NAO: “Eu quero criar um som meu”

[ENTREVISTA] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

 

Se o Vodafone Mexefest costuma trazer os próximos grandes nomes do universo musical, NAO é, certamente, uma dessas escolhas certeiras. Dona de uma extensão vocal extraordinária, a cantora britânica lançou o fantástico For All We Know este ano, um álbum que dá roupagem contemporânea a canções com corpo r&b ou soul. Considerada como grande promessa pela Pitchfork ou a BBC, os Disclosure também a convidaram para o sucessor de Settle e deram-lhe um boost nas suas ambições, trazendo-lhe um público maior para perto de si.

O Rimas e Batidas apanhou-a em Paris e conversou com NAO por telefone sobre o processo de criação do álbum, a situação política no mundo e os artistas que a inspiraram e inspiram.

 



Para aqueles que não te conhecem em Portugal e te vão ouvir pela primeira vez, como é que descreves a tua música?

Eu diria que é uma combinação de algumas coisas, tudo coisas que eu cresci a ouvir. Folk music, soul, pop, r&b, jazz. Mas não é um olhar para o passado, é a minha visão contemporânea disso.

Quando é que decidiste começar a escrever e compor o teu próprio material?

Bem, eu sempre quis fazer isso durante toda a minha vida, mas demorei o meu tempo fazê-lo. Eu era uma cantora de sessão: cantava para outros artistas, fazia músicas para anúncios. Decidi que ia escrever a minha própria música quando me apercebi que tinha muita energia criativa para explorar – isto foi há cerca de três anos. Também foi há três que comecei a fazer o upload das minha músicas para a Internet.

Tu tens uma versão fantástica da “Thinkin Bout You” do Frank Ocean numa apresentação com o Mura Masa na BBC Radio. Honestamente, eu pensava que era impossível alguém agarrar nesta canção e torná-la sua, isto porque as canções do Frank Ocean parecem-me sempre bastante pessoais. A tua escrita começa nas experiências pessoais?

Sim, absolutamente. Eu escrevo todas as minhas canções, letras e melodias. Tudo vem do meu coração, das minhas experiências e das experiências de pessoas que me são próximas. A minha música está no seu melhor quando é criada dessa forma. Artistas como Stevie Wonder ou Michael Jackson também funcionavam melhor assim porque acreditavam realmente naquilo que cantavam.

 



Como escritora de canções, onde é que começas a estruturar a música? Começas com a melodia ou primeiro vêm as palavras?

Sim, começa com a melodia. Eu começo a improvisar – gosto muito de improvisar – e faço scat. (Começa a fazer scat) Eu habitualmente faço isto (risos). A melodia vem primeiro e as letras vêm depois.

Mencionaste em entrevistas anteriores que costumavas olhar para a música do Prince, Nina Simone, Coltrane, Donna Hatthaway, Miles Davis e pensavas que a tua música não era boa o suficiente. Com a experiência que já adquiriste, quando é que pensas que a música está perfeita ou pronta?

Bem, perfeição não existe na realidade. Podes escrever uma canção e ir deixando-a para trás, acrescentando sempre coisas novas. Em algum ponto vais ter que aceitá-la como ela é. Tens que olhar para ela de forma pacífica. Acho que, no fundo, tens que aceitar nalguma altura que nunca vai ser perfeita.

Vamos falar sobre o teu novo álbum. For All We Know é um tributo a um dos teus standards de jazz favoritos cantados por Donny Hatthaway. A letra nessa canção é, na minha leitura, sobre aproveitar o momento porque eles nunca se repetem exactamente da mesma forma. É isso que queres para a tua música? Evoluir sempre e nunca te repetires?

O sentimento dessa canção é sobre viver o momento porque o amanhã pode não chegar. (Começa a cantar a canção) “O amanhã não ser para toda a gente” é um pensamento bonito para mim. É dessa forma que tenho tentado viver a minha vida. Com qualquer coisa na vida, tu podes dizer que fazes amanhã. Podia ter trabalhado na minha música durante anos e anos, mas eu decidi que iria fazê-lo agora! (risos)

 



O álbum foi editado pela tua própria editora, Little Tokyo Recordings. Qual é a razão por trás desse nome? Tens alguma ligação com o Japão?

(Risos) Eu fui lá no início deste ano. O meu bar favorito de sempre chama-se Little Soul Café. Tu entras no bar e tens uma pequena biblioteca, livros nas paredes e alguns vinis. Álbuns fantásticos de música cubana, soul antiga, Barry White. E é um espaço pequeno, também servem bebidas… Eu passava lá muito tempo. Quando tive que decidir qual o nome, eu pensei que tivesse que ser algo que eu gostasse realmente e reflectisse a música. Muito experimental, que mexesse com os limites estabelecidos. Foi por isso que chamei-lhe Little Tokyo.

Eu ouço a tua música e vejo ligações – mesmo que não directas – à Bjork. És fã dela? Tal como ela, tu estás a tentar criar algo que as pessoas possam dizer: “Sim, esta é, de certeza, uma música da NAO.”

Sim, definitivamente. Esse é o meu objectivo. Quando tu ouves Björk, Radiohead ou James Blake sabes que são eles, eles criaram o seu próprio espaço sónico. Eu amo realmente isso. Eu quero criar um som meu. Eu quero que as pessoas copiem a NAO (risos).

Quem é que te inspira actualmente? 

Eu estou apaixonada pela Noname, uma artista de Chicago. É incrível, estou ansiosa por vê-la. A forma como as letras dele são tão honestas, o quão musical ela é. Tirando ela, Ry X e James Blake são outros artistas que admiro muito.

Como é que funcionou o processo de criação do álbum?

Na verdade, fui só eu a pensar em ideias, escrever letras, melodias…. Quando eu precisava de algo mais, chamava produtores. Quando precisava de instrumentos, chamava músicos para tocar.

Como é que foi trabalhar com artistas como Jungle ou A.K. Paul?

Sim, foi fixe. Eles têm uma grande musicalidade e são pessoas realmente fixes. No fim do dia, somos todos humanos. É como se trabalhasse com velhos amigos.

 



Com toda esta confusão nos Estados Unidos da América por causa da vitória do Donald Trump e o Brexit no Reino Unido, por exemplo, qual é que achas que é o teu papel como artista? Criar consciência ou distrair as pessoas desses problemas?

Hum, esta é, na verdade, uma nova questão para mim (risos). Da minha perspectiva, é bom ter uma distracção. Hoje em dia todos temos vozes nas redes sociais (blogues, artistas, entre tantos outros). Eu estou aqui apenas para fazer música. Acho que vou seguir esse caminho durante um bocado (risos).

O teu nome em português significa “não”. Ouviste algum “não” que tivesse marcado a tua carreira?

Sim, eu ouvi muitos “nãos” (risos).Quando eu era miúda, nós tínhamos um concurso de canto e eu participava todos os anos. Eu pensava que era uma grande cantora, mas nunca ganhei. Isso ensinou-me que é tudo uma questão de opinião, neste caso em particular eram três pessoas a julgarem-me. No fim, fui eu que terminei a ser artista e a fazer carreira musical. (risos)

 O que é que esperas do teu primeiro concerto em Portugal?

Já estive aí de férias. Eu amo os portugueses. Eu dei a aulas a miúdos de Portugal e Angola que me ensinaram algumas coisas. Outra coisa que gosto é que vocês têm muito da cultura africana na vossa música e isso é algo que eu aprecio realmente.