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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #12: Angel Bat Dawid / NoA / Tino Contreras

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.


[Angel Bat Dawid] Transition East / International Anthem

O novíssimo single da clarinetista Angel Bat Dawid para a International Anthem é uma bem-vinda adição à sua ainda muito reduzida discografia: além do incrível álbum The Oracle, que editou em nome próprio, Angel contava apenas com os títulos resultantes da sua colaboração com o Damon Locks Black Monument Ensemble que o ano passado assinou o álbum Where Future Unfoldse, já em 2020, o single digital “Stay Beautiful” (que mereceu atenção aqui nas Notas Azuis).

Este novo single, que tem edição limitada em vinil de 7 polegadas (com uma belíssima capa em que Bat Dawid observa um retrato de Sun Ra), contém duas peças muito distintas. Em primeiro lugar temos “Transition East”, composição que Angel resolve em clarinete, teclados e caixa de ritmos. Trata-se de um tema que a nativa de Chicago escreveu depois de ter conhecido a jornalista britânica Emma Warren que o ano passado editou o livro Make Some Space que aborda a ideia de espaço e comunidade em Londres através de um estudo do Total Refreshment Centre, um notório hub que tem ajudado a projectar a nova geração de músicos de jazz britânicos. A peça, pensada para surgir como acompanhamento da versão áudio do referido livro, tem um título inspirado num similar espaço que nos anos 60 foi fundamental para a comunidade jazz de Chicago organizada em torno do AACM e do Black Arts Movement.

“Transition East” é um mantra a que Bat Dawid se entrega no seu solene clarinete sobre padrão simples de caixa de ritmos e suave drone electrónico. O seu sopro tem nobreza e espiritualidade e na sua gravação em multipistas percebe-se que Angel imaginou o tema como uma conversa consigo mesma, um diálogo interior entre duas linhas de clarinete que acaba por aflorar a ideia contida no título ao sugerir, através de pequenos apontamentos na melodia, uma subtil coloração oriental, afinal de contas uma ideia tão querida ao jazz mais espiritual e exploratório.

No lado B, o tema “No Space Fo Us” (grafado assim mesmo…), é bastante diferente, embora a temática continue a ser a das comunidades e dos seus espaços. Gravado em Fevereiro último em Salvador da Baía, no Brasil, que Angel visitou na companhia de uma série de músicos de Chicago (incluindo, revela-se nas notas de lançamento, os parceiros de editora Ben LaMar Gay e Damon Locks), neste tema, escutam-se, além de Angel em piano e clarinete, LaMar Gay em corneta e os músicos brasileiros Romulo Alexis no trompete, Tadeu Mascarenhas no baixo e, nas percussões, Edbrass Brasil, Nancy Viégas e Germano Estacio.

Trata-se de uma peça mais extática e livre que se ergue do caos inicial impondo uma simples e circular figura no piano acompanhada de discreta percussão em cima da qual os sopros procuram depois a estratosfera. Gay e Alexis começam por dominar as atenções entrelaçando os instrumentos em discursos de crescente abstracção e, depois, tudo desemboca na liberdade absoluta que implode formas e simultaneamente desprende o espírito. Porque as comunidades também se fazem de tensão que depois se resolve, quando tudo corre pelo melhor, em liberdade.


[NoA] Evidentualmente / Edição de Autor

NoA é um trio – Nuno Costa na guitarra, Óscar Marcelino da Graça nos teclados e André Sousa Machado na bateria – que se estreia com um álbum em que se cruzam modos, ideia aliás reflectida no título que cola dois advérbios num curioso e algo paradoxal neologismo.

“O trio”, sublinham as notas de lançamento, “explora diferentes dimensões e ambientes musicais, privilegiando sempre a interacção. Com o jazz e a música improvisada como pano de fundo, o seu repertório inclui temas originais e arranjos de canções do universo musical popular nacional e internacional”. O álbum, gravado no último Verão por Luís Candeias no estúdio Timbuktu (certamente bem mais próximo do que o nome faria supor…), tem edição em vinil, gesto arrojado tendo em conta que se trata de um lançamento de autor. E esse arrojo traduz, diga-se, uma determinação que se sente de forma clara no som aqui apresentado.

As composições ficaram todas a cargo do guitarrista, exceptuando o standard “All The Things You Are”, eterna criação de Jerome Kern que no passado foi “lida” de forma sublime por gente como Ella Fitzgerald, Chet Baker, Dizzy Gillespie ou, para citar apenas mais um exemplo, Keith Jarrett (e até o jovem Michael Jackson arriscou uma versão, em 1973).

Evidentualmente desenvolve-se ao longo de pouco mais de 40 minutos e divide-se em 10 momentos em que o jazz é um dos idiomas centrais, mas não o único. O trio é obviamente marcado pela inexistência de um baixo, mas as criativas abordagens que cada músico tem ao seu respectivo instrumento permitem que o espectro harmónico seja igualmente habitado por frequências mais graves.

O que resulta óbvio da escuta atenta de Evidentualmente é a irrequietude estética do trio, que tendo os pés bem assentes no jazz e numa ideia bem oleada de groove, não se impede de explorar outros géneros, ou, pelo menos, ideias de géneros: o fado espreita na afinação alternativa da guitarra de Nuno Costa em “Valéria”, há assomos de cinemática country em “Abertura” ou “O Duende do Velho Oeste”, ecos de Ry Cooder em “Noriati” e uma criativa abordagem a “All The Things You Are” com tons decididamente contemporâneos e uma belíssima filigrana em que se entrelaçam o piano eléctrico, a guitarra e a bateria, que aí assume modo mais discreto, ainda que plenamente seguro.

No centro do álbum posiciona-se o mais aventureiro tríptico do alinhamento: “Sete Anos ao Tabefe” é um interessante delírio improvisacional, com um pulso grave assegurado por um sabedor Sousa Machado e uma guitarra que pincela com cores abstractas e quentes a tela sónica disponível. Nuno Costa é um solista de amplos recursos, tão capaz de “escrever” discursos como de “rasgar” tudo quando tem que ser. Já Óscar Marcelino da Graça mostra-se mais do que competente a preencher espaços harmónicos de forma discreta, não se importando de assumir a condição de trampolim em que as cordas eléctricas saltam, mas também capaz de assumir a dianteira. Do outro lado do tabefe, sabemo-lo todos muito bem, está muitas vezes um gesto pleno de “Boas Intenções”: aí a guitarra recua um pouco para um plano que dá espaço ao piano para se mostrar com outra luz, num reverso bem mais lírico do que o tema anteriormente mencionado, mas que permite, como num filme que corre para um final feliz, que a bateria acelere com cadência freneticamente funky que serve para que André afirme a solidez do seu tempo e a riqueza da sua técnica.

E a ligar essas duas peças está a interessante “Les Trois”: os três músicos aplicam as seis mãos sobre o piano, explorando toda a sua arquitetura, as cordas tensas, as teclas e as madeiras, com cada um deles a reclamar desse instrumento aquilo que sabe da sua própria ferramenta de eleição. Quase que dá pena serem apenas dois minutos de interlúdio…

NoA são três músicos que evidentemente sentem prazer em comunicar uns com os outros partilhando diferentes experiências e que eventualmente poderemos aplaudir quando voltarem a pisar palcos expondo de forma mais nua (ou mais… NoA) a cumplicidade que aqui revelam. Enquanto tal não acontece, podem sempre escutar o disco aqui ou comprá-lo acolá.


[Tino Contreras] Musica Infinita / Arc Records

A Arc Records é o novo selo com que Gilles Peterson pretende reeditar algumas pérolas do passado jazz que tem dedicado a vida a divulgar e tal facto merece, obviamente, o aplauso de qualquer um. Além da preciosidade do baterista mexicano Tino Contreras de que aqui se dá conta (originalmente uma edição privada de 1978 cujos exemplares, quando disponíveis, chegam a ultrapassar os 500 euros no mercado coleccionista), está já planeado o relançamento de um trabalho de 1974 de Shirley Scott para a Strata East. A Arc junta-se assim à Jazzman, à Finders Keepers ou, entre outros selos com meritório trabalho “arqueológico”, à portuguesa Mad About Records no esforço de recolocar no presente algumas pérolas jazz do passado que se encontram fora do alcance de bolsas mais modestas.

O disco, revelam as cuidadas notas, resulta de uma estreita colaboração com a académica Estrella Newman (creditada como produtora executiva do álbum) que contribuiu com um ângulo conceptual para este registo através dos seus estudos da cultura pré-colombiana e das tradições experimentais do México, como as que o compositor erudito Julian Carrillo explorou na sua obra. Tino tratou esse material conceptual com as ferramentas apreendidas no jazz americano e é desse cruzamento que resulta precisamente a vibrante originalidade de Musica Infinita.

No álbum, além da bateria e da harpa do próprio Tino Contreras, escuta-se um grupo – denominado, por inspiração Asteca, Quinto Sol – com baixo acústico e eléctrico, secção de metais – saxofones barítono e tenor e ainda trompete – guitarra eléctrica, harpa, piano e voz a cargo da operática Margarita Gonzalez. Os arranjos são do saxofonista barítono José Mata.

Alguns dos trabalhos de arranjadores como David Axelrod ou Galt McDermot, que também exploraram as possíveis combinações entre as nuances do jazz, do rock psicadélico e de alguma espiritualidade, navegam por territórios similares aos que Contreras aqui percorre, mas este Musica Infinita soa simultaneamente mais exótico, mais misterioso e mais expansivo na sua fuga às normas.

Nas colorações obtidas de instrumentos tradicionais de percussão, nas cordas das harpas e no uso do estúdio para a construção de um universo sonoro paralelo, há uma qualidade declaradamente psicadélica. Essas características somadas à voz operática, à vincada marcação rock da bateria e das guitarras e ao discurso jazz dos metais criam um improvável híbrido que, por estranho que possa eventualmente parecer, funciona. E esse é apenas o tom dominante no tema que ocupa a totalidade do “lado B”, “Sinfonia Del Quinto Sol”. “El Hombre Cosmico” e “Orbita”, no lado A, soam como música para séries de detectives dos anos 70 gravada por um ébrio conjunto de músicos de sessão que sem saberem muito bem como acabam a citar de forma algo livre o clássico “Take Five” de Dave Brubeck, um estímulo que parece servir de ponto de partida para uma longa derrapagem servida por efeitos caóticos e abrasivos enquanto o piano procura manter algum sentido narrativo.

Se isto vos desperta a curiosidade para escutar o que mais terá andado Contreras a fazer durante a segunda metade dos anos 70, então estão como eu… Mas como os discos não estão nada baratos o melhor será esperar que alguém como Gilles Peterson ou Gerald Jazzman ou até, quem sabe, Joaquim Paulo se chegue à frente…

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