Noite Red Bull Music Academy no Neopop: celebrar o futuro

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] João Pedro Marnoto (Red Bull Music Academy)

A programação do palco principal do Neopop Festival 2016 – o Neo Stage – esteve entregue à Red Bull Music Academy, instituição global com justas responsabilidades na propagação da música electrónica que reuniu no forte de Santiago da Barra em Viana do Castelo um verdadeiro e diversificado “A-Team” de produtores que garantiram um vislumbre de futuro numa noite quente, com temperatura perfeita para que todos se pudessem concentrar no que realmente importava – a música, debitada a partir de um palco equipado com um incrível sistema de som, capaz de fazer justiça ás diferentes nuances electrónicas apresentadas, e com um igualmente espantoso enquadramento visual, entre neons e ecrã gigante sempre disposto a traduzir em cor aquilo que a música sugeria.

 


Red Bull Music Academy | Neopo 2016


A noite arrancou com os grandes HHY & The Macumbas de Jonathan Saldanha, um colectivo que descolou em direcção ao espaço de forma tranquila, com um drone de crescimento lento, antes de transformar a sessão num ritual com algo de tribal, algo de dub, algo de funk, como se houvesse por ali uma jam session entre os atómicos Defunkt, o roots master Count ossie, com tudo a ser orquestrado por Bill Laswell.

Seguiu-se a deambulação bass de Fatima Al Qadiri, artista com ligação à Hyperdub que assinou uma viagem por vários idiomas rítmicos modernos, incluindo os que se vão cozinhando nos “guetos” de Lisboa e que parecem estar a ter impacto no resto do mundo. Segurança, classe e fluidez, foram as marcas da DJ. Seguiu-se Etienne Jaumet: posicionado entre ferramentas do passado capazes de evocar o futuro – a Roland TR-808, o Roland SH-101, um Yamaha CS01, um Arp Pro/DGX… tudo capaz de criar um brilhante ruído cósmico que ressoou da melhor maneira na madrugada que já ia alta.

 


Red Bull Music Academy | Neopo 2016

Red Bull Music Academy | Neopo 2016


Ben UFO, homem do leme da Hessle Audio,transportou depois a multidão para paragens bem mais próximas do techno, num percurso sinuoso, mas pleno de sabedoria que obrigou os primeiros braços a soltarem-se de forma entusiástica no ar. O house de recorte sofisticadíssimo de Switchst(d)ance também suscitou entusiasmo: o português Marco Antão, residente no Lux e muito experiente, mostrou bem com quantas batidas se faz um groove capaz de nos elevar a todos á estratosfera. Ao seu lado no palco, de câmara bem posicionada, esteve sempre João Botelho, em busca de material para a segunda parte do filme recentemente apresentado.

 


Red Bull Music Academy | Neopo 2016

Red Bull Music Academy | Neopo 2016

A última parte da noite foi épica e manteve um crescendo irrepreensível, sempre em direcção às estrelas: primeiro foi Benjamin Damage, ex-participante da Red Bull Music Academy, que obrigou a sua TB-303a verter ácido sobre um tapete rítmico puramente techno, o que, obviamente, lançou ondas de fervor entre o público que sentia ser esse o caminho a seguir. Depois, Maceo Plex trouxe experiência, calculismo estético, saudando o nascer do sol com um exército de animais resgatados á natureza, metáfora perfeita para uma noite de absoluta comunhão entre quem estava no palco e quem esgotava por completo o recinto de Santiago da Barra.

O final da viagem ficou reservado para o mestre Richie Hawtin que conhece muito bem o Neopop e o seu público: escolhas certeiras, techno avançado, postura de compreensível experiência, música de primeira água e total entrega de um públicoigualmente conhecedor e ávido do pulsar mais angular que o veterano embaixador desta electrónica apresenta por todo o globo.

 


Red Bull Music Academy | Neopo 2016


O último dia do Neopop Festival conduzido pela Red Bull Music Academy foi uma viagem, tocou em muitas coordenadas diferentes de um som que é hoje uma das bandas sonoras mais omnipresentes no planeta. O Neopop 2016 foi, uma vez mais, um exemplo de celebração de uma cultura que parece não parar de crescer. O futuro é o objectivo. Foi mesmo real.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu