que todas as composições desaguam, sempre com a sofisticação melódica e harmónica a evolverem-nos como um manto protector. As vozes em “Ba Hi Yah” soam como um mantra e um convite à participação do ouvinte, uma forma de derrubar as naturais barreiras que existem entre os músicos e quem os escuta, facto que parece sublinhar a dimensão social e política desta música. E nesse cotexto, Norfleet assina um dos mais pungentes solos deste trabalho, um discurso de plena contenção, mas de tocante beleza. Qualidades que, ressalve-se, se alargam a todo o álbum.

Se o jazz espiritual histórico afirmava que o som podia ser uma ponte para o divino, The Cosmic Tones Research Trio demonstra que, neste dorido presente, essa ponte continua necessária, talvez até mais do que nunca. Aqui, o cosmos não é metáfora distante: é o espaço íntimo que se abre quando se escuta com tempo, com corpo e com espírito. Todos juntos, agora: “Ba Hi Yah”…

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