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Fotografia: Direitos Reservados

Fomos falar com os dois mentores da oficina artística para perceber o passado, presente e futuro do projecto.

No meio de uma pandemia, a OPA reinventou-se e encontrou uma forma de se superar

Fotografia: Direitos Reservados

“Fui eu que estimulei o aparecimento deste formato este ano. A ideia era provavelmente nem fazer nada”, confessou-nos, ao telemóvel, Carlos Martins, músico de créditos firmados no campo do jazz e um dos grandes mentores (a par de Francisco Rebelo) da Oficina Portátil de Artes, um projecto que nasce da sua associação Sons da Lusofonia. Quando, em Março, o COVID-19 chegou a Portugal, os alarmes começaram a soar e não demorou muito até que se percebesse que a música ao vivo seria das principais prejudicadas. A OPA, empreitada formativa na área musical que vive desse encontro cara a cara, viu-se, tal como tantas outras iniciativas, com um problema em mãos para a edição deste ano, que foi resolvido através dos dois cérebros que fizeram tudo acontecer desde o início.

“De repente, eu entrei outra vez na onda do Francisco, que já estava a pensar em qualquer coisa, mas não tinha uma ideia do que é que poderia fazer dentro destes termos. E nós tivemos logo uma ideia mais avançada: fazer uma espécie de escola informal online para depois continuar este trabalho com mais jovens e com outras pessoas, de maneira a garantir que estas pessoas no fundo não ficavam paradas. Uma das coisas que me estimulou automaticamente a fazer a OPA [em 2020] foi pensar que não era possível ficar quieto numa altura em que os jovens artistas iam ficar nos seus bairros em lockdown, ficando ainda mais isolados do mundo”, explicou-nos Carlos, que reforçou o “trabalho fabuloso” do baixista dos Orelha Negra e Cais Sodré Funk Connection, responsável por atar as pontas entre estúdios (andaram pelo Namouche, pela Lisbon Sound Society e pela World Academy), formadores e alunos.

Se o palco era o objectivo final nos últimos anos, tudo mudou para esta edição: o cruzamento do presencial com o online foi obrigatório e trouxe mais benesses do que desvantagens. Aos workshops frente a frente com Sam The Kid, Fumaxa e Fred Stone, juntaram-se as entrevistas e debates conduzidos por Francisco Rebelo com nomes como Tomás Martins, DJ Kwan ou Ana Moitinho e Helena Pedro da Radar dos Sons, que podem encontrar no YouTube, uma “estrutura pedagógica” que armasse os formandos com algumas das ferramentas importantes para se ser um artista hoje em dia.



Das 64 inscrições — nunca tinham existido tantas participações –, ficaram 12 projectos. Francisco Rebelo, o director artístico, abriu o jogo sobre os escolhidos:

“Temos aqui alguma diversidade. Diria que 85% são projectos de hip hop, há outras coisas mais soulful, não tão vincadamente rap, mas temos projectos muito interessantes, algumas coisas já bem maduras, que precisam só de um empurrãozinho para se fazerem à vida, outros têm projectos interessantes, mas são muito novos, começaram a cantar ou a escrever há um ano. Soul, r&b, kizomba, rap crioulo, rap mais pesado… Na altura íamos só escolher oito, mas depois achámos que havia umas coisas que eram muito fixes [e fomos até aos 12]. Estou muito contente com todas as pessoas que estão neste lote, mas cada um tem as suas necessidades. Há um projecto, o Noiatt, que já é muito maduro. Produz tudo, escreve tudo, é uma pessoa que já tinha tocado em bandas punk quando era mais puto, portanto tem uma noção melhor do que é essa cena e já tem o projecto muito maduro. Não tive muita coisa para lhe dizer porque ele é muito consciente das coisas que tem de corrigir e melhorar e tem trabalhado arduamente e tenho a certeza que vai ter uma cena muito fixe. Depois há outros menos experientes, uns que nunca tocaram ao vivo, outros que nunca tinham estado em estúdio e, portanto, quando entram, com as condições que temos na World Academy, ficam sempre nervosos, mas tudo isso faz parte do processo. 

Não tenho qualquer intervenção estética no sentido de mudarem, muitas vezes o que faço é [falar sobre a] dicção, que tem de melhorar, a técnica que tens que usar para aguentar cinco ou seis músicas seguidas. Estamos numa geração de YouTube. Para muitos destes artistas, o objectivo principal é ter uma música no YouTube, é um bocadinho diferente do que acontecia comigo no meu tempo. Quando eu era puto, o meu objectivo era dar concertos. Portanto, quando começavas a tua cena, a tua preparação era pensada no sentido do espectáculo. Nesta geração não é pensada assim. As pessoas pensam naquela música, se calhar trabalham durante um tempo naquilo, depois aquilo entra para o YouTube e o processo terminou. 

O projecto na OPA é direccionar as pessoas para pensarem numa carreira. E uma carreira artística tem que ser pensada não só no YouTube, mas também em concertos. Daí também a necessidade de lhes explicar como é que se entra num espectáculo e porque é que é importante a partir de certa altura profissionalizar a equipa de trabalho e perceber que estruturas são necessárias para se desenvolverem no mundo da música.”

Os produtores de quarto acabaram por também ganhar um espaço novo nesta edição:

“Muitas vezes concorrem produtores, mas depois eles não têm como mostrar a sua música ao vivo. Propus o desafio a quem produz, que normalmente está a trabalhar no seu quarto, de fazer um live act com os seus instrumentais. Pô-los a tocar ao vivo com computador, controladores MIDI, convidarem músicos para colaborarem com eles, que eu acho que é uma forma boa de partilhar a música e acho que traz um income interessante para quem está sempre enfiado no quarto a produzir. Este ano, na OPA, também tive alguns directos com o Sam The Kid, o Estraca e o Fumaxa e todos eles falaram num aspecto muito importante que acho que uma boa parte da nova geração se calhar não está atenta a isso, que é não estar só fechado na sua cena a fazer as coisas completamente sozinhos. A necessidade de partilhar a música com outras pessoas, mesmo no momento da concepção, é uma grande mais-valia para a produção final. Incorporar outras pessoas, estarem juntos a fazerem coisas, e portanto este meu desafio para os produtores fazerem live acts com o seu reportório só lhes faz bem. E vai fazer um upgrade nas futuras produções musicais que fizerem. Para alguns isto está a ser um desafio muito difícil. Muitos nunca se imaginaram estar num palco, mas a vida é feita de desafios.”

Longe vão os tempos em que a OPA serviu de complemento para o lançamento do último álbum dos Cool Hipnoise, em 2006. Foi nessa banda que Carlos encontrou o parceiro ideal para uma relação longa: “Trabalhava já há muitos anos com projectos pedagógicos dentro desta estrutura de imaginar que seria possível ter os bairros a funcionar e ter, no fundo, relação de proximidade e de rede entre bairros — achava sempre que havia uma grande distância entre eles. Na altura, dentro daquela linha de hip hop, soul, reggae e tal, os Cool Hipnoise é que eram o grupo que podia dar mais informação em termos práticos àquilo que é uma relação de proximidade entre todas aquelas músicas que os putos ouviam nos bairros. Foi natural chamá-los e depois o Francisco revelou-se como um super produtor, super à-vontade a falar com os miúdos, com uma capacidade enorme de juntar várias valências, principalmente três lados, o pedagógico, o produtor e o músico. Como aquilo correu tão bem naquele ano, obviamente que decidimos continuar”.



Rebelo, pelo seu lado, relembrou exactamente como funcionava, ainda de uma forma incipiente, aquilo que foi a génese da OPA: “Fazíamos um projecto de formação em que mostrávamos como é que se montava um espectáculo. No fundo era uma ideia para mobilizar as pessoas a produzirem localmente os seus próprios eventos”.

E acrescentou sobre a versão mais recente da oficina artística: “Este formato começou a ganhar mais vida quando, de certa forma, a OPA começou a ficar mais ligada ao festival Lisboa Mistura. Em 2011/2012, quando começámos a trabalhar na Alta de Lisboa, já com um método um bocado diferente [dos primeiros anos]. A associação não tinha, e não tem ainda, uma sede onde possa ter uma estrutura para fazer isto. Acabámos por encontrar na Alta de Lisboa uma associação de residentes, que é a ARAL, e fizemos a proposta de um projecto formativo nos moldes mais ou menos em que estão hoje. Fizemos uma audição num espaço da associação, que era num prédio que ainda estava meio em obras, e, basicamente, todos aqueles que apareceram lá entraram. O que eu queria mesmo era ouvir as pessoas. E abrimos as portas a toda a gente porque queríamos implantar-nos no terreno.”

Quando se mudou para a Restart, houve mais um upgrade, contou o membro dos Orelha Negra: “Comecei a poder fazer trabalho de estúdio profissional e ensaios em palcos com as condições normais”.

Este ano, a reestruturação levou a um foco maior nas redes sociais e nas plataformas digitais. Para o futuro, e se a pandemia assim o permitir, a ideia é misturar a aprendizagem desta edição com a bagagem do passado. “Há uma coisa que já não volta atrás: tudo o que se aprendeu com esta questão do live streaming fica e ficará para sempre porque é essencial. Se tu podes ter duas mil pessoas a ver um concerto ao vivo e depois podes ter mais três mil online, porque é que vais ter só duas mil, se podes ter cinco mil? Portanto, essa questão vai começar a fazer parte da nossa rotina de concepção de eventos. É preciso é não entrar numa febre em que todas as artes perfomativas são feitas à distância”, rematou Carlos Martins.

Para já, os olhos estão postos no que se vai passar este fim-de-semana. A formação chegou ao fim e as actuações finais vão ter lugar este sábado (com deadflyingthings, SKB Angola, F40, Zeka, Noledge e Krayy) e domingo (com Tender Grasp, Kra Z Mic, Sking G & Leo-OFG, Adilan, Chakuth e Noiatt). May e DJ Kope são os hosts do evento que terá transmissão no Instagram da OPA.


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