2026 começa a soar a um regresso ao passado (recente). Se a chama de vários dos rappers mais badalados da última década parecia apagada, o novo ano está a contrariar isso. Temos assistido ao renascer/recomeçar de alguns destes nomes e o mais recente é o de No Money.
O MC da Superbad, caracterizado pela sua agressividade e misticismo, está de volta e a reerguer-se de uma pausa prolongada com o novo disco Cicatrizes. Como o próprio título indica, o passado foi erodindo o artista, que aparece de costas desfiguradas na capa do projeto. E são exatamente essas marcas da vida que podemos escutar sob a forma de 10 temas.
Apesar da carga menos positiva no trabalho, o rapper da Linha da Azambuja dá aqui o pontapé de saída desta nova fase e já tem na manga mais um projeto a meias, desta vez com Osémio Boémio. Denote-se que No Money tem trilhado a sua carreira praticamente de “mão dada” com Here’s Johnny, irmão de armas da Superbad, responsável por grande parte da produção da sua discografia. Este Cicatrizes abre um precedente nesse capítulo, com produções de outros nomes, como é o caso de Lhast, DJ Dadda, Ricardo Estevão, Il-Brutto e o já mencionado Osémio Boémio.
É um regresso que mais soa a recomeço para No Money: apesar de todas as diferenças, musicalmente falando, parece um homem revigorado, sem medos, sem timidez e aberto ao que o mundo tem para lhe dar. Por tudo isso, concedeu ao Rimas e Batidas a primeira entrevista da sua carreira, para nos contar tudo sobre este novo capítulo frutífero e mais positivo que vai vivendo nos últimos tempos.
Depois de uma longa pausa, estás de volta. O que aconteceu para teres tido uns últimos anos mais parados?
Cheguei a uma altura em que, se calhar, fiquei sem saber qual era o caminho ou que sonoridade devia seguir. Nessa altura só tinha o Here’s Johnny para trabalhar comigo, falámos e, na altura, ele estava a trabalhar no álbum do Holly Hood, noutros projetos dele, e optei por ele escolher os produtores que encaixavam nas coisas que estava a fazer e começámos. Basicamente o Here’s Johnny foi o engenheiro do álbum, arranjei bué beats e não estava a dar até que o Johnny me indicou os produtores que encaixavam melhor no que queria. Falou-me do Lhast, do DJ Dadda, do Osémio Boémio, e comecei à procura, comecei a bulir com essa outra malta, incluindo o Ariel, o Migz, o Il-Brutto, o Ricardo Estevão, trabalhei com ele todos. Depois dessas sessões com eles, voltava à base, falava com o Johnny e limávamos umas coisas.
Como é que te sentiste a expandir esses horizontes e a trabalhar com outra malta?
Foi a primeira vez na minha carreira, só tinha mesmo trabalhado com o Johnny, sempre rimei em beats dele. Também foi por isso que nunca saí muito daqui ao longo dos anos, nunca tive aquele à-vontade para falar com as pessoas, um gajo é um bocado tímido [risos]. Havia malta que pensava que só sabia trabalhar com ele, mas consegui provar que consigo trabalhar com qualquer produtor.
Quando foi essa paragem na tua carreira?
Foi depois de lançar o “O Meu People Ri-se”, foi um som que explodiu, queria mais cenas nessa vibe e não tinha, mas também não procurei muito com outros produtores, fiquei, se calhar, com medo e parei um bocado. Depois disso, fiquei um bocado perdido. Também acho que ao longo do tempo sempre tive bastante receio. Sempre que lançava música aconteciam coisas na minha vida, é complicado…
Depois dessas cicatrizes da vida, sentes que cresceste, mudaste?
Tal e qual, acho que acordei outra vez para a vida. Sendo sincero, quando faleceu o Short Size, perdi bué a vontade. Depois cheguei a Portugal, estive com o Holly [Hood] e o [Here’s] Johnny e voltei a ter essa fome. Entretanto, por outras coisas da vida, voltei a ir-me um bocado abaixo e foi difícil voltar.
Enquanto escutava o teu álbum, cruzei-me novamente com alguns temas teus mais antigos com a participação do Short Size, era um grande rapper também. É alguém especial no rap português e merecia ser mais falado.
Sim, sempre foi um tópico que evitei um pouco falar porque realmente mexe comigo, mas esse gajo era bom [risos]. Imagina, ainda há coisas com ele que eu quero lançar, há um som que nunca saiu que gostava de recuperar e meter cá fora. É um som que foi feito depois daquele que a malta conhece, o nome deste som era “Modo Heavy”. Sei que, onde ele estiver, acho que vai estar orgulhoso de um gajo, porque ele e o Johnny acreditavam que eu tinha mais do que só rimar. Eles é que descobriram esta minha faceta de também curtir de cantar. São coisas que eles viram e eu não. Para mim, vou-te dizer, o [Short] Size era o melhor rapper da tuga, mesmo. Hoje em dia, sou rapper graças a ele, foi o Size que disse que eu ia começar a gravar sons. Ele próprio fez os beats, foi para minha casa e disse “bora, vou-te gravar”. Foi aí que eu comecei!
Não fazia ideia, isso em que ano?
Por volta de 2006, 2007. Depois é que comecei mesmo a lançar sons cá para fora. Mas ya, foi o Short Size que me meteu aí na batida [risos].
E estes anos todos depois… primeiro álbum cá fora!
Até parece mentira, man. Até parece mentira! E temos mais coisas. Enquanto estávamos a fazer este Cicatrizes, comecei a trabalhar noutro projeto com o Osémio Boémio, ainda quero lançar este ano também. Eu e ele casamos bem, temos esse projeto a caminho.
Então este Cicatrizes voltou a acender a tua chama.
Ya, ya. Tive bué tempo sem lançar mas agora as pessoas vão levar comigo! Cada vez que eu lançar um som nunca vão saber é a vibe que vai sair.
Ok, este projeto com o Osémio Boémio vai ser imprevisível nisso, então?
Ya ya. Vou apostar em cenas diferentes, curto bué de apostar em cenas novas. Eu oiço bué música francesa, seja rap, R&B, oiço mesmo de tudo. Basta haver uma coisinha que eu goste, que eu consumo. Ouço bué gajos que se calhar até são menos conhecidos que eu, mas o que é interessa é a qualidade musical. Estou pronto para trabalhar com qualquer artista, não trabalho só com este ou aquele, não.
Tiveste algum click para reacender esta chama? Pareces uma pessoa mudada.
Sim, foram as pessoas à minha volta, a minha namorada. Viram que estava muito em baixo, deram-me muita força, fizeram-me acreditar outra vez. No último ano tive um grande boost. Também perdi o meu pai e foquei-me bastante, sempre lhe disse que ia fazer um álbum e foquei também por isso. O meu pai tinha uma grande voz, man! Se calhar também é por causa disso que tenho esta dica de cantar
Está no sangue! O teu pai também era cantor?
Não, não, era mais em casa ou no carro. Fui consumindo muitas das coisas antigas que ele ouvia e fazem-me ir por estas sonoridades, para ter umas melodias.
O que é que ele ouvia e tu gostaste?
Posso dizer Tulipa Negra, Tabanka Djaz, UB-40, são cenas que consumo bué, cenas antigas que adoro.
Apareces completamente sozinho na parte lírica do disco, sem convidados. Foi propositado?
Sim, sim. É um trabalho bué íntimo, acho que não havia ninguém a casar com algum som, para dar continuidade ao que estava a cantar. A única voz neste álbum a mais é a da minha filha, no “Interlúdio”, a fazer umas melodias. A única participação é mesmo ela.
Está a ganhar a veia musical do pai!
Ela tem, ela tem… mas ainda é nova [risos].
Foste tu que a desafiaste para isso?
Quando estamos no carro ela curte de cantar, então disse-lhe “vais entrar no álbum do pai”. Disse-lhe para fazer o que quisesse por cima do instrumental do Johnny, a melodia é mesmo dela. É por isso que aquele som é capaz de ser dos meus favoritos, fico só a ouvir aquilo.
Há mais algum tema com um sentimento tão especial para ti no projeto?
O “Sinais”, tem duas fases. É especial, porque escrevi para a minha namorada, que foi quem me deu mais força para estar aqui e continuar, mas comecei o refrão a falar de saudade, quando escrevi “onde tu vais” foi na altura do falecimento do meu cota. Mas depois pensei que não queria levar aquilo para uma cena má, ou seja, queria levar para uma coisa mais positiva. Fiz esse som sozinho na casa do meu pai, em Paris, é muito especial por isso. Ele já tinha falecido, fiquei lá a passar uns dias em jeito de despedida, porque eram os últimos dias na casa dele, e pensei “vou fazer um som”, mas algo positivo. Depois, como ele curtia bué a minha namorada, pensei logo em fazê-lo para ela também.
Também achei curioso o “B.e.s.t”. Porque está escrito em forma de sigla?
É por causa do refrão, se reparares digo “Baby Eu Sou Thug”. Essas agora são para quem estiver mais atento, são detalhes [risos].
Por acaso não me tinha apercebido desse detalhe. Mas acho que há um que me apercebi: a capa do álbum é uma referência a uma fotografia super gráfica e pesada das costas de um escravo nos EUA?
Sim, é essa a referência. Demorei tanto tempo a lançar o álbum porque estive escravo dos meus problemas. Pode ser que muita gente não entenda, mas este é o significado que estou a meter lá. Há vezes que lidas com tantos problemas que ficas escravo deles, ficas numa bolha. Mas as cicatrizes estão saradas, agora é continuar, para a frente. Agora quero é fazer, sem pensar muito. Fazer, acima de tudo, aquilo que gosto.
Pelo que descreves, tens uma energia totalmente diferente de há uns anos.
Ya, ya. Mudei bué nos últimos anos, muito mesmo. Há pessoas que não costumavam estar muito comigo e agora estão e reparam nisso… Epá, estou bem-disposto, não tenho sempre aquela cara zangada, a vida muda. Estou mais adulto, levo a vida de outra maneira, mais aberto ao mundo. Antes vivia muito no meu mundo, agora quero mostrar o que tenho a este mundo.
O próximo passo disso é o tal projeto com o Osémio Boémio, certo?
Sim, neste Cicatrizes acabo por falar de temas mais pesados, mas nesse vou falar de coisas mais felizes, que é como estou agora. Neste projeto vou vir com rap, mas também melódico. Vai haver sons mais a partir, mas também acho que vão haver cenas que não estás à espera desta dupla, a gente casou bem.
O que é que te atrai mais na forma de trabalhar dele?
Imagina, ele também curte assim de melodias maradas. E também, quando estamos os dois a trabalhar, ele não deixa escapar nada do que estou a fazer, mete logo a gravar, não perde nada, foi por isso que fizemos a cena bué rápido. Bastava ouvir um beat e tentar logo algo por cima dele, fazia logo uma melodia e em meia hora escrevia o refrão. Estivemos sempre a criar novas vibes, se calhar ele também explorou cenas que nunca tentou muito, vibes que ele gosta. Acho que o pessoal vai gostar, agora é acabar.
Musicalmente, o que gostavas de explorar nesta tua nova fase?
Eu sou aquele gajo que gosta de arriscar. Como agora estou a trabalhar com mais produtores, basta ouvir uma cena que gosto e nem me interessa a vibe, é logo para trabalhar. Eu curto de ir ter com os producers e dizer “mostra-me aí um beat“, e eles normalmente vão tentar dar logo algo que seja a tua vibe, mas eu digo que não e peço-lhes algo fora-da-caixa, cenas que não me imagines lá. Foi assim que fiz este álbum.
Já te imaginaste num género de R&B francês, como há pouco referiste que gostas de ouvir?
Já, já, sem dúvida. Vou-te ser sincero, fiz no estúdio, para mim, estão lá guardadas com o Johnny. Por exemplo, o beat do “Sinais” é dele, mas que ele se calhar normalmente não faria. A produzirmos disse-lhe para irmos por um certo caminho e ele disse “a sério?”, e deu o “Sinais” [risos].
Adoro esse refrão. Os teus refrões sempre foram contagiantes, o do “Veneno” é incrível.
Sou bué criativo nisso, basta ouvir um beat e começo logo a pensar no refrão. Costumo ouvir certas cenas e em 10 minutos já tenho um refrão, acho que sou bom nisso.
Sobre este “Cicatrizes”, já temos alguns vídeos cá fora, o que pensas fazer para dar mais vida a este projeto?
Ainda quero ver se faço mais dois videoclipes, do “Como D’Antes” e do “Air Max Freestyle”.
Adorei esse nome… Sempre foste mais team Air Max e menos team Air Force? [risos]
Ya ya, sou mesmo Air Max [risos]. Por acaso, já tenho a parte 2, quero ver se a faço com um convidado, ainda estou a trabalhar nisso.
Interessante. E porquê este nome, “Air Max Freestyle”? Achei curioso.
Imagina, tinha mais um verso no tema, só que fiquei a pensar em fazer um refrão e mais um verso ou então deixar assim como freestyle e depois fazer um som a sério para matar este. Fiz a primeira parte e ainda gravei essa segunda, mas não meti no álbum. Vou meter agora nos próximos lançamentos como se fosse um “Air Max 2”.
E o videoclipe que falaste que queres fazer, é apenas para a primeira parte ou para tudo?
Pois, isso é algo que ainda estou a pensar, podia ser uma surpresa. Vamos ver, vamos ver…
Também falaste do “Como D’Antes” para videoclipe, porquê?
Foi um som que deu bué trabalho [risos]. Comecei a fazê-lo, depois deixei de gostar porque não estava a gostar do beat… Fiz num, fiz noutro, e depois fui ter com o Boémio e fizemos o som. A letra ficou igual, só que os outros beats não estavam a passar a cena que queria, como queria. Não queria que fosse um som tão dark, porque a letra é um bocado pesada, mas ao mesmo tempo ser um pouco brincalhão, ser mais feliz, se ouvires este beat tem algo mais para cima, com energia.
Acaba por ser um álbum com o fechar de muitos ciclos, parece-me.
Estou a fechar portas para abrir outras. No Cicatrizes estou só a falar de problemas, fechei aqui esta fase. ‘Bora começar a vida nova, moral para cima e acreditar que tudo é possível. Agora focado — a cena é essa, focado.