NERVE no Sabotage: Hieronymus

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Beatriz Dias

Uma das características que melhor definirá NERVE – a par da sua indiscutível capacidade de executar os mais surpreendentes números de malabarismo com a língua portuguesa – é, sem qualquer dúvida, a legião de devotos que arrasta consigo. Não se tratam de simples simpatizantes ou meros seguidores ocasionais mas sim de fiéis peregrinos em busca da manifestação física de uma das mais interessantes divindades do hip hop português. E chega a ser arrepiante a forma como declaram a sua afeição. Em “Chibo”, a última canção que Tiago Gonçalves trouxe a palco no concerto da passada sexta-feira num Sabotage a rebentar pelas costuras, foram poucos aqueles que não acompanharam a letra de fio a pavio, colocando ênfase nas terminações das rimas e sublinhando algumas palavras-chave. No final, uma monumental ovação não só pelo tema escolhido para o remate mas também pelo desempenho irrepreensível na totalidade do concerto.

O arranque da noite faz-se ao som de “Queimar Pontes”. Secundado por Il-Brutto, produtor que momentos antes havia garantido o warm-up com um vigoroso desfile de instrumentais, NERVE entra em cena com o apetite de um peixe carnívoro nas profundezas de um negro e sinistro mar. A voz salta cristalina dos altifalantes erguidos por cima de si e aterra no coração de uma plateia seriamente comprometida com o momento que está a viver. Não há conversas paralelas e muito menos smartphones em riste, apenas uma vontade de absorver cada palavra como quem procura uma derradeira lufada de ar para sobreviver. Numa recente entrevista para a BLITZ, Adolfo Luxúria Canibal afirmou que “tocar em Lisboa é das coisas mais horríveis do mundo”, pelo facto do público olhar para tais acontecimentos como se fossem encontros sociais. Não tirando obviamente a razão ao líder dos Mão Morta, é caso para dizer que esta é uma excepção à regra.

“Deserto”, primeira incursão a AUTO-SABOTAGEM, é uma das mais celebradas e coloca em evidência o cuidado que NERVE tem de garantir que a sua voz atravesse um filtro de frequências para que se assemelhe à versão original da canção, onde imperam várias camadas, apontamentos e colorações tímbricas. Segue-se “Monstro Social”, também ela bem acarinhada pelos presentes, retirada daquele que é, possivelmente, o melhor episódio discográfico de NERVE, Trabalho & Conhaque ou A Vida Não Presta e Ninguém Merece a Tua Confiança, tornado público em 2015. O vigor com que entrega a canção é digno de destaque e obriga a uma curta paragem para recuperar o fôlego. “Temos que fazer umas pausas entre faixas, senão um homem ainda morre para aí”, partilha ao microfone.

A complexidade das letras de NERVE é tamanha que leva a que estas possam ser alvo de diferentes interpretações na chegada ao receptor. Tal particularidade ganha ainda mais destaque quando a escuta se faz em contexto ao vivo, momento em que as palavras são entregues com diferentes entoações e os versos alcançam um sentido que até então era desconhecido, camuflado ou observado de outro ângulo. É por isso natural ver algumas destas pessoas a elevar a sensibilidade dos tímpanos ao quadrado, enquanto, do lado de lá, de olhos esbugalhados e a estrangular o microfone, NERVE vai viajando pela trama de temas como “Funeral”, “Conhaque”, “Água do Bongo” (imediatamente reconhecida pelos presentes no primeiro acorde), “Parte de Mim” e “Subtítulo”, a canção da magnífica entrada “eu sou e tenho um mau génio/ não sei reger o meu ódio. O José rege-o”.

Há ainda tempo para convidar Tilt para interpretarem “Eliminação”, remistura do clássico “Meditação Profunda” de Fuse, pertencente a Informação ao Núcleo (soube-se no final que NERVE, Tilt e Il-Brutto estão a preparar material com a chancela Escalpe) e para revisitar a participação em Bairro da Ponte, de Stereossauro, com “Ingrato”, bem como a colaboração em “Umbilical”, de Colónia Calúnia. A grande prova de fogo viria, todavia, com a entrega de “Tríptico”, o recentemente editado tema em que divide esforços com o produtor Il-Brutto. Nesta que é uma verdadeira maratona de rima e batida, onde os dois músicos colocam sobre a mesa as suas valências, seria normal e até compreensível ver NERVE a falhar com a métrica ou até a mastigar as palavras para garantir o fôlego necessário para a recta seguinte. Porém, diga-se de justiça, não podia ter sido mais bem-sucedido na missão, alternando entre as três telas de fundo negro com a agilidade e o brilhantismo de um douto e experiente pintor. Um tríptico perfeito. Nem Bosch faria melhor.


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