NEOPOP’19 – Dia 2: Sensible Soccers foram vítimas da nortada, Amelie Lens afastou-a

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Direitos Reservados

Nevoeiro no monte, sol surdo-mudo, nortada próxima. O cinzento e fresco passeio à beira-rio — e à beira do grande edifício junto a nós, parte-minimalista com a matiz branca e o vidro, parte-brutalista com a víscera exposta dos tubos no telhado — já vem ser a convalescença da belíssima estafa que será a noite de logo. Vamos à casa de pasto e depois ao porto, atravessamos as ruas adornadas com Corações de Viana metálicos — a Agonia aproxima-se —, entreouvimos conversas: é engraçado como Viana é tão Viana quanto o deve ter sido há uma semana, ou há vinte anos.

Um dos chavões de qualquer festival tem que ver com o seu impacto no local escolhido como pano de fundo: a experiência dentro do recinto tem de se estender às artérias principais da cidade; as melhores intenções multiplicam-se, como necessidade, em palcos fora do epicentro; logótipos e cores passam a pintar a vista, néon sobre a natureza como ouro sobre azul. O NEOPOP parece ser uma excepção.

Em dias de festival, Viana do Castelo conserva-se tão despretensiosa e inalterada que há que pensar isto da “capital do techno” — o título pelo qual o festival pugnou. Não há revoltas dos populares, não há espalhafato dos visitantes e devotos da música. Tirando a sinalização esporádica, uma pulseira ou uma camisola mais indiscreta a passear pelas ruas, e a faixa de boas-vindas à entrada da cidade minhota, o techno não é uma bandeira. É, antes, uma substância alquímica; uma pedra preciosa, reservada para o Forte de Santiago da Barra. Há naturalidade no deixar acontecer.

E há momentos em que o diálogo com Viana é dolorosamente real, como quando soam as 21 horas — convertendo isto para o fuso horário do NEOPOP, o nascer do sol — e um aguaceiro dilacerante se decide adiantar aos Sensible Soccers. Sem surpresa, algumas dezenas comparecem; André Simão fuma o seu cigarrinho e Sérgio Freitas acena modestamente. Os noctívagos estarão ainda por acordar, os corajosos que avançam sobre o recinto sentam-se, na sua maioria; para provar o misto aural de Aurora, último álbum dos nortenhos, somos dezenas ainda em reposição de forças; dificilmente haverá arrependidos, a não ser aqueles que fazem gazeta em casa. Essa ponte com a realidade lá fora não aguenta durante muito tempo.

Nas pupilas dos espectadores, casais e singulares presos pelo som, adivinha-se outra abstracção, outra viagem até um território cuja posse o NEOPOP ainda não assume: uma electrónica evanescente, mais fácil de retirar de caixas (o techno não é consentâneo com este microcosmos, mas é-lhe adjacente em pontos) do que catalogar. Ainda mais fácil é ficar enleado na rede de percussão hipersensível e sintetizadores suspensos que pontifica a marca dos Sensible Soccers. “Villa Soledade” culmina com uma explosão de palmas pela banda, mas Aurora é o tutano, consumado no murro duplo, e triunfo irreprimível, de “Elias Katana” e “Chavitas”.



Das pupilas dilatadas para Sensible Soccers — a chuva brusca vinga-os, no que gostamos de pensar como uma birra pela dignidade — para o olho iluminado que é o palco ANTI, horas mais tarde. No ar, os préstimos de Interstellar Funk, cujo nome de relance parece um estilo intruso a abater, traduzem uma das sonoridades mais interessantes deste segundo dia. O seu techno é apologético e mestiço, de descargas ácidas com parcimónia, de inflexões espaciais. O membro da família Dekmantel precisa de se dedicar mais à gestão do tempo e das expectativas, dado ser ainda fraco a orçamentar: pelo menos duas vezes, estagna na mesma cadência e intervém tarde, mas com uma habilidade estonteante, e a simplicidade da nova informação, como introduzir um maroto breakbeat. Funk? Só se for biónico.

Seguindo a estratégia de rodízio, damos breves passos até ao palco NEO, que se enche tempestivamente de fumo — a primeira ilusão de nascer aqui uma pista de dança descomunal, esperança inutilizada pela disposição clássica de festival. As pessoas dispõem-se como num festival, mas contemplam o techno em vez de o querer devorar de uma só vez — e o contemplado é o DJ Nicolas Lutz, que serve um propósito similar ao de John Digweed na noite anterior. Transfere sons do líquido para o sólido, numa fusão instável, ácida, que o encosta ao lado mais purista do techno, mas nos poupa às delícias experimentais que ainda virão nesta noite.

Tal como em Lutz, o concerto de Ivan Smagghe é uma transparência daquilo que é provocado e permitido pela duração alargada dos concertos. Os ouvintes desaparecem e ressurgem, pois obviamente que saltitar de lugar em lugar evita a monotonia, e não resulta em perder muita da ação — que, por implacável que seja, não evolui a velocidade supersónica. Não deixa de se notar uma tendência para se ser indulgente em vez de primar pelo sentido de oportunidade. Tudo isto e Smagghe ainda serve outra proposição excelente, que começa por encantar: o francês, um dos primeiros actos a tentar uns passos de dança, continua a viagem de Interstellar Funk por estradas mais obscuras, house evasivo e persistente, que no final evolui para algo mais lúcido, estranhamente seráfico. Infelizmente, sofre duas desvantagens: estar no palco ANTI, tratado pelos espectadores como um apeadeiro, e fazê-lo à hora em que, do outro lado, uma cabeça-de-cartaz aterra.



Uma da matina quando Amelie Lens provoca um êxodo geral para o palco NEO, fazendo minguar radicalmente a audiência de Smagghe. Se este é o efeito que Lens tem em todos os festivais a que comparece pela Europa e arredores, é uma aposta segura chamá-la um dos fenómenos mais magnetizantes na electrónica contemporânea. Ainda os bombos não ressoam e já os telemóveis em riste anunciam uma vigília; ainda só a sua figura apareceu em palco e já os gritos são ensurdecedores.

Seguem-se duas horas de techno belga de alto impacto, o mais forte betão até agora fornecido para se construir uma parede sónica; sem quebra, para levar articulações e músculos ao limite. Um hino contundente de techno, exposto a rigor e com toda a força, antes de vir… outro hino contundente de techno (o seu último EP, Hypnotized, de título demasiado na mouche, é destaque). A fórmula de Lens é talvez a mais conspícua ao longo deste segundo dia de NEOPOP, e as pobres transições que usa instigam o cansaço e erodem a qualidade do seu material — a produtora, entre outros recrutados, eventualmente terá que perceber que a monotonia também se faz com bangers.


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