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Fotografia: Joaquim Pinto e Isis Gonçalves (com edição de Luís Lopes)*

De todas as vidas duplas, Rui Paiva tem a mais harmoniosa. Produtor e músico de formação clássica, é o braço-direito de Pedro Abrunhosa nos dias úteis. Nas suas melhores noites, é um visionário pop que quer continuar o legado de António Variações.

No mundo de RIVAthewizard, a identidade é um manifesto

Fotografia: Joaquim Pinto e Isis Gonçalves (com edição de Luís Lopes)*

O que acontece em Cem Soldos às quatro da madrugada? Na aldeia da cidade de Tomar, a resposta depende do período de visita. Em semanas banais, as janelas estão cerradas e o sono é profundo, mas, no pico do Verão, a trepidação sacode as hortas. A 12 de Agosto de 2019, um one man show abria todas as pálpebras e violava todos os tímpanos selados. Sobre o tronco nu do personagem, ondulava uma capa preta, sem obstruir o movimento dos glúteos: um elevador fora de controlo a descer ao som de Ariana Grande, a subir à toada sísmica dos Prodigy, para depois regressar à mesa de mistura. 

Era o encerramento do terceiro dia do festival Bons Sons. O tempo em Cem Soldos, nesse sobressalto, é varrido pelo calor, pela lufa-lufa do voluntariado, a electricidade de cada concerto. Que o diga Rui Paiva. O assistente técnico picava o ponto para mais uma tarde ao serviço do Palco Giacometti (baptizado em homenagem ao etnomusicólogo de Povo que Canta). Volvidas poucas horas, já os cabos eléctricos repousavam em novelos, e era ele próprio que surgia em palco, sob a sirene de uma luz vermelha, para o gáudio de uns 700 corpos incansáveis. Como se explica essa metamorfose?

RIVAthewizard, o seu alter-ego artístico, não nasceu nessa noite do nostálgico, tristemente palpável 2019. “Já tinha dado alguns concertos antes, mas nada naquela escala”, diz o músico portuense nascido em Macau, que se estreou em discotecas de ar rarefeito para umas dezenas de curiosos. O tipo de cenário familiar a qualquer artista em botão, aquele que cresce descomprometido, sozinho, à espera da luz que o faça desabrochar em praça pública. Poderia ter demorado anos, mas encontrou um catalisador chamado Luís Sousa Ferreira: à última hora, um buraco na programação ameaçou desfigurar a terceira noite do Bons Sons – esgotada e encabeçada por Stereossauro, Pop Dell’Arte e Três Tristes Tigres. Foi então que o ex-director artístico do festival procurou saber quem era Paiva fora do horário de expediente.

“O Rui cria uma persona que é um manifesto”, comenta o programador do 23 Milhas, projecto cultural do município de Ílhavo. “Isso, conjugado com a sua idade, é um marco importante. É uma voz em palco – o que não existe muito em Portugal”. Firmaram um acordo às quatro da matina, a menos de 24 horas de uma actuação de moldes ainda desconhecidos, até para Paiva. Depois de compilar material para a grande première de RIVAthewizard, regressou à labuta durante a tarde de sábado (em suporte ao contrabaixista Jorge da Rocha e ao didgeridoo de Tiago Francisquinho). Antes e depois do serviço, migrou para a oficina do festival, entretecendo retalhos de carpetes e cortinas de palco num conjunto de capa e máscara. Mais do que um traje, era um par de acessórios – ainda assim, índices da maior audácia em exibição naquele dia de festival.

“Sempre tive a ideia de elevar esteticamente o meu trabalho. Para além das músicas serem muito identitárias, as roupas que visto, [a forma] como eu interajo com o público… As pessoas identificaram-se com essa genuinidade”, reflecte Paiva. Seja um alfaiate fraco, um bailarino competente ou um DJ acima da média, assume-se sobretudo um provocador nato. A prova está na segunda faixa do álbum que editou em Julho, Loucura Censura: arranca com o que parece ser o desapertar de um cinto, seguido de dois minutos de respiração ofegante e a sugestão de um clímax. Será RIVA o primeiro artista nacional a masturbar-se no seu próprio álbum? “Aquilo que posso dizer é que foi feito no estúdio. Tem muito esforço de sound design“. Uma resposta que não é propriamente um “não”.



[De Peter Pan a Pedro Abrunhosa]

Conversamos durante uma noite de segunda-feira, pelas horas que lhe sobram fora do escritório. Desde Janeiro, o distante arranque de 2020, o artista trabalha nos Boom Studios de Vila Nova de Gaia. Tentemos uma tradução mais sonante: o estúdio de Pedro Abrunhosa. Um dia normal para Rui Paiva consiste em assistir, como engenheiro de som, essa que é uma das mais cavernosas vozes nacionais; em momentos mais espontâneos, toma a posição de produtor musical. “No sentido norte-americano da palavra”, esclarece, desdobrado em gestor de qualidade e de ego – o que significa, por exemplo, levantar o seu astral na cabine de gravação.

Tornar-se mais vital para Abrunhosa do que um par de óculos de sol, evidentemente, não é uma consequência de actuar no Bons Sons. Também não veio numa salva de prata. Há um cisma funcional entre RIVAthewizard, um outro ser fulgurante que é adiado para o próximo palco que pise, e Rui Paiva, que está no activo desde os 16 anos e continua a consolidar o seu lugar à mesa da indústria. Recentemente, conseguiu o seu primeiro crédito de produção em “Tempestade”, dueto pandémico de Abrunhosa com Carolina Deslandes, ao lado de Diogo Piçarra. Um esgota a Altice Arena e o outro enche a cave do Desterro, mas ambos devem algo ao filão infanto-juvenil.

Anos antes de Loucura Censura – disco que pode vir a tornar obrigatória a classificação etária para música lançada em Portugal –, Paiva mergulhou no teatro musical e ganhou o seu primeiro salário enquanto teclista num tributo aos Queen. Contratado por uma produtora de espectáculos como director musical, tornou-se residente não oficial do Teatro Sá da Bandeira, sobrevivendo a quatro anos de adaptações de franchises da Disney. Valeu-lhe não ser cínico ao dirigir produções como Tarzan e O Rei Leão, experiências que acabaram por sedimentar a sua perspectiva da música como algo dialógico e heterogéneo. “A interacção entre quem está a tocar e quem está a ouvir, a participar: a importância do contexto social, de juntar multidões”, um instinto que o afasta da arena doméstica do bedroom pop.

Concomitantemente, licenciou-se em Composição pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) do Porto. Depois de abdicar do piano, abraçou o saxofone por algum tempo, mas desistiu rapidamente das aulas. O que o fazia recuar? “Um desentendimento com o repertório e o que era esperado do artista”: o sacrifício da “mensagem artística” em prol de uma técnica tão virtuosa quanto contra-intuitiva. “Enquanto eu tinha essa formação clássica, estava a ouvir Guns N’ Roses com os amigos que me ensinaram a tocar guitarra”. Na bifurcação entre pautas e tablaturas, uma pesada bagagem técnica e o desejo de encarnar em Angus Young, atingiu a clarividência. “A música clássica não difere assim tanto da música ligeira, os critérios de cada pessoa é que mudam.” 

A lógica da transversalidade foi útil quando experimentou o showbiz de escala maior, recrutado em 2015 para a digressão “multi-continental” de uma banda portuguesa (que diz não poder identificar). De noite, era um teclista concretizado; de dia, o sentimento de incredulidade batia à porta, quando era recebido em estúdios de Nova Iorque, Sydney, Tóquio ou mesmo Los Angeles – onde visitou a catedral conhecida por EastWest Studios, sítio onde Frank Sinatra ou Madonna gravaram alguns dos seus registos mais lendários. “Foi nessa altura que percebi que queria entrar na produção. Não só compor para ter algo que tocar, mas usar a tecnologia existente para ampliar aquilo que consigo fazer com instrumentos orgânicos.” 

Abandonou o teatro musical em 2018, siderado por um novo rumo – que suspendeu, enquanto não conseguia reunir o equipamento que hoje conserva num pequeno estúdio caseiro. “Infelizmente”, confessa, foi parar ao turismo e à restauração, eternos pontos de encontro para artistas à espera de poderem sê-lo. A bem dizer, Rui Paiva nunca tirou uma sabática da música, sempre membro de qualquer coro escolar que o recebesse; mais recentemente, o Coral de Letras da Universidade do Porto. É num ensaio no Rivoli que conhece Pedro Abrunhosa, numa colaboração para o Concerto pela Paz 2020 (cujo nexo anticolonialista torna clichés como “a linguagem universal da música” e pombas brancas em emoção genuína).

“Ele percebeu que eu tinha uma postura profissional”, refere, ao recordar os ensaios da iniciativa do Conselho Português para a Paz e Cooperação. Impressionado com as suas mãos de pianista e secundado pelo maestro José Luís Borges Coelho, Abrunhosa decidiu privar com Paiva no seu estúdio, para confrontar linguagens – aconteceu serem compatíveis, algo que se deve também às semelhanças entre percursos (antes de chegar ao jazz e à música popular, o músico de Viagens começou no contrabaixo clássico). A parceria começou em Janeiro, o que significou estreitar relações em tempos de pandemia, trabalhando a dois num Boom Studios a operar sob plano de contingência: “De repente, acordo com uma chamada do Pedro Abrunhosa!” Eis a nova normalidade de Rui Paiva.

A 26 de Junho, aconteceu o inverso: foi ele a convidar o seu mentor a participar numde um concerto seu, na Marcha do Orgulho LGBTQIA+ do Porto. “Há muitas coisas que eu faço na minha música que ele não faria”, ri-se, deixando imaginar um álbum techno-pop de Abrunhosa. “Há muitas coisas em comum”, contrapõe, “entre o que o Pedro fez com o Viagens nos anos 90” e o propósito de RIVAthewizard. A aparente blasfémia justifica-se: os cépticos iniciais de Abrunhosa eram-no “pela falta de contacto com a sonoridade” funk que implantou em Portugal. 

Apesar de um crossover de RIVA ser, para já, menos provável, não é descabido considerar que cai na categoria estranhar-antes-de-entranhar. “Por fazê-lo de forma arrojada, deixa-se uma pegada para uma direcção nova. Não é melhor, não é pior: é nova.”



[A balada de Rui Paiva]

Loucura Censura, o primeiro álbum de RIVAthewizard, nasceu enquanto os Boom Studios pareciam dormir. À porta fechada, num horário pós-laboral que se estendia até às quatro da manhã, Paiva poliu a produção de um disco esboçado já desde o Verão de 2019, com a parte de leão da escrita e composição feita “no computador, entre viagens de autocarro e comboio” (a maquete do single “Fuckboy” surgiu-lhe num expresso para Lisboa).

Se é impossível negar o trabalho investido por Paiva nos seus 25 anos de vida, também o é não auscultar um elemento inefável de sorte. “Sinto-me muito bem comigo próprio” – ouve-se um sorriso do outro lado da linha e, depois, um alarme interrompe o tom conformado, como se o tivéssemos beliscado durante um sonho. “No início, foi um pouco surreal. Mas começo a aceitar”. O estado de emergência foi, para Rui Paiva, uma benção improvável: teve a segurança de estar empregado por um dos mais bem guarnecidos estúdios do país, onde não cumpriu apenas as lides técnicas du jour (como garantir a suavidade de concertos transmitidos por streaming). Durante um período que hipotecou a cultura de um país inteiro, Paiva pôde trabalhar no seu disco de estreia, o cartão de visita que lhe faltava.

As longas horas passadas a elaborar o sound design, na companhia de si mesmo, compensaram. Loucura Censura soa a uma visão total: doce e áspera como a PC Music de que deriva inspiração, megalómana como esperado de um artista com ideias e plena liberdade para lhes dar vida. Welcome to the Pleasuredome, álbum que captou, em 1984, o êxito-relâmpago dos Frankie Goes to Hollywood, deu a Paiva o molde para uma odisseia pop (sempre ornamentada com gemidos e outras modulações vocais). O resultado? Um jacto de pop retorcida, directamente herdeira do electroclash abrasivo – e performativo – de Fischerspooner ou Peaches, expandida por uma dieta musical que flui desde Jean-Michel Jarre até neoperreo.

Essa fluidez torna-se polissémica graças à caneta de Paiva. Os vértices menos limados do álbum – certos refrões prematuros e manipulações que tapam tanto a voz como o prazer de a ouvir – deixam algum trabalho de casa por fazer. Mas “Loucos”, a jóia da coroa, é a quinta-essência de RIVAthewizard: os teclados revisitam a glória dos Pet Shop Boys, a melodia agrega t.A.T.u e Daft Punk numa centelha divina. O músico antecipa-se a quem possa perguntar o que é, afinal, Loucura Censura, com um exercício. Condena toda a condição humana numa anáfora inútil: louco o que sabe, quer ou ama demasiado, quem executa o desejo e também quem o reprime. Não sobra ninguém, mas haverá sempre mais línguas a exercer o seu poder viperino, e todas haverão de censurar a vida alheia. Talvez a sua própria.

Se RIVAthewizard constitui – como sugeria Luís Sousa Ferreira – um manifesto, este vem endereçado a quem traz a surdina na algibeira. “Todos temos algo pelo qual sentimos que nos desviamos de um padrão. No meu caso, tenho a bissexualidade, a identidade de género, a saúde mental. Ver essa loucura como algo negativo obstrui a nossa humanidade”. Numa era polarizada entre a tolerância e o retrocesso, é inevitável que Loucura Censura pregue aos convertidos, ao contornar a postura mais respeitável e quaisquer tréguas no que toca ao som.

O instinto de auto-preservação fala mais alto. “O facho não nos vencerá”, grita Paiva ao longo de “Censura”, ciente de todos os que quererão amordaçar a sua fantasia pós-conservadora – e também de que nunca houve melhor altura para a construir.



[O Portugal de Variações que nunca aconteceu, hoje]

Querer personificar uma performance total, mesmo a contrarrelógio e sem orçamento, mostra quem é o feiticeiro Rui Paiva. “[O Bons Sons] foi o momento definitivo para me começar a levar mais a sério: a noção do espectáculo não só enquanto mostra de música” – esteve em Dezembro no LEME (Festival de Circo Contemporâneo e Criação Artística em Espaços Não Convencionais) de Ílhavo – e não só acima do palco. 

RIVAthewizard, um exemplo daquilo que há de mais fervilhante no eixo Bandcamp-SoundCloud, já era uma realidade concreta no seu primeiro single, “Fuîte en Avant”: o escuro festim do teledisco vestia-o numa saia plissada, um top rendilhado e uma máscara de plumas. Aquilo que, em 1987, seria apenas mais um dia para Prince – aquilo que, hoje, ainda pode levantar sobrancelhas se ostentado por um artista português.

A feitura desse videoclipe resume os seus restantes projectos: “Extremamente DIY, à base de colaboração com artistas próximos de mim” – dessa vez, os bailarinos portuenses João Viana e Morgana, “grandes amigos” seus. O colectivo da Chinfrim Discos – incubadora de talentos que opera entre as cidades de Lisboa e Ourém – acorre-lhe em paralelo. O carimbo que serve à cançonetista Bia Maria ou a Steve – embaixador do techno na Chinfrim, misturou Loucura Censura em dois dias e produziu “Quero Brincar Contigo” – também coube ao primeiro EP de RIVA: uma suite de techno melódico, ilustrada com uma aurora verde e um olhar assombroso, entre franjas de pérolas. “Há cada vez mais artistas que não escondem a sua identidade, mas muitos não importam isso para o seu trabalho. Faltam artistas que a tragam, sem medo” – e onde se bebe essa coragem?

De repente, o fantasma de António Variações paira sobre a conversa: o homem minhoto que cantou a plenos pulmões e se vestiu de todas as cores, colorindo um Portugal ainda cinzento em começos dos anos 80. Contudo, ao passo que a plasticidade visual de Variações continua a ter acólitos, e os seus versos vivem na ponta da língua portuguesa, o seu legado queer é estranhamente estéril. Nunca uma identidade como a sua tinha sido publicamente difundida em Portugal: foi uma pedrada no charco que, hoje, ainda irradia as estradas independentes: a vibrante Troublemaker Records redesenha a electrónica como espaço seguro a muito mais que experimentação; artistas como Fado Bicha, Filipe Sambado ou Tiago Braga reimaginam o status quo da música pop. Mas os grandes portões, promovendo uma produção nacional higiénica, fecharam-se.

“Se não tivermos vergonha de o fazer, as rádios, editoras e restantes instituições não têm alternativa senão apoiar e incentivar-nos”. A sugestão de Paiva lembra o caminho trilhado por Conan Osiris. Um ovni que borbulhou no eixo SoundCloud-Bandcamp, editou um dos melhores álbuns na história da música portuguesa, e foi o representante português na Eurovisão de 2019. Fê-lo de kimono de verde setim, máscara dourada sobre as feições, acompanhado pelos death drops do bailarino João Reis Moreira. Embora tenha convocado a bílis nacional, as rádios não o conseguiram barrar, nem o Coliseu dos Recreios. 

Paiva partilha dessa intransigência, mesmo que isso signifique alienar editoras e aniquilar oportunidades. “Se uma relação [profissional] não me permitisse ser quem sou, só iria ser pior para mim. Há quem me diga ‘não ponhas tantos efeitos na voz, cantas tão bem’ – mas é uma opção estética minha. Também oiço coisas como ‘não precisas de ser tão político, abertamente LGBTQIA+ ou usar essas roupas’… Não preciso, mas a verdade é que, se o fizer, crio uma identidade e algo para que as pessoas tenham uma referência nova e actual”. Para Rui Paiva, é apenas a história da música a perpetuar-se, modernizando aquilo que Wagner antecipou com a sua obra de arte total (gesamtkunstwerk): uma intersecção de cenografia, sonoplastia, coreografia.

Será essa mundivisão algo secundário ao som? “Não se descolam. Eu tento fazer música pela música, mas a verdade é que se ganha em empurrar o público através da estética”. Será verosímil sequer? Paiva é fluente no tipo de megalomania que escapa à indústria portuguesa – para além dos códigos que mediam artista e público (“Estou muuuuuuito cansado pfvr alguém venha sentar-se na minha cara”, escreveu recentemente no seu perfil de Twitter). Imagina-se comandante de uma ópera pop à Roger Waters, Madonna ou Muse, de pendor político e narrativo. A digressão ArtRave de Lady Gaga, em 2014, abriu-o para o concerto que “não tem que ser só quatro gajos de barba, com camisa ao xadrez, a tocarem guitarras” – mas essa é a antítese de um modelo que ainda vigora em Portugal, seja por orçamentos claustrofóbicos ou pouca imaginação (com a devida ressalva aos Mão Morta). 

Ignorar a artificialidade da música pop seria a maior hipocrisia de todas. A força com que projecta este universo visual, virtual – onde a loucura se erradicou quando parou de ser identificada e a censura é um conceito obsoleto – consome Paiva, ao ponto de deixar a música na sombra. Afinal, o que é que o define? “Estar em palco como RIVAthewizard ou em estúdio a compor…?” A hesitação trava-o. “Quero fazer coisas que sejam emotivas, quero que uma pessoa que me oiça sinta que estou lá perto”. Nesse corpo-a-corpo imaginário, fica tudo definido: “Quando estou em estúdio, tenho que pensar como se estivesse em palco.”

É nesse momento que conseguimos desenhar uma bissetriz entre Rui Paiva e RIVAthewizard: a corda bamba cai; em seu lugar, erige-se a mais sólida ponte a ligar os dois hemisférios. O produtor prossegue na aprendizagem e na colaboração. O feiticeiro segue errante, sem tecto para a sua ambição pop, sem censura que o impeça de descer até ao chão.


* A foto de capa é da autoria de Joaquim Pinto. As restantes também, com a excepção da primeira foto – da Isis Gonçalves. Luís Lopes assina a edição de todas.

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