Nivhek na Igreja de St. George: o peso emocional da melancolia

[TEXTO] Francisco Couto [FOTOS] Vera Marmelo

Há vários factores que sobressaem quando se decide ocupar um espaço religioso como uma igreja para performances musicais e que dificilmente não acabariam a pairar nas cabeças das pessoas que se deslocaram à Igreja Anglicana de St. George, em Lisboa, numa terça feira à noite para assistir ao concerto (programado pela Galeria Zé dos Bois) de Nivhek. Para além da acústica do espaço, que por si só acrescenta um corpo sonoro à música, há toda a simbologia religiosa que é igualmente transportada para o concerto. Os sons chegam-nos aos ouvidos com uma componente sagrada, digamos assim, e o espectáculo ganha uma dinâmica mestre-aprendiz, durante o qual o público, sentado em desconfortáveis bancos de madeira, escuta com atenção a homilia que a artista preparou para nós, na esperança de se sair de lá diferente, transformado. A mensagem, apesar de não estar tão focada na palavra, mas sim na transmissão de emoções e sensações via som, é debitada alto e em bom som, percorrendo as paredes adornadas com signos cristãos até chegar a nós, que a recebemos de braços abertos enquanto penetra pelo nosso corpo e o deixa num turbilhão.

Estas parecem ser as circunstâncias perfeitas para se ouvir a música de Liz Harris. A artista, mais conhecida como Grouper pela sua legião de fãs, deslocou-se a Lisboa para apresentar o seu mais recente trabalho After its own death / Walking in a spiral towards the house, lançado sob o pseudónimo Nivhek, construído durante uma residência artística que fizera no Árctico, mais concretamente em Murmansk, na Rússia.

As luzes da igreja apagam-se, deixando-nos apenas com os tons azuis provenientes de dois holofotes apontados aos instrumentos, à frente do altar. A artista entra e, no momento em que ouvimos a sua voz pela primeira vez, sentimos fisicamente um som transcendental que nos trespassa e nos leva para um lugar mental mais meditativo e, ao mesmo tempo, contemplativo. A partir daí, acompanhada apenas por um vídeo que capta a superfície do mar vista por baixo e que é projectado no tecto por detrás da artista, criando a sensação de estarmos submersos num oceano calmo e melancólico, entramos numa viagem que salta entre vários sons, entre os quais guitarras, xilofones, mellotrons, todos eles provenientes de uma máquina de loops, à excepção da sua voz e de um piano. A rodear esses sons, ouvem-se frequentemente field recordings feitos pela artista, com sons do vento, do mar, de passos na floresta ou de conversas distorcidas, recortadas e recicladas.

Uma das maiores qualidades de Liz Harris é a sua transparência emocional, algo que nos permite entrar facilmente dentro do seu universo através das suas músicas. Durante o concerto, conseguimos entender o que vai dentro da artista, um peso desconcertante que é traduzido na melancolia sonora, seja pelas lentas progressões de timbres soturnos, seja pelos drones violentos e abrasivos que por vezes surgem para nos re-acordar. No meio de tantas dinâmicas, de contrastes entre paredes sonoras e volumes quase inaudíveis, o fim foi marcado pelo corte repentino no som e pela saída de rompante da artista, deixando-nos na incerteza de ter sido propositado ou se, num momento de frustração na síntese de som, o stress a pode ter levado a dar o concerto por terminado, o que não impediu o público de aplaudir intensamente a performance. O espaço, ao contrário do expectável, acabou por ter pouco impacto na performance, não se fazendo sentir a reverberação natural da igreja nas peças apresentadas, exceptuando nos momentos em que o piano era o foco principal.

O único defeito, à falta de melhor termo, foi o volume, por vezes excessivamente baixo para se conseguir entrar no estado de transe desejado. No entanto, alguns momentos sublimes certamente elevaram esta experiência conduzida por uma excelente artista que nos toca a todos com as suas obras.


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