NOT WAVING // Voices

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Alessio Natalizia é um tipo intrigante que já demonstrou com vários dos seus projectos, incluindo o incrível split realizado com Pye Corner Audio, Intercepts, que lhe interessa a inspiração proporcionada por uma época muito específica da história: quando a tecnologia servia para oprimir, muito mais do que para prometer libertar (saber se algo realmente mudou é uma questão que neste momento e para aqui pouco importa). A guerra fria, os estados que se espiavam mutuamente, as estratégias de desinformação, de escuta, os radares, os telemicrofones, etc, são artefactos de um passado nada distópico que informam o estado de espírito de Natalizia. Acrescente-se a isso uma rigorosa dieta aural de electrónica experimental, música concreta, library music e experiências industriais, sobretudo centradas na Itália agitada da primeira metade dos anos 80, e obtém-se uma mais ou menos clara (o que significa igualmente uma mais ou menos difusa…) imagem do universo em que se move este projecto Not Waving.

Edição-chave na discografia fragmentada deste projecto é o trio de cassetes Voices lançado o ano passado: edições de autor, limitadas a meros 100 exemplares (não que o seu público seja muito mais vasto, facto que se percebe quando se constata que exemplares usados dessas cassetes estão bastante acessíveis no Discogs), em que o produtor declarava ser inspirado pelo neurologista Oliver Sacks pelo filósofo B.F. Skinner e pelo tipo do cão, o “behaviourista” Ivan Pavlov. Mais do que querer firmar a amplitude intelectual das suas referências, Natalizia procura desta forma apresentar uma bem estruturada moldura conceptual para o seu trabalho. Musicalmente, isso traduz-se numa electrónica pouco ou nada interessada na funcionalidade (o que até poderá querer dizer que procurava testar os limites das teorias de Pavlov?) e totalmente imersa nas possibilidades da procura: sons lo-fi, decididamente erguidos em cima de referências vintage analógicas, ruídos, drones, pulsares hipnóticos. Música de laboratório, portanto.

Tudo indica que Natalizia procura agora fechar um ciclo e, um pouco à semelhança do que se tem passado com o projecto Pye Corner Audio, libertar-se um pouco desse lastro conceptual e aproximar-se mais da tal funcionalidade associada à pista de dança. Anuncia-se um trabalho declaradamente techno para breve na Diagonal. Enquanto isso não acontece, no entanto, para este duplo LP, Natalizia decidiu pegar na matéria dispersa pelas três cassetes da série Voices e realinhar os temas, expandindo uns, editando outros, misturando e reinventando alguns dos temas, construindo, a partir das peças originais, um novo e igualmente intrigante labirinto.

Voices é, assim, um trabalho de música para auscultadores, que exige essa proximidade analítica por parte do ouvinte, esse olhar no microscópio, em busca do detalhe e dos micro-movimentos que a compõem. Há vozes, ecos da memória, subtraídos a filmes e documentários, a um passado que Natalizia procura descodificar ou reinventar. E há farrapos de ecos das pistas de dança, techno decomposto, electrónica abrasiva. Tal como Martin Jenkins com Pye Corner Audio, também Natalizia com Not Waving logrou construir um universo altamente personalizado, com uma profunda relação com a memória, completamente imerso no passado para conseguir projectar um futuro diferente. Não há muito mais por aí a soar assim. E esse é talvez o maior elogio que se lhe pode fazer.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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