NOS Alive’18 – Dia 2: a nossa casa é o mundo

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Hélder White

Os percursos de DJ Glue e Branko são, em alguns pontos, semelhantes: fizeram parte de bandas enormes no panorama nacional e emanciparam-se com ideias e projectos que, como se diz na gíria, não bateram na rocha. Miguel Negretti levou a elite de produtores nacionais de hip hop ao Palco Coreto no primeiro dia e João Barbosa não quis ficar atrás: mostrou que a música global é um conceito real e existe um público transversal (portugueses, ingleses, espanhóis, brancos, negros, etc.) que tem conhecimento de causa. Agora, mais do que nunca, vivem-se tempos de comunhão em que as fronteiras se esbateram. Andamos todos a dançar a mesma batida.

XXIII, Na Surra, Populous e Kokoko! antecederam Rastronaut & AKACORLEONE, dupla que misturou a música e a ilustração numa actuação que primou pela selecção à prova de bala do primeiro. A percussão e o ritmo não permitiram paragens e serviram de base para os mil e um instrumentos exóticos e tribais que dão cor às canções. Repescando o título da reportagem de ontem, “o que é nacional é bom” e João Pedro Silva largou uma das faixas que rasgam qualquer pista de dança: falamos de “Drenas”, tema de PEDRO, um daqueles clássicos imediatos que dificilmente perderá a potência e frescura.



Voltando à globalização, o norte-americano mais brasileiro de Seattle e arredores regressou a Lisboa e não defraudou as expectativas de quem esperava muito rap, r&b e, claro, funk brasileiro. “Tun-tcha-tcha-tun-tun-tcha” a torto e a direito. Durante o set de Sango, nomes como Aminé, Frank Ocean, GoldLink, Travis Scott ou Drake — o DJ e produtor tem uma pequena “obsessão” pelo rapper canadiano — ganharam uma nova costela brasileira que, diga-se, não lhes fica nada mal.

Também houve espaço para temas originais como “Na Hora”, mas a grande surpresa foi “Correria”, música de Rafa G que viajou até aos Estados Unidos da América e aterrou directamente nas escolhas do autor de In Comfort Of. No dia 13 de Julho, a canção contava mais de dois milhões de visualizações no YouTube. E, se não nos enganamos, a Príncipe Discos e a Enchufada também cederam músicas do seu catálogo ao DJ…



DJ Lag e gqom já ficavam fora do itinerário do Rimas e Batidas e, por isso mesmo, Branko fechava as contas. Miles From Kinshasa foi o primeiro convidado a entrar para tocar a nova canção da dupla, “Over There”. A capacidade para escolher colaboradores foi realçada pelas canções tocadas, “disparando” as vozes de Sara Tavares e Mayra Andrade ou os instrumentais feitos a meias com PEDRO através do sistema de som do NOS Alive. Não é por acaso que é um dos produtores portugueses mais importantes dos últimos anos.

“Façam barulho para a música portuguesa”, pediu o co-fundador da Enchufada antes da entrada de Dino D’Santiago. Actuação irrepreensível do cantor: “Nova Lisboa” realça todas as suas qualidades e confirmam, mais uma vez, todas as potencialidades de uma voz que carrega sensualidade e confiança. A participação de Dino não ficou por aí e a versão acelerada de “Nôs Funaná” encaixou que nem uma luva no ambiente de festival.

De Cabo Verde para o mundo, do mundo para o Brasil, mais concretamente para São Paulo, Rincon Sapiência foi recebido com entusiasmo pelo público. Trouxe rimas, rimas e mais rimas a “Na Quebrada”, a remistura oficial de “Drenas”. O entusiasmo geral foi perceptível e a nota foi mais que positiva para Branko e companhia. Sabem dar uma excelente festa, educam a pista e transportam a música portuguesa para patamares de excelência e relevância internacional que seriam difíceis de imaginar há alguns anos.