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Nick Murphy: nem Chet, nem Faker

[TEXTO] Vera Brito [FOTO] Direitos Reservados

Nick Murphy é um músico em busca de si próprio. O australiano surpreendeu todos quando, no final do ano passado, anunciou que iria deixar cair o nome artístico Chet Faker e assumir-se tal como assina no bilhete de identidade. Esta mudança devia-se a uma evolução, explicou-nos então, e percebia-se que, mais do que um simples virar de página, o projecto Chet Faker era capítulo encerrado. Uma atitude arrojada e arriscada para alguém que, em menos de meia década, viu a sua música ser catapultada da garagem de casa para os grandes palcos do mundo.

Com apenas um álbum e EP editados, Built on Glass de 2014 e Thinking in Textures de 2012, o expectável seria o segundo disco – essa dura prova para qualquer músico a quem o sucesso atinge em cheio no álbum de estreia. Mas Nick Murphy parece querer agora correr um risco ainda maior, quer representar-se numa nova direcção musical, que se adivinha mais electrónica e menos soul, e isso não parece assustá-lo: “Se eu perder tudo o que construí, porque me agarrei ao sentimento original que me trouxe até aqui, então não cometi erro nenhum, é porque simplesmente tinha de acontecer assim”, confessou em entrevista a Zane Lowe para a Beats 1.

 



Enquanto Chet Faker tudo aconteceu demasiado rápido para o australiano. O salto deu-se com a cover, quase acidental, de “No Diggity” dos nova-iorquinos Blackstreet, que carregou de soul com a sua voz de mel e aquela forma muito própria de cantar, que roça a indolência e que divide opiniões quando se discutem as suas capacidades vocais. Há quem o acuse de não ser grande cantor, há quem defenda fervorosamente que são essas irregularidades que o distinguem de tudo o resto. O próprio tem, aliás, consciência dos limites da sua voz e já explicou, por diversas vezes, que o nome Chet Faker foi escolhido não apenas por ser fã de Chet Baker, mas sobretudo pela ideia que o trompetista representava para si enquanto cantor – de que nem sempre é preciso um nível técnico perfeito para se fazer boa música, as falhas podem até torná-la mais poderosa.

Thinking in Textures e Built on Glass foram compostos e produzidos por completo por Chet Faker, em ambientes familiares, longe dos estúdios equipados, facto que impressiona sabendo que só aos 15 anos começou a interessar-se por música, aprendendo então a tocar piano e guitarra. Esta característica DIY dos seus trabalhos terá também muito a ver com a realidade musical da Austrália, um país vasto, onde as complicadas logísticas e os escassos apoios culturais ainda dificultam a vida a quem almeja uma carreira artística.

 



Consta que da mãe herdou o gosto pela soul, com os seus discos da Motown, e do pai o apreço pela electrónica. Este cruzamento traduziu-se numa sonoridade ambígua, mas em perfeito equilíbrio – a sua música não é nem o suficientemente descontraída para nos fazer recostar numa cadeira lounge, nem tem batidas pulsantes que cheguem para nos arrastar à pista de dança. Mas parece-nos agora que neste delicado ying yang, o lado electrónico vai levar a melhor sobre o crooner.

As primeiras pistas foram dadas em “Fear Less” e “Stop Me (Stop You)”, singles apresentados há meses atrás. Em ambos percebe-se que as batidas imperam, deixando a voz para segundo plano que, quando aparece, vem carregada de mensagens subliminares: “somehow you know / that something’s gotta go / you were scared to be yourself / for no reason”. Mordemos o isco e a curiosidade em saber o que este renovado Nick Murphy tem para nos mostrar aguça-se. As parceiras com Flume e Marcus Marr, com quem editou, respectivamente, os EPs Lockjaw e Work, bem como as colaborações mais esporádicas ao lado de Bonobo e Kaytranada eram também indicadores de que os interesses de Nick Murphy começavam a desviar-se para as pistas de dança.

 



Em Maio, chegava, finalmente, Missing Link, o primeiro trabalho assinado em nome próprio. Esgotado pelas intensas digressões que realizou sob o projecto Chet Faker e pela máquina absorvente da indústria musical, Nick Murphy acabaria por se instalar em Brooklyn, trocando a cidade natal de Melbourne pela vibrante Nova Iorque. Confessou em várias entrevistas que esta mudança de cenário foi vital para a sua redescoberta musical. Missing Link é o seu primeiro registo num estúdio real e contou com a ajuda de Dave Harrington na produção, mais conhecido pelo projecto Darkside, que divide a meias com Nicolas Jaar.

Este EP de 5 faixas, em que encontramos uma nova versão para “Your Time” que já tinha aparecido na mixtape 0.001% de Kaytranada, ainda revela pouco daquilo que poderão vir a ser os próximos discos de Nick Murphy. Funciona para já como uma espécie de ponte entre o passado e o futuro, isto para que quem chegou ao australiano através de Chet Faker não se sinta agora perdido no original. Curioso será também perceber as novas dinâmicas em palco, que por cá teremos a oportunidade de ver em breve no Vodafone Paredes de Coura, e as setlists recentes dizem-nos que dificilmente iremos ouvir as baladas do músico. Não sabemos que futuro Nick Murphy nos irá mostrar, mas sabemos isto – só quem ousa sair dos limites do confortável é capaz de descobrir e dar o melhor de si.

 


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