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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #11: João Pais Filipe / Tony Allen & Hugh Masekela / Richard Spaven

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.


[João Pais Filipe] Sun Oddly Quiet / Holuzam-Lovers & Lollypops

Sun Oddly Quiet pode ser “apenas” o segundo álbum a solo de João Pais Filipe (sucedendo ao homónimo trabalho de 2018), mas o músico que se descreve a si mesmo como “percussionista e escultor sonoro” tem uma vasta discografia resultante de um intenso espírito colaborativo que o tem levado a trabalhar com gente tão distinta quanto Rafael Toral, os Black Bombaim ou Burnt Friedman e Jaki Liebezeit, para referir apenas algumas das mais recentes entradas no seu currículo. Essa ampla experiência é, aliás, chave para se compreender a extrema depuração musical que Sun Oddly Quiet nos propõe.

Seguindo à letra o impulso escultórico da sua arte, o músico descreve as peças deste seu novo trabalho (cuja edição resulta de uma colaboração entre as editoras Lovers & Lollypops e Holuzam) como estáticas, tratando, cada uma, de minimais exercícios de rigor métrico sobre compassos compostos. E da repetição – que é, ressalve-se, humana e não fruto de loops criados em estúdio – sobressai uma profunda e meditativa beleza, com a percepção de realidade de quem escuta (sobretudo se num bom par de auscultadores ou num sistema de som com qualidade elevada) a diluir-se rapidamente neste tranquilo lago de pulsares regulares, de estímulos harmónicos, de colorações metálicas, mas também orgânicas, de madeiras e de peles tensas.

Para lá de estática, a música que João Pais Filipe nos apresenta aqui é igualmente extática, imbuída de uma nítida dimensão espiritual, tanto nas sequências mais pronunciadamente rítmicas, quanto nos momentos – como acontece na introdução de “XI” (e os títulos das peças, “XV”, “XIII”, “V”, além do já mencionado “XI”, referem-se aos tempos rítmicos dos compassos compostos) – em que Pais Filipe nos envolve no manto harmónico gerado pela vibração dos seus címbalos, que proporcionam sempre uma densa atmosfera que enquadra cada um dos seus estudos rítmicos.

Esta música, apesar de estática, rigorosamente composta e sem espaço para derivas livres, consegue, ainda assim, ser profundamente estimulante, revelando, sobretudo quando apreciada em escuta imersiva, novas nuances de cada vez que a ela se regressa. Sun Oddly Quiet é um triunfo conceptual, um trabalho de um músico em superior estado de entendimento da sua arte e tecnicamente dotado das ferramentas que lhe permitem transpor a sua visão directamente para os nossos ouvidos. E apesar de estática, como o músico e compositor a classifica, há ainda assim uma paradoxal dimensão propulsiva, de movimento, ainda que circular, que também nos transporta para algum lado. Talvez para esse sol estranhamente calmo que por estes dias vai acalentando a nossa reclusão.


[Tony Allen, Hugh Masekela] Rejoice / World Circuit

Este álbum, editado há pouco mais de um mês, ainda que plenamente vibrante de vida, é o trabalho derradeiro de dois grandes músicos: o sul-africano Hugh Masekela (trompete, fliscorne, corneta) desapareceu em 2018, quando contava 78 anos, ao passo que o nigeriano Tony Allen (bateria, percussão) nos deixou há apenas alguns dias, aos 79 anos. Que o último trabalho editado de cada um destes verdadeiros gigantes tenha recebido o apropriado título Rejoice serve como um poético indicador da atitude que sempre demonstraram possuir perante a música.

Em 1973, o trompetista editou o álbum Hugh Masekela Introducing Hedzoleh Soundz, resultado de uma passagem pela Nigéria e de um encontro em estúdio com a banda Hedzoleh Soundz, do Gana (cujo trabalho que forneceu muito do material para essa sessão com o músico sul-africano foi, em 2010, reeditado pela Soundway). O álbum, gravado nos mesmos estúdios da EMI, em Lagos, usados pelo grande criador do afrobeat, incluía, nas suas notas, um claro e sentido agradecimento de Masekela: “Thanks to Fela-Ransome Kuti without whom this album would not have been realised”. Foi nessa altura que Masekela e Tony Allen se conheceram, tendo desde logo manifestado intenções de trabalharem juntos, algo que só viria a acontecer em 2010, em Londres, quando as intensas agendas de ambas finalmente permitiram um encontro em estúdio fomentado pelo produtor Nick Gold.

Essas sessões de 2010, efectuadas em torno de composições dos dois músicos, nunca foram, no entanto, terminadas e só após a morte de Masekela, em 2018, é que Tony Allen e o produtor Nick Gold resolveram, com o consentimento dos herdeiros do trompetista, terminar o álbum, voltando ao mesmo estúdio em que as gravações originais tinham sido realizadas. Inteligentemente, Gold chamou para estas sessões muitos músicos da nova escola de jazz britânica que tem, precisamente, reclamado o particular swing do afrobeat como uma das marcas da sua identidade. Joe Armon-Jones, teclista dos Ezra Collective, Mutale Chashi, baixista dos KOKOROKO ou Elliot Galvin, colaborador regular de Emma-Jean Thackray, juntaram-se ao mais veterano Steve Williamson (saxofonista tenor com um vasto currículo que o levou a cruzar-se com músicos como Ali Farka Touré, os Us3, Brand New Heavies, Goldie, The Roots ou John Legend) para completar, sob orientação de Nick Gold, um álbum que é, como o título aliás indica, uma celebração de duas vidas dedicadas à música através da diáspora.

Quando a voz de Hugh Masekela exclama, em “Never (Lagos Never Gonna Be The Same)”, que a capital da Nigéria nunca mais será a mesma sem Fela, o que se percebe é que o músico sul-africano, auto-exilado do seu país de origem em 1960 como forma de escapar ao brutal apartheid, entende que as diferentes experiências de África ergueram um conjunto de linguagens musicais que provaram ser capazes de atravessar as décadas, os regimes, os continentes, impondo-se como uma cultura própria. Tony Allen apelidou o resultado destas sessões, e sobretudo da junção da sua experiência e da de Masekela, como “uma espécie de guisado jazz swingante de travo sul-africano-nigeriano”. O guisado, diz quem sabe, é o resultado de uma depuração de sabores em lume brando. E o lume brando aqui são as décadas de experiência acumuladas por cada um dos músicos que para este Rejoice trouxeram capacidade de improviso afinada por incríveis histórias pessoais e vastíssimas carreiras de palco e estúdio, o particular swing da cadência afrobeat – incrível a forma como Allen consegue fazer a sua bateria cantar (e escute-se, por exemplo, “Slow Bones” para se entender isso) –  e o drama, expressividade e lirismo da coloração jazz que o fliscorne de Hugh Masekela tão bem incorpora, tendo cristalizado no seu estilo tanto a alma da África do Sul de que nunca abdicou, como as diferentes nuances apreendidas em Londres, onde estudou música na década de 60, cruzando-se com imigrantes das Caraíbas, e as dinâmicas das escolas pós-be bop que aprendeu a dominar durante o vasto período que passou em Nova Iorque.

Rejoice é também o júbilo de duas histórias que tendo nascido na África do Sul e na Nigéria se expandiram a Londres, Paris, Nova Iorque e ao resto do mundo, servindo como uma real embaixada de uma multi-facetada cultura que continua viva e urgente.


[Richard Spaven] Spaven’s 5ive / jazz re:freshed

Antes de Nubya Garcia, Rosie Turton, Triforce, Ashley Henry ou Kaidi Tatham, coube ao baterista Richard Spaven inaugurar a celebrada série 5ive da jazz re:freshed, em 2010, praticamente marcando o arranque do catálogo da etiqueta que é um dos pilares da vibrante cena do novo jazz britânico.

Spaven é um baterista que soma duas décadas de carreira, período em que construiu um assinalável currículo que regista colaborações com gente como Mark De Clive-Lowe e 4Hero e, já depois da sua estreia em nome próprio com o disco que agora se reedita (em vinil pela primeira vez), também com José James, Dimlite, Jameszoo, Incognito, Jordan Rakei ou Alfa Mist (com quem, aliás, acaba de se aliar no ultra-interessante projecto 44th Move). Essa lista deixa claro que Spaven foi sempre permeável à orgânica evolução da música para clubes, das mutações house/broken beat de Clive-Lowe e 4 Hero, às transmutações psicadélicas de hip hop lo-fi de Dimlite, passando pelas declinações jazz mais tradicionais de José James ou mais progressivas e experimentais de Jameszoo.

Esse vasto leque de referências já se pressentia em Spaven’s 5ive, trabalho em que o baterista contou com os préstimos pontuais de Vincent Helbers, Benet McClean, Neil Charles e Grant Windsor em diferentes teclados, José James (voz em “Maz”), DJ DooWop (“Zeebra”) ou Robin Mullarkey e Marc James (baixo e guitarra em “Maz”, respectivamente). O facto de assumir ele próprio os arranjos, produção e demais instrumentos é sinal de uma considerável capacidade técnica e artística. Mas é ao seu trabalho na bateria que a nossa atenção acaba sempre por desembocar.

Richard Spaven é um discreto mas sofisticado ritmista, capaz de subtis demonstrações de arrojo técnico que o identificam como um dedicado estudioso das mutações que a música baseada em grooves foi sofrendo nas pistas dos clubes, ideia que se torna clara escutando temas como “Zeebra”, em que o músico reduz o seu pulso à cadência hip hop, ou “Ice Ice”, um exercício de ritmo quebrado que nos ajuda a compreender porque terá sido a dada altura recrutado por Dego e Marc Mac para deixar a sua marca nas sessões de Play With the Changes. Já em “Network” ou no tema de abertura do alinhamento “Rockers Round Window”são complexos desenhos de quatro ocupados membros que Spaven apresenta, com o impulso para a dança a ditar o rumo do seu baterismo. No tema que encerra o alinhamento, “1759 Outro”, a propulsão tem um “sotaque” mais tropical, ao passo que no já mencionado “Maz” a cadência imposta por Spaven soa quase ao desmontar em câmara lenta dos padrões do drum n’ bass. E tudo sempre com rigor métrico, sofisticação nos desenhos e expressividade no ataque. Spaven é, sem dúvida, um baterista de mão(s) cheia(s) (e pés, já agora)!

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