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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #1: Amado / Serries, Rodrigo Amado / Chris Corsano, The Attic

Ilustração: Riça
Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.
[Amado / Serries] Jazzblazzt / Raw Tonk (K7, Digital) Este encontro entre o saxofonista português Rodrigo Amado e o guitarrista belga Dirk Serries rendeu um interessante documento. Trata-se do registo de um concerto em Agosto de 2018 na sala holandesa que empresta o nome ao título deste lançamento da Raw Tonk, Jazzblazzt. E o que nos é oferecido ao longo de quase uma hora é uma espécie de explosão em câmara lenta, como se o duo tivesse passado um bom bocado a armadilhar os respectivos instrumentos, carregado no botão vermelho que diz “detonar”, gravado tudo com preciosismo técnico máximo e depois nos mostrasse a gravação em slow motion extremo, permitindo-nos observar de perto cada estilhaço, cada pequena unidade de ruído, cada soluço, arranhadela nas cordas, cada detalhe harmónico, cada pequena nuance textural, cada respiração. Serries é um tipo com um percurso interessante, com raízes na cena industrial belga que circulava pelos canais subterrâneos de distribuição de cassetes, tendo depois investido pelos terrenos da exploração sónica através dos drones de guitarra. O jazz e a música improvisada são interesses mais recentes, mas que Dirk tem prosseguido com total devoção, dividindo-se (ou multiplicando-se?…) por diversos projectos, entregando-se a múltiplos encontros com gente como Asmus Tietchens e assumindo bastas vezes outras ferramentas que não a guitarra. Neste diálogo/duelo com Rodrigo Amado, a dois terços do caminho percorrido na primeira de duas faixas de que se faz Jazzblazzt, escuta-se Serries em concentração profunda sobre a sua guitarra, extraindo poeira harmónica das suas cordas com a amplificação a ser conjugada com os efeitos para criar uma espécie de neblina tonal em que Rodrigo Amado mergulha oferecendo-nos longas e tranquilas notas de um lirismo abstracto que nos relembra os amplos recursos de que dispõe. E é nesta aproximação ao silêncio que se percebe os longos caminhos que é possível percorrer numa hora de total e cega entrega ao momento, sem regras, sem mapa: entre a explosão e o assentar dados detritos, entre o caos e a harmonia, a sombra e a luz, há todo um universo de possibilidades abrigado sob cada nota, sobre cada curva do discurso que não se vislumbra num momento, mas que leva a música para outro lugar no momento seguinte. E tanto Amado como Serries são destemidos na forma como mergulham sem saberem o que há logo abaixo da superfície. Mas essa é mesma a única forma de descobrir os tesouros. E não há dúvidas de que este Jazzblazzt resguarda algumas jóias preciosas, convenientemente espalhadas pelos dois sets.
[Rodrigo Amado / Chris Corsano] No Place to Fall / Astral Spirits, Monofonus Press (CD, K7, Digital) Tal qual num laboratório quando se combina um qualquer agente reactivo com diferentes substâncias, também no universo do jazz é possível que um mesmo músico revele diferentes facetas da sua personalidade quando submetido a fórmulas ou combinações alternativas. E é o caso aqui. Amado e Corsano não são estranhos, pelo contrário: ambos repartiram espaço num celebrado quarteto com Kent Kessler e com o veterano Joe McPhee que rendeu dois fantásticos álbuns, This is Our Languagee A History of Nothing, lançados, respectivamente, em 2015 e 2018. Esses registos tiveram obviamente repercussões de palco e toda essa experiência só estreitou a confiança e cumplicidade que o duo exibe agora em No Place to Fall. Mas esta foi uma data planeada, com as cinco peças de que se faz o álbum a resultarem de produtiva sessão registada a 14 de Julho de 2014 no lisboeta estúdio Namouche sob a égide do engenheiro Joaquim Monte (ano e meio depois da sessão gravada no mesmo local que rendeu o já referido This is Our Language). Nessa fabulosa sala, com sérios recursos técnicos e os apurados ouvidos do engenheiro foi possível obter este cristalino retrato de duas mentes curiosas, nitidamente atraídas pelo desconhecido, ambas capazes de nos oferecerem as mais abstractas e ainda assim absolutamente maravilhosas imagens. O mais importante aqui, e talvez seja a isso que se refere o poético título desta data, é o momento. Isso significa que tanto Rodrigo como Chris investem tudo em cada breve existência do agora, tocando com a absoluta entrega de quem não está preocupado com o que o próximo momento possa trazer. E isso leva-os a um estado de absolutas certezas, sem lugar para caírem porque é essa a maravilha do infinito, a ideia de que a flecha nunca atinge o alvo porque por mais pequena que seja a distância que resta, por mais ínfima que seja a partícula de som, é sempre possível subdividir o que resta até ao infinito. E é desse infinito que se faz este encontro: Rodrigo toca com todo o corpo, respirando, gritando e sussurrando através do seu tenor e Chris soa como se tivesse oito braços, qual Dr. Octopus, extraindo expressivos pulsares do seu kit, enredando as vibrações expelidas pelo saxofonista com um directo e assertivo discurso rítmico e textural. E à energia incandescente que se desprende das primeiras quatro passagens, o duo responde no final com a belíssima “We’ll Be Here in The Morning” que Rodrigo Amado apresenta extraindo do seu tenor a brisa de que afinal de faz a vida, numa passagem de lirismo livre puro a que Chris Corsano corresponde deixando as vassouras percorrerem as peles com o vagar de quem sabe estar no sítio certo à hora correcta. E daí desenha-se ao longo de mais de 11 minutos um sentimental oratório de tonalidades bluesy, a prova de que não faz mal não ter onde cair quando se entende que cair, como diz o poeta Zé Menos, é apenas voar para quem não tem medo.
[The Attic] Summer Bummer / NoBusiness Records (CD, Digital) Depois da estreia em 2017, com um registo titulado, precisamente, The Attic (disponível, tal como os dois títulos escutados em cima, em cassete, neste caso com carimbo da Tombed Visions, e ainda em CD com edição da NoBusiness Records), Rodrigo Amado entendeu que este trio mereceria vida própria e assumiu o título da estreia como designativo para o colectivo que neste segundo capítulo da sua existência vê o baterista holandês Onno Govaert a assumir o lugar que dois anos antes tinha pertencido ao português Marco Franco. Summer Bummer foi gravado no festival do mesmo nome em Antuérpia, Bélgica, em finais de Agosto de 2018, e é mais um importante argumento para a definitiva afirmação de Rodrigo Amado no mais alto panteão dos improvisadores contemporâneos, um saxofonista tenor que demonstra possuir um domínio pleno e inventivo do seu instrumento que o coloca, como aliás já apontado pelo crítico Rui Eduardo Paes, numa elevada esfera habitada pelos mesmos gigantes que inicialmente lhe apontaram caminho, de John Coltrane a Albert Ayler e daí até ao mestre vivo Joe PcPhee com quem, aliás, Rodrigo tem trabalhado, como já anteriormente referido. Ao longo de cerca de 45 minutos repartidos em três grandes blocos, Rodrigo Amado parte em direcção ao espaço acompanhado pelo contrabaixista Gonçalo Almeida (português actualmente residente na Holanda) e pelo já mencionado baterista Onno Govaert, parelha rítmica que proporciona ao solista o amparo ideal para as suas aventureiras derivas. Com um discurso mais melódico e poético ou visceral e explosivo, Rodrigo Amado nunca se apresenta menos do que total e incondicionalmente comprometido com a sua demanda, que se traduz em passagens mais contemplativas em que nos exibe o seu tom mais meditativo ou, se quiserem, espiritual, e outras em que parece arrancar do corpo toda a vigorosa expressividade de que é igualmente capaz. A solidez do trabalho de Gonçalo Almeida é impressionante, sobretudo quando extrai do seu instrumento uma cascata tímbrica envolvente através do seu trabalho de arco que parece funcionar como a sombra perfeita para o fraseado intuitivo e rico de Rodrigo Amado. E Govaert corresponde da mesma forma, pontuando com imaginação o discurso do saxofone, respondendo de forma subtil a cada ataque ou inversão de marcha. E da combinação destas três forças dinâmicas e flexíveis emerge um tom colectivo límpido, de absoluta confiança e certeza, o tipo de química que resulta quase sempre em brilhantes expedições ao desconhecido. E é esse nitidamente o caso aqui. No final de “Aimless at the Beach”, a última das três peças deste álbum, escuta-se, por entre os aplausos, uma voz que diz “está feito”. Sem dúvida, está mesmo.

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