NOS Alive’19 – Dia 3: Marina em piloto automático e o adorado solipsismo de Thom Yorke

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Sara Falcão e Hugo Macedo / NOS Alive

Ao terceiro dia do NOS Alive’19, é altura de encerrar as festividades no Passeio Marítimo de Algés — despeçam-se do tráfego pedestre na restauração, do relvado sintético e do rock saturado no palco principal, da presciente irreverência do NOS Clubbing, do ar cálido e concorrido no Palco Sagres… É nesse espaço, onde vimos os triunfos de Robyn e Grace Jones, que o Rimas e Batidas se despede da 20.ª edição do festival.

Quando Da Weasel são anunciados para 2020, já os Idles marcam a sua quarta presença em território nacional no espaço de um ano. Abrasivos com propósito sensível (enaltecendo os imigrantes e o feminismo, desmantelando a masculinidade tóxica), permitem a primeira antevisão do que será o público de Marina (ex-and the Diamonds), voz britânica da pop mais idiossincrática. E a comédia vem no lamento de caras abrilhantadas com purpurina, aglomerados nas linhas da frente do Palco Sagres, levando com membros sortidos em cima, e energia para levar abaixo a sala.

Menos de duas horas depois, seria esse o exercício levado a cabo pelos devotos de Marina — em menor proporção num Palco Sagres folgado — que se batem por combater a apatia ou a curiosidade dos restantes na sala que abanam a cabeça como obrigação contratual e aplaudem impávidos (ao mesmo tempo, Bon Iver garante uma enchente também apenas meio interessada). Enganadores estes bojudos gritos dos fãs, aqueles a que Marina se referia com os diamantes que entretanto destrinçou do seu nome. O actual é menos enganador, já que deixa de sugerir a coexistência em palco com uma banda ou outro tipo de apoio instrumental — o que não acontece.

Com o infeliz mote de Love + Fear, álbum deste ano, Marina lança-se na missão de uma aeróbica pop (com literais disparos tecnicolor no ecrã), menos vibrante do que maquinal, despojada do que a fez chegar aqui. Tal digressão, tal álbum, que é a excursão indigna de uma robusta compositora por uma inédita imaturidade de escrita — ainda que melodicamente rica —, vocalmente como de costume, potente, mas pousada em produção flácida e programada para o anonimato. É exasperante ouvir, de faixa para faixa, os mesmos graves e a mesma batida quantizada sem margem de erro. Se algo, Marina consegue sobressair pelos trunfos vocais de que puxa para vitaminar o material, mas é como vender pirite por ouro.

De branco, pormenores rosa e amarelo, a artista começa com “Handmade Heaven”. Palidez e candura em igual dosagem, vencendo a fachada etérea que autentica um começo satisfatório. Isto antes de sermos notificados, por via das interacções mecânicas e a coreografia automatizada em sincronia com os quatro guardiões do arco-íris, que vem aí um espectáculo pop pro forma, de baixo orçamento, pobre engajamento, circuito banger-balada-midtempo.

O material tem sempre razão e é ele que determina a virtude do concerto. Não há coisa mais óbvia que as flutuações entre o ar eléctrico durante as faixas do excelente Froot e o relativo encolher de ombros durante “Karma” ou “To Be Human”. O segundo tema leva Marina ao piano, interrompido com uma batida refrescantemente reactiva, enquanto a artista dá a mão a uma vocalista de apoio e o ecrã nos brinda com protestos, missões espaciais, imigrantes — um clássico momento da tour pop, forçar ali o aterrorizador paradoxo entre o sofrimento do mundo e o hedonismo dos ocidentais.

Ponto nulo. A diversão da finalíssima “How to Be a Heartbreaker” e da irónica “Primadonna” — é curioso como do conceptual Electra Heart Marina só espreme a polpa mais adocicada — resulta, de facto, mas é escassa. Mas isso também é comédia, aqui. Dedica “especialmente a vocês”, os fãs na barricada, “Enjoy Your Life”: uma canção de forte melodia, mas inconsciente do seu cinismo epicurista — “sit back, enjoy your problems/ you don’t always have to solve them”. Aquilo em que Marina excele é na escrita sardónica de hinos pop, como “Oh No” ou “Hollywood” do primeiro álbum, The Family Jewels, e a libido incontida do disco-funk musculado em “Froot” — esses são os momentos em que o resto do público se liga a ela. Ponto de vantagem.

Do novo disco, a forte “Superstar” e a chamativa “Baby”, gravada com os hitmakers Clean Bandit, passam o teste ao vivo com facilidade; a anódina mas orelhuda “Orange Trees” parece subaproveitada só porque sim — o gancho do “oooo-orange” é o convite mais imediato imaginável a um sing-along, uma oportunidade para empatizar com o público mais alargado, que parece nem passar pela cabeça da Marina de 2019. “I know exactly why I walk and talk like a machine/ I’m now becoming my own self-fulfilled prophecy” eram suposto ser versos satíricos. Agora, as mesmas letras viperinas são entoadas sem o piscar de olho, mais umas entre um rol de pop anódino. Imediatamente a seguir, o ecrã mostra um pano a deixar cair azeitonas em “Baby”. Qual é a ideia?

Que a economia acaba por resvalar para a indigência não é de admirar: esta é, afinal, a digressão do lamentável Love + Fear. — ainda que a fraqueza não seja suficiente para descartar Marina, que pontualmente nos lembra da inteligente escritora e melodista que é, também não é bom sinal.

Mas sabem que mais? A normalização também passa por aqui. Num festival popular que ainda se recusa a ver a dar projecção total à pop — apesar da vitória de Robyn ser um progresso —, em que tanta mediocridade se justifica com o dedilhar de uma guitarra, poder ver um concerto pop medíocre chega a ser libertador.



Há outro tipo de catarse a querer nascer durante o longo espectáculo de Thom Yorke — que, depois do anti-clímax de Marina, começa logo com os micro-dramas humanos que pareciam nunca vir ao de cimo no Alive. “Não sabe estar!”, sentencia uma mulher indignada com um homem embriagado que forçosamente fura pelos membros da plateia e balbucia uma resposta inaudível. Pena. “Has arruinado mis planes!”, gesticula outra senhora aos amigos que parecem não a querer acompanhar a outro concerto. Também não é caso para tanto.

Com o seu terceiro trabalho a solo recém-editado, o hipnótico e distópico Anima, Yorke não é estranho a texturas abaladoras, polirritmos digitais, vocais distantes, guitarras minguantes e uma espécie de vácuo existencial que é dançável com um certo jeitinho. Como nome cimeiro no Palco Sagres neste último dia, e um precedente de performances mastodônticas, Yorke não faz cedências algumas e pouco tem de fazer para ter o público na palma da sua mão — geralmente já impressionável, parece encontrar em Yorke o seu messias final.

Dividindo o tempo entre The Eraser e Anima, é genuinamente belo ver a desenvoltura de Yorke, dançando como um eremita contente por ao fim deste tempo todo encontrar o seu recíproco, que esbraceja e grita perdidamente na plateia. No fundo, o permanente bricabraque das cores. “Has Ended” é um sucesso logo à partida, “Truth Ray” é um teste à paciência. O esticão do encore lança-se na belíssima “Atoms for Peace” (uma das suas melhores letras de sempre) que parece vir de Vespertine, e “Default” que poderia ser de um Mezzanine.

É uma relação bonita. Mas há um quê de dissonância como elefante na sala: o grau de solipsismo em que esta música foi concebida é mais hermético do que intimista, e é um desafio nada linear experienciá-la ao vivo; muito mais do que agarrar nos auriculares e ouvir Tomorrow’s Modern Boxes (justamente esquecido no alinhamento do NOS Alive). A verdade é que Yorke, mesmo com um superavit de boa vontade por parte das massas, trouxe ao Palco Sagres aquilo que Marina não quis dar: uma ligação emocional. E isso faz a diferença entre actuar só para uma centena que tudo aplaude, ou para milhares que reverenciam com justificação.


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