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Fotografia: Rafaela Ramos

Uma prenda de Marco Ferreira para o hip hop português.

Natal do Marginal 2019: uma celebração sem um pingo de azeite

Fotografia: Rafaela Ramos

Numa altura em que as pessoas começavam a apontar as agulhas para a passagem de ano, oficializando assim o fim da quadra natalícia, Keso decidiu seguir à risca o provérbio que afirma que o Natal é quando um homem quiser, dando vida a um evento que, durante três dias, levou, orgulhosamente, muito rap à baixa portuense, percorrendo espaços como o Plano B, o Café Au Lait, o Hard Club, o novinho Ferro e, até mesmo, o Passos Manuel.

No primeiro dia de algo descrito pelo fundador da Paga-lhe o Quarto como a maior aventura que alguma vez produziu, o Plano B foi a sala inaugural desta síntese do bom hip hop que se tem fortificado em todo país mas aqui com especial destaque para a cidade do Porto — não estivesse nesta muito estimada sala um cartaz composto por nomes associados ao colectivo Sexto Sentido como Minus & Mr.Dolly, Enigmacru ou ActivaSom.

Foi com o produtor Hugo Oliveira, mais conhecido no mundo das rimas e batidas como Minus & Mr.Dolly, que arrancaram as festividades, num set variado que tanto picou clássicos como produções mais contemporâneas, não faltando o rap feito na nossa língua, como foi o caso de “Lamento” de Deau, tudo feito num ritmo certeiro, intenso e sempre muito bem calculado. Adequado para aquecer a sala, que, apesar de nessa altura ainda estar a encher, dava já vislumbres do ambiente que se seguiria. Havia já cabeças a agitarem-se, algumas palavras a serem reproduzidas no público e algum burburinho, sempre que alguma música especial era tocada. Minus & Mr.Dolly teve a arte de não fazer os presentes arredar pé da sala, pelo contrário, as pessoas chegavam a cada minuto em maior número e com maior curiosidade chegando-se a frente para sentir todos os temas escolhidos meticulosamente num set muito bem conseguido, entrelaçando-se na perfeição com o showcase de Myka.

Foi curta, mas interessante, a passagem do rapper pelo palco, verbalizando histórias pessoais ou, pelo menos, assim as conseguiu transparecer, escritas de forma crua mas nunca demasiado suja. É um talento da cena portuense que deve ser seguido com atenção.

O Original Marginal subiu ao palco logo a seguir para dar as boas-vindas ao público e apresentar os Enigmacru, que no seu mais recente álbum Emperfeito Equilíbrio até partilham uma faixa com Myka. Acompanhados por Virtus, nome essencial da história do rap português, o duo produziu um concerto intenso, cheio de energia, em que os braços estiveram muitas vezes no ar em jeito celebratório. Foi uma partilha séria, o que se presenciou no Plano B.

O disco foi corrido de ponta-a-ponta, houve espaço para revisitar velhos sons e sobretudo para ver o quão bons são os novos. A intensidade do final do concerto, com os temas a tornarem-se mais pesados, mais negros e mais próximos de géneros como o garage e o grime, foi o apontamento mais estimulante e desafiante de toda a noite. São autênticas bombas auditivas, lentas, carregadas, que perfuraram, no bom sentido, os ouvidos e fizeram balançar os corpos.

Na mesma noite que se ficou a saber do triste adeus de Allen Halloween à música, muito se falava na sala do regresso dos ActivaSom. “Eterno Retorno”, faixa produzida por Minus & Mr.Dolly, marcou o regresso do grupo.

A apresentação manteve a ordem de intensidade dos Enigmacru, que trouxe à memória velhas noites e que fez antever um bom futuro, mas estava na hora de espreitar o que acontecia numa outra sala do festival, o Café Au Lait. DJ Score e Nel’Assassin, nome que tanto marcou o hip hop nacional, mas que, de estranha forma, parece algo esquecido, eram os responsáveis por setscarregados de clássicos, com scratch à mistura e um mood quente para rematar a primeira noite.


 

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Após o sucesso do dia inaugural do Natal do Marginal, as expectativas redobraram-se para sábado à noite (infelizmente não conseguimos marcar presença na matiné da PoQ), afinal de contas tínhamos um cartaz que unia no mesmo espaço Classe Crua, Deau e o concerto de Keso (sempre acompanhado por DJ Spot).

Foi com o último que a noite, no Hard Club, arrancou e logo com chave de ouro, marcando-se como um dos pontos altos do festival. Um concerto irrepreensível, dado com uma confiança e uma postura inabalável. Keso é daqueles performers que deixa marca sem precisar de grandes espalhafatos, um crooner do hip hop, um rapper que se senta numa cadeira e só com esse adereço enche um palco. A forma sublime como se esconde na ausência da luz, como debita as suas palavras, como com menos faz mais, não precisando de grandes gestos para puxar pelos presentes. Basta o seu carisma para, por si só, conquistar um público, que pouco já precisa de ser conquistado quando se tem um catálogo de temas como aqueles que Keso apresenta. Ouvir as músicas de O Revólver Entre as Flores e KSX2016 é um privilégio que o público sabe retribuir, cantando as letras, erguendo os braços ou até gritando o seu nome. O que o concerto permitiu sentir foi, sobretudo, a importância e o peso do artista no rap que se faz no Porto e o quanto os seus álbuns influenciam o panorama.

Temas como “Na Rua Tenho Acústica”, “Underground” ou “BruceGrove”, são autênticas primeiras pedras do futuro. Onde cabem corpos cabem sonhos pode, inclusive, ser visto como um belo resumo de tudo o que foram estes três dias. Afinal de contas, o Natal do Marginal foi um sonho seu, partilhado com muitos e para muitos, como Deau, com quem até viria a partilhar palco em “Ponto de Partida”. Um momento altamente emocional e que tocou a todos na sala. Um exemplo perfeito da prova mútua de amor que foi o segundo concerto da noite. De Deau para o público e o inverso.

“Traça a Linha” inflamou cedo a sala; com “Teresinha” e “Diz-me Só” tivemos novos momentos de intensa partilha. Ouvir aquela voz de Bezegol trouxe à memória as saudades que temos não só dele como dos Matozoo. Foi tão bonito como épico ouvir o público sozinho a findar o tema num apoteótico “…É o meu lamento”. Com pura magia, Deau acabou o concerto num improviso formado por títulos de temas pedidos pelo público. Uma imagem exacta do que aconteceu durante o concerto. Como não gostar de hip hop depois destes momentos.

Os Classe Crua pareciam, na teoria, ser o nome mais esperado do dia, mas a verdade é que o duo formado por Sam The Kid e Beware Jack, apesar dos constantes esforços, não conseguiu obter o mesmo entusiasmo do público — poucos foram os momentos em que se sentiu a mesma ligação que se manifestou nos concertos anteriores. “Cobra Capelo”, “Memorabilia” ou “Sofrerporteamar” e, claro, “A Minha Praia” podem ser vistos como excepções muito positivas numa actuação que, apesar de muito competente, nunca conseguiu sair da sombra nem obter o mesmo impacto que o álbum registou. Não se tratou de uma apresentação esquecível, pelo contrário, mas a imponência dos concertos de Keso e Deau surtiu efeito.

Para além dos concertos, o segundo dia do Natal do Marginal ficou marcado pela sessão especial ao vivo do Três Pancadas. O podcast de Sam The Kid teve Virtus como convidado para uma conversa tão interessante como divertida, onde se partilharam ideias sobre produção, metodologias, músicas que fazem chorar e até surpresas feitas pelo autor de UniVersos a Samuel Mira — tudo à conta de uns beats… Não queremos fazer grande spoiler, mas recomendamos, a quem não esteve presente no Plano B, a audição ou visualização no YouTube. Vão ver que vale a pena.

O domingo e último dia do festival também foi rico em momentos especiais. A falta de concertos foi driblada com eventos como a primeira Purga no Porto ou o filme de Catarina David e Francisco Noronha, onde se documenta, e bem, a génese, o fascínio e a importância social e pessoal do hip hop. Um documentário que tem um alto valor de estudo: ensina-nos e faz-nos querer saber ainda mais, e deve ser visto por seguidores, curiosos e talvez ainda mais por aqueles que ainda não contactaram com este mundo rico que é o hip hop do Porto — o trama vai dos Mind da Gap e a sua influência ao Comix e o seu peso.

Já a Purga, sessão intimista de declamação organizada por Nerve, chegou finalmente ao Norte, mais concretamente ao Ferro, com direito a participação especial de Capicua. As palavras foram o mote, não faltando um cheirinho daquele que será o novo álbum da convidada, a sair já em Janeiro.

No final, já com a noite de domingo banhada pelo som da futura compilação engendrada por Keso, não há dúvidas sobre o avultado valor deste tipo de iniciativas. O Natal do Marginal teve três dias sem um pingo de azeite (algo reforçado pelo próprio fundador), num evento que deu muito hip hop ao Porto e que mostrou o quanto são precisos mais eventos como este. O futuro parece risonho. Basta acreditar, afinal, que onde cabem corpos cabem sonhos.


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