Nosaj Thing // Fated

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Parece que não, mas o tempo passa e a única forma de o medir é ir colocando marcos na estrada. Endtroducing de DJ Shadow é um dos marcos na minha estrada. E já lá vão quase 20 anos desde a sua edição. O tempo passa, de facto. E como explicava também DJ Shadow, “you can’t go home again“. E é isso que o hip hop em 2015 nos diz, sobretudo o de facção mais instrumental e com ambições de fuga à norma: não se pode regressar a casa, porque mesmo quando encontramos o caminho nós já não somos os mesmos.

Shadow explicava que o processo de concepção de um novo disco começava para si quase invariavelmente com uma viagem de angariação de combustível vinílico para a fornalha do seu sampler. Uma expedição de diggin’, garantia o produtor californiano, era já parte do processo de composição. E é fácil perceber como esse processo informava a sua criatividade: 200 novos discos, escolhidos na cave de uma loja poeirenta perdida no fundo de uma estrada. 200 possibilidades. 200 promessas. E tudo tinha que caber na memória disponível há 20 anos numa MPC 3000. Um universo de possibilidades num único sample de 2 segundos, mas, na verdade, o que Endtroducing nos dizia é que as opções à disposição de um produtor eram limitadas: uma estrada, uma loja, 200 discos, 2 minutos de memória num sampler, 24 pistas num gravador Studer, 48 canais numa mesa SSL, graves e agudos num par de NS10. E pronto.

E agora? A estrada é a da fibra óptica, a loja o YouTube, os 200 discos multiplicam-se até ao infinito, a memória mede-se em terabytes, as pistas de gravação são ilimitadas, as mesas são virtuais e os graves e agudos parecem ter sido substituídos por um interminável oceano de médios. Entende-se por isso que Nosaj Thing (pensavam que não se ia chegar até ele?…) explique à revista DigBoston que precisa de um deadline ou então continua sempre a acrescentar camadas às suas produções, nunca as terminando.

Esse é o drama dos tempos modernos: possibilidades infinitas, discos que se fazem dentro de um laptop, nunca saindo para respirar, milhões de samples à distância de um simples click. E a única coisa que diz a um produtor que um disco está pronto é o deadline de edição que se aproxima.

Serve isto para falar de Fated, o terceiro álbum de Jason Chung, produtor afiliado à mesma cena de Los Angeles que deu ao mundo Flying Lotus ou Gaslamp Killer, que conta no currículo com produções para ilustres MCs como Chance The Rapper ou K-dot e que já leva três registos na conta pessoal.

Fated soa negro, despido de luz, resultado, certamente, de uma produção em movimento, desenhada entre os lugares mais remotos do tour bus e os quartos de hotel. À disposição de Nosaj Thing um mundo sem fim de plug ins e soft synths, de emuladores e outras ferramentas mais ou menos virtuais que fazem do MacBook uma espécie de armazém gigante de equipamento. Na verdade, este novo dilema que assalta os modernos produtores digitais pode ser tão estimulante criativamente quanto antes o eram as possibilidades limitadas de quem trabalhava em estúdios reais – fossem essas limitações técnicas ou financeiras. Neste labirinto digital da era moderna, perdem-se uns e encontram-se outros. Os beats de Nosaj Thing são expressivos, comunicantes, abstractos por um lado, mas carregados de emoção por outro. Talvez por isso haja um equilíbrio no facto de Chung ter contrabalançado as intermináveis opções à sua disposição com uma certa urgência que se traduz num disco que apesar de contar com 15 temas em pouco se estende para lá dos 30 minutos. Há vozes em dois momentos: Whoorei sussurra em “Don’t Mind Me” e Chance The Rapper declama em “Cold Stares”, ambos aproximando-se do silêncio que parece ser a ambição máxima de Fated. E isso é uma marca de coragem: num momento de ruído digital máximo, em que tudo à nossa volta parece gritar, um produtor ambiciona ao silêncio. E isso liga-se ao tal carácter nocturno de Fated: depois do concerto, depois da festa no clube, depois da viagem de autocarro numa auto-estrada barulhenta, nada como um quarto de hotel num andar suficientemente alto para bloquear o ruído do mundo. E a música que opta por descartar todas as possibilidades de maior complexidade sonora e ambicionar a mergulhar no silêncio. Há qualquer coisa de new age aqui, embora não pareça. Não é brilhante o disco, mas é intrigante e com qualquer coisa de poético. E isso chega para lhe vincar a diferença.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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