NERVE sobre Auto-Sabotagem: “É seguro dizer que o negrume se mantém, embora numa onda mais colérica e menos depressiva”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Sebastião Santana [ARTWORK] Tiago “NERVE” Gonçalves

Neste momento, NERVE está a limar as últimas arestas de Auto-Sabotagem, o seu próximo EP. O autor de ‘Trabalho & Conhaque’ ou ‘A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança’ revelou o alinhamento completo do projecto na passada quarta-feira.

Estamos perante o projecto mais individualista da discografia de NERVE. Letras, voz, instrumentais, gravação, mistura, ilustração e design — (quase) tudo leva a assinatura de Tiago Gonçalves, que apenas recorreu a ajuda exterior para o processo de masterização dos temas, com Dwarf encarregue dessa tarefa. Também Mestre André a.k.a. Notwan deixou a sua impressão digital no EP enquanto saxofonista, tendo participado em quatro dos seis temas, ele que tem vindo a colaborar de perto com NERVE desde ENPTO.

“DESERTO” será a faixa de abertura em Auto-Sabotagem, o único tema que já conhecemos deste projecto mas que surge numa versão actualizada — esta é uma das músicas nas quais Notwan participa com um saxofone tenor.

 


NERVE - CAPA - back


Fala-me do conceito deste teu próximo EP. O que é isto de te auto-sabotares?

Auto-Sabotagem pelo estilo de vida, pelo discurso que morde a mão que me alimenta, pela dedicação obsessiva a uma actividade em vários aspectos ingrata, pela exposição de sentimentos por vezes arriscada, mas, acima de tudo, e independentemente de quaisquer devaneios inflamados contra o que for, auto-sabotagem por saber que no fim do dia a culpa é minha e o mal principal não vem de fora.

Este vai ser o teu projecto mais pessoal até à data — escreveste, produziste, ilustraste, gravaste… Já não houve aquele processo de procurar um beat nos arquivos de um produtor que casasse na perfeição com uma letra. Contas apenas com uma breve ajuda do Notwan e do Dwarf. Como foi desenvolver este processo de forma tão solitária?

Verdade. Sempre produzi para os meus projectos, mas este é o primeiro integralmente produzido por mim. Já o queria fazer há algum tempo, se calhar não já, mas como quase tudo na minha “carreira”, simplesmente aconteceu a coisa dar-se dessa forma e nesse momento, meio por necessidade meio por teimosia. E ainda bem, porque estou orgulhoso da coisa. Numa fase final, convidei o Notwan para tocar saxofone em algumas faixas, por ouvir o trabalho que ele andava a fazer com Älforjs, o que acabou por resultar num input brutal para o EP. Fiquei mesmo contente com os arranjos de saxofone, foi uma experiência porreira trabalhar com ele de uma forma diferente e ter encontrado assim uma forma de, embora não na produção, tê-lo presente neste projecto. O Dwarf já tinha masterizado a primeira versão da “DESERTO” (que tem novos arranjos de saxofone na versão do EP) e achei que era o tipo ideal para a masterização. Considerando a minha modesta mistura, ele fez magia com a coisa. É o maior.

Foi fulcral para atingires a sonoridade e as temáticas que abordas no Auto-Sabotagem?

Foi fulcral para melhorar a minha produção, acima de tudo, que é missão que tenciono continuar a levar a cabo. Como se calhar se adivinha, acho que em termos de sonoridade será o meu projecto mais coeso até agora e, no que toca à escrita, acho que é seguro dizer que o negrume se mantém, embora numa onda mais colérica e menos depressiva.

Já temos o “DESERTO” na ponta das nossas línguas e há uns tempos falaste-me de um possível videoclipe. Que mais nos podes revelar acerca do trabalho? Já definiste uma data para o editar?

Existe uma data mental e atrás dessa data existe um tipo sozinho que anda a mil feito doido a ultimar detalhes para que isto veja a luz do dia. Está quase.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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