NOS Alive’18: um quinteto de luxo a puxar o beatmaking português bem lá para cima

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] NashDoesWork

A ideia de termos direito a um palco dedicado à produção nacional, por um dia, no NOS Alive 2018, era tentadora para os apreciadores de batidas, mas, depois de terminada a noite, fica-nos a sensação de que era uma fantasia excessivamente dourada pelas nossas expectativas. Feitas as contas — e sabendo o quão difícil é perfurar nos grandes palcos com propostas mais arrojadas — DJ Glue, o curador do alinhamento de ontem no palco Coreto, está de parabéns por ter organizado um evento tão raro quanto urgente na cultura da música urbana em Portugal.

Longe vão os tempos do Urban Beat Battle ou de um mítico “confronto” entre Mundo Segundo e Sam The Kid aos comandos de uma MPC. Ao olhar para o alinhamento do palco Coreto no primeiro dia do NOS Alive 2018, eram essas as memórias que vinham à cabeça — horas a fio regadas de beats numa vertente clubbing. A verdade é que as cinco batalhas da noite de ontem foram demasiado curtas para a qualidade dos nomes que apimentavam o cartaz. Olhemos para isto como uma espécie de tubo de ensaio: que as batalhas de instrumentais se repitam com, no mínimo, o dobro da duração desses escassos 20 minutos e que nomes como SP Deville, Here’s Johnny, Fumaxa, Dead End e o próprio DJ Glue saltem para um palco de maior dimensão, que não um recanto quase esquecido da imensa área que o NOS Alive cobre.

 



A primeira “picardia” da noite foi entre veteranos. DJ Glue e SP Deville mediram forças atrás dos controladores, à procura da melhor maneira de arrancar os aplausos e elogios do público para um medidor sonoro que viria a ditar o “vencedor”. Assumidamente fora da sua praia, Glue trouxe consigo algum material que lhe fora enviado por produtores emergentes. Fabrice foi o primeiro a ser “estreado” pelo fundador das noites C.R.E.A.M., que aproveitou a ocasião para nos mostrar como soa a batida de “Bate Palmas” sem a voz de Carlão e ainda um raríssimo inédito do arquivo de Sam The Kid. No início da sessão, Glue apresentava SP como um dos mais subvalorizados no circuito da produção nacional e o homem que fez parte dos Makongo e da dupla SP & Wilson não desiludiu. Beats esculpidos ao pormenor e apenas ao alcance dos melhores, um trabalho de laboratório que Deville vai explorar mais a fundo num futuro breve, conforme revelou ao ReB após a sua prestação — Bob Da Rage Sense tem já em mãos um disco produzido na íntegra por SP. “Cristalina”, de Slow J, ecoou nas colunas remisturado pelo “mestre”, sendo a primeira de várias faixas tributo que Deville apresentou.

Dead End e Fumaxa são dois nomes da nova escola com registos bastante distintos mas o público mostrou-se satisfeito com a mescla sónica, atribuindo à segunda batalha da noite o título da mais renhida de todas. “Tive de usar uma batida que tinha reservada para o Here’s Johnny,” confessou-nos Fumaxa à saída do palco, visivelmente impressionado com o adversário, o nome menos badalado desta talentosa lista. Para os presentes no palco Coreto que não conheciam ainda o nome Dead End, o serão de ontem foi, sem dúvida, um óptimo cartão de visita. Beats tão agressivos como meticulosos na sua concepção, Dead End é um daqueles nomes que facilmente animavam uma Low End Theory. Na pen drive que Fumaxa trouxe até ao NOS Alive moravam alguns exemplos de futuros bangers que o hip hop português pode ganhar, depois de casados com a voz de um dos habilidosos MCs que pairam no universo do produtor de Mem Martins. Bispo, Chyna ou, mais recentemente, No1: agarrem enquanto podem.

 



Here’s Johnny jogou na “defensiva” e, para as batalhas no palco Coreto, trouxe consigo grande parte do seu valiosíssimo repertório já editado. As batidas de “Fácil”, “Ignorante” ou “Casca Grossa” valem milhões de visualizações nas plataformas de streaming, todas vindas da cabeça daquele que é o alquimista da Superbad. As reacções não foram de surpresa mas continua a ser impossível resistir ao seu jogo de 808s e tarolas estridentes a ecoar num grande sistema de som. Fumaxa voltava a subir ao palco no terceiro confronto da noite e, além de alguns inéditos, adoptou por vezes a táctica trazida pelo seu adversário para lhe responder com instrumentais utilizados por Chyna.

A picardia da noite foi entre SP Deville e Dead End, dois nomes que procuram uma estética semelhante nas suas produções, embora com abordagens e metodologias totalmente distintas no que diz respeito à construção de um tema. SP abriu o jogo com um sample de “Bacalhau à Portuguesa”, de Quim Barreiros, totalmente convertido para uma batida trap bastante apetecível. Dead End respondia com batidas em esteróides envoltas em ruídos e distorções dignos de um sound designer de elite. Completamente rendido ao seu adversário, Deville não abandonou o palco sem prestar mais duas homenagens: XXXTENTACION fez-se ouvir numa remistura inédita de “Look At Me” e o clássico nacional “Rhymeshit Que Abala”, de Chullage”, fez-se também ouvir com uma nova roupagem.

Pouco depois da meia-noite, DJ Glue voltava a chamar Here’s Johnny ao palco para uma última ronda de beat battles. Beats novos e outros já conhecidos, como o de “Última Deixa”, fizeram parte da fórmula de Here’s Johnny para o derradeiro embate. DJ Glue voltou a soltar uma batida original e deu a conhecer mais algumas pérolas que lhe foram enviadas para a missão do palco Coreto no NOS Alive. Juzicy Beatz, xxoy. e M.A.F. foram os escolhidos entre os vários produtores que responderam ao apelo do DJ nas redes sociais. O momento alto deu-se com mais uma revelação inédita de Sam The Kid, que somava a segunda aparição sónica no festival.

Apesar do esforço de DJ Glue em preencher um quadro com as pontuações das batalhas, interessa salientar a vitória da cultura beatmaking portuguesa, que abriu uma porta importante. Nomes como SP Deville, Here’s Johnny, Fumaxa, Dead End e DJ Glue merecem a confiança de poder repetir o formato num palco com melhores condições e com maior destaque dentro do recinto. O presente e o futuro da música portuguesa passa pelas mãos de senhores como eles.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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