NEOPOP’19 – Dia 1: a manter o techno em segurança

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTOS] Direitos Reservados

Quando a cidade já se parece ter precipitado por inteiro, dando espaço para a maresia e o vinho, a chuva faz sempre nova investida. Empacotada numa rajada de vento, suplemento às frequências despóticas que se abatem sobre a multidão; talvez seja este o mosaico dominante de que seremos parte na edição de 2019 do prestigiado NEOPOP. Quatro dias de baile em aceleração crescente, que alocam boa parte do Alto Minho ao culto da electrónica hardcore e pertinaz 4/4. Viana do Castelo pode ser a capital do techno — é essa a impressão que se vive, num vértice que se delibera não limar, vanguardista e expansivo. Mas há uma dimensão de maior respeito. Uma capital que se duplica em santuário.

Se pensam que o slogan “Keeping Techno Safe” é uma oca promessa de zelo, desenganem-se: o NEOPOP não brinca em serviço. A marcha é lenta nas várias filas — os visitantes mais casuais propelem a cabeça e entretêm-se em conversa fiada; “as senhoras vão para a segunda fila”, insistem os oficiais. Minuto atrás de minuto, chegados à primeira inspecção, vai-se ao cerne da questão, pensamos nós — tão duvidosa é uma bateria portátil como um batom do cieiro; bolsos esvaziados; tudo revisto e aprovado. Mas é o segundo exame que vai tocar precisamente no cerne e em tudo mais que seja tangível, e mais não precisamos de dizer.

Essa é a base, a casa de partida, um princípio lógico; uma forma de estabelecer inequivocamente o que aqui se entende, ou, melhor, todos entendem por segurança. Como se mantém o techno seguro? Isso está, além da intolerância face a práticas perigosas, na delineação da plataforma que o NEOPOP concede ao seu estilo matriz. O critério — é claro de se ver — ostraciza os números, em favor do espaço para dançar, concede mobilidade em vez de saturar o espaço com patrocínios espampanantes e outra efeméride descartável. Uma capital desprovida da poluição e da sobrelotação…

Ponto em questão: o palco ANTI, onde a noite é de portugueses e o volume de cabeças é exíguo. (Certo é que influem vários factores: estamos no primeiro dia, que calha ser a uma quarta-feira, e o grande acto de abertura começa a qualquer momento.) Movem-se algumas dezenas, dispersas entre uma parede de tijolos e a sua oposta de contentores vermelhos e azuis, para ouvir o programador e DJ Tiago Fragateiro, a quem o jogo opressor de luzes só deixa ver uma camisa de alças e uma barba. Em algum momento se sente ter de preencher os intervalos na plateia para elevar a comunhão já a fervilhar. Dançarinos introvertidos e grupos de alimentação mútua, extravagante reagem com tempo às frequências intravenosas de techno duro que importa de Fixeer e as bolhas de oxigénio que forma com o que parece ser Wrong Assessment. De alto a baixo na sala, as coreografias são demasiadas para recordar, um bonito quadro reproduzido um par de horas depois na ziguezagueante actuação de Frank Maurel — que preserva o despotismo rítmico, mas ziguezagueia por uma onda menos celebrativa.

O polar oposto desse fechamento é condição definida pelo imperioso arranque que o NEOPOP tem com Underworld. Passando à frente o discurso nostálgico que poderá convir para falar da parelha galesa, é mais vital perceber o estado de espírito de Karl Hyde e Rick Smith na digressão que os traz a Viana do Castelo. “Queres que todos os dias sejam um desafio, especialmente quando se trata de fazer música”: a vontade foi de fugir ao rotineiro ciclo do álbum seguido de tournée — qualquer roteiro do tipo é, por si só, um sinónimo de dormência, desconforto, pouco dormir —, pelo que se investiram em gravações intensivas, conducentes a um álbum de índole diferente intitulado Drift. O reportório que trazem é, contas feitas, um exercício de revisitação, mas deverá servir de conforto saber que há motivação e fogo que transcendem o fácil agrado (e dinheiro). Liguem-se as luzes, com os remoinhos de cinco pequenos holofotes, deixem-nos pontilhar a acção.

Viajando por “Two Months Off” com a sua avalanche de sintetizadores em ponto de rebuçado, o público mostra ser mais Lux ao despontar da noite do que Berghain. Tende a não estacionar, procura a sua mobilidade. Desvelando-se em coreografias estranhas, em semelhança à plateia, Karl Hyde opera em êxtase, e faz o público reagir de formas diferentes, em momentos diferentes: mais em “King of Snake”, bizarro cruzamento entre a bassline de “I Feel Love” em tripla velocidade (a dupla Giorgio Moroder e Donna Summer será sempre daquelas dádivas inexplicáveis) e a melodia de “Cotton Eyed Joe”; menos na mais hermética e obscura “Dark Train”. Ameaças de purismo são rapidamente dissolvidas com o celestial banho-maria de “Rez” e a martelagem divina de “Cowgirl”, que se intensifica até parecermos estar numa luta do Tekken 5, ou a cáustica e inesperada “Border Country”. Underworld são uma excelente enciclopédia de sabores no mundo do techno, eles que foram agentes de proa na sua inovação; são, certamente, mais do que apenas “Born Slippy .NUXX”, mas que consolida a longa vitória que têm simbolizado. Tinha de ser o grande final. A torrente de teclados e os gritos terminantes de Hyde transformam clamores de braços abertos em abraços ternos.


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