Nave Mãe: “Acho que o Porto, em termos musicais, sempre foi bastante vanguardista”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [VÍDEO/FOTOS] Sebastião Santana [EDIÇÃO ÁUDIO] Tiago Galvão

O nome por detrás de Nave Mãe é Frederico Mendes, mas este portuense de 37 anos deu os primeiros passos na música como Fidbek, um dos rappers de Matozoo, grupo mítico do início dos anos 2000 e principais figuras da igualmente icónica editora Matarroa.

Hoje, assina como Nave Mãe, DJ de música electrónica e um dos líderes da editora 1980. Ultimamente, fez um regresso temporário ao rap ao interpretar o alter-ego Fred&Barra no último disco dos Corona, Cimo de Vila Velvet Cantina.

Em conversa com o Rimas e Batidas, falou sobre o percurso que tem feito nos últimos anos, os projectos da label para o resto de 2017 e, claro, sobre a mais recente edição: 91 Fahrenheit, de Moreno Ácido, que se estreou este mês.

 



Como passaste de Fidbek, o rapper dos Matozoo, para o Nave Mãe, líder da 1980? Sempre tiveste interesse por música electrónica?

A 1980 não é uma editora só de música electrónica. Mas, sim, também somos. O caminho de Matozoo até aqui… estive ligado a outra editora quando a Matarroa foi diminuindo de actividade. A partir daí, também desacelerei bastante com a minha actividade musical. Estamos a falar de 2005, mais ou menos. [Depois] apareceu uma oportunidade de começar a fazer coisas novas e sempre tive bastante interesse por coisas electrónicas. Comecei a tocar com um produtor que é o Infestus, que já não está no activo. Fundámos uma editora chamada Circus Maximus, com o Rastronaut e o Daino. Tivemos uns três anos de actividade e seguimos todos caminhos diferentes. E eu, quando está a acabar a Circus, reencontrei o Tugalife, que é um amigo meu de infância — 1980 é o nosso ano de nascimento, foi sempre uma brincadeira que tivemos — e ele fazia música, eu também estava a fazer coisas, podíamos começar a editar as nossas cenas pelo nosso próprio selo. E a 1980 surgiu assim.

E a partir daí, depois de editarem os vossos trabalhos, começaram a pensar em trazer mais gente?

O primeiro trabalho que editamos até não foi nosso. Foi de uma dupla amiga nossa, os Unfixed Unbroken, que vivem em Londres. Era um disco que já era para ter saído na Circus Maximus e tornou-se o nosso primeiro lançamento. O Tugalife só editou para aí ao quarto lançamento. Se bem me recordo, vamos agora no décimo. [O novo] é do Moreno Ácido, 91 Fahrenheit, que também é um ex-rapper. Não sei se se lembram de uma banda que o Xeg teve que se chamava Projecto Secreto: o Moreno Ácido é o Vinagre.

E é música electrónica?

Sim, ele agora é um produtor de house. É incrível o disco.

Vocês já estavam em contacto?

Não, não. Quando o conheci, conheci-o como Moreno Ácido porque ele me enviou demos de músicas. E eu “opá, gostei bastante”. Pronto, nós recebemos algumas demos… Esse produtor agradou-me na altura: “envia-me mais coisas, estou a curtir”. Conhecemo-nos em Lisboa, fui lá tocar e ele foi-me ver. E em conversa, “tu não eras o Fidbek? Eu também tive aí uma cena”, “Foda-se, tu é que eras o Vinagre?’ Um gajo encontra-se assim sem saber. Já o tinha visto num concerto no Hard Club nos anos 90, tipo 1997 ou uma coisa assim. E agora reencontro-o e vou editar uma cena dele. É fixe.

E ele estava meio desaparecido.

Ele esteve a viver em Milão durante bastante tempo. Já teve vários projectos de música electrónica e regressou a Portugal e está a começar a reintegrar-se no meio.

 


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Achas que existe aqui uma ligação entre rap português e música electrónica?

Não gosto muito de catalogar assim as coisas. Música é música. Continuei sempre a ouvir bandas relacionadas com hip hop, sempre pertenci a coisas bastantes diferentes. Matozoo era uma banda bastante diferente das coisas que se faziam aqui na altura. E sempre fui um ouvinte com um espectro alargado. Acho que as coisas evoluem e as pessoas também. E não é gostar de coisas diferentes agora — aliás, neste momento estou associado a uma banda de hip hop, estou em tour com eles [Corona]. E era uma coisa que eu até tinha posto um bocado de parte. Hoje em dia até estou com ideias de fazer coisas minhas, a solo, com outro nome.

Mas ainda nada palpável?

Sim, não tenho nada muito concreto, tenho ideias do que quero fazer. Mas é um bom começo. Porque estava mesmo dedicado à editora e tenho uma residência no Damas com a Caroline Lethô que é a Infâmia, que se foca na rave londrina dos anos 90, e um programa de rádio na Quântica. E estamos a tentar compilar uma malta cá em Portugal que teve associada a esse movimento, porque é uma coisa de que gostamos muito os dois e estamos a tentar recriar esse espírito. As festas têm corrido muito bem.

Acho que é consensual dizer que Lisboa está a atravessar um bom momento no panorama da música electrónica, com bastantes festivais, artistas e editoras locais. Dirias que o Porto está um pouco atrás, nesse sentido?

Se calhar, em investimento, sim. Mas acho que o Porto, em termos musicais, sempre foi bastante vanguardista, mais do que Lisboa até. Não é nada local, mas acho que existem aqui produtores e bandas que, a nível de originalidade, que, no fundo, é isso que eu, como ouvinte, privilegio, estão uns furos à frente. Mas a nível de investimento, sim. Tem procura e a população em Lisboa é maior. Costuma dizer-se em tom de brincadeira, que é verdade: uma banda no Porto para ter a atenção mediática tem de ter o dobro do esforço do que uma banda de Lisboa. A nível de oportunidades e exposição, é normal que numa capital tenhas mais esse tipo de oportunidades. Acho que ambos se completam e são precisos no país.

Além do disco do ex-Vinagre, agora Moreno Ácido, há outros projectos que têm previstos até ao final do ano? Vai haver uma nova compilação Lyfers?

Sim, o volume três, espero que o consiga lançar este ano. Além da Lyfers que está praticamente fechada, temos o disco do Zacarocha — um produtor do Algarve que vive em Lisboa — que já não fazia coisas há bastante tempo e que me mandou um disco feito a perguntar o que achava e eu quis lançar. Temos ainda uma produtora de que também gosto muito, a Velvet, cujo disco também está quase fechado.

Tu, especificamente, estás a preparar algum trabalho?

Neste momento, estou com Infâmia, tenho o programa da 1980 na Quântica, a editora, estou em tour com os Corona… gostava de ter um bocado de espaço para fazer uma coisa minha mas para já fico-me pelas ideias.

O facto de teres o passado nos Matozoo e na Matarroa ajudou a que agora consigas gerir melhor a editora? Como é equilibrar o lado mais criativo com aquele de gestão de uma label?

Na Matarroa, eu era um artista. Acompanhava de perto a gestão da editora, mas era um artista. Não estava implicado em nada, via como é que se faziam as coisas. Na Circus Maximus, tive um papel bastante mais activo na gestão de tudo, tanto de lançamentos como de agenciamento de artistas. E agora na 1980, a editora é minha e do Tugalife. Os dois temos dividido o trabalho e a coisa faz-se. A partir de certa altura começa a ser um bocado maquinal. O primeiro disco custa um bocado, tens aqueles procedimentos todos a fazer: os press-releases, a imprensa, datas, isto e aquilo. Mas depois a coisa vai-se fazendo de uma maneira quase automática. Mas tanto eu como o Tugalife andamos com trabalho a mais, para além dos nossos trabalhos civis, digamos assim. Ele também anda a tocar bastante, tem residências na NTS, um projecto que se chama Kenga. Tem tocado bastante em rádios em Londres. Mas temos conseguido: o último disco [Going Somewhere, de Hai] foi incrível, teve um feedback espectacular.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha