Não há crime sem Evidence

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Repetimos: não há crime sem Evidence. Esta poderia muito bem ser uma versão alternativa (e traduzida, claro) do refrão de “It Wasn’t Me”, um dos temas que figuram no alinhamento de Cats & Dogs, o seu segundo disco a solo. Em 2011, o MC e produtor de Los Angeles era uma figura incontornável no circuito do rap independente norte-americano: assumiu-se enquanto frontman dos Dilated Peoples, desbravou um trilho de forma mais solitária, aliou-se a produtores e assinou versos em canções de outros artistas. Também foi pedra basilar na produção de projectos para outros músicos — foi um dos beatmakers em destaque no The College Dropout de Kanye West, premiado com um GRAMMY e recentemente vimo-lo a assinar as batidas de um projecto inteiro de Domo Genesis.

Os Dilated Peoples, trio que formou com Rakaa Iriscience e DJ Babu, foram a fundação da sua reputação. Entre os versos e instrumentais que saíam do arquivo do grupo, o talento de Evidence evidenciava uma promissora carreira a solo. Antes da música, o MC e produtor expressou-se através do graffiti e, embora a sua ligação à vertente sónica do hip hop tenha começado em meados dos anos 90, foi no virar do milénio que o começámos a conhecer melhor — os Dilated Peoples editaram o álbum de estreia, The Platform, no ano 2000.

A época perfeita para dar a cara e aparecer no mapa, uma altura em que o liricismo do hip hop estava em plena mutação, com o lado mais poético dos MCs a vir ao de cima através de uma procura insistente pela rima mais fora da caixa. As futuras novas vedetas não vinham exclusivamente das esquinas dos bairros e era cada vez mais habitual assistir à ascensão de rappers que vinham de um background de battle rap — as guerrilhas urbanas abdicavam assim da força e das armas em prol da sagacidade vocal e do manuseamento da esferográfica. “Ear Drums Pop”, de The Platform, é um exemplo dessa mudança de paradigma — o uso da popular onomatopeia já nada tinha a ver com disparos, mas sim com o efeito dos tímpanos a romperem tal a qualidade e o poder da batida; também no mesmo tema, Evidence dá arranque ao primeiro verso com a descrição daquela que era, na altura, a arma legítima na arte do hip hop.

 



O conceito de street cred passou a ter cada vez menos importância na afirmação de um mestre de cerimónias, o que fez com que o número de discípulos a candidatarem-se às vagas que o hip hop oferecia fossem cada vez maiores. O aumento da população aliado ao espírito de batalha de rap vivido na altura despoletou um sem número de diss tracks, que visavam fazer subir mais depressa os estatutos individuais na lotada pirâmide do hip hop. Evidence não ficou de fora e foi protagonista de um dos mais audazes ataques à então super vedeta do rap norte-americano: “Search For Bobby Fisher” foi o tema solto em que tentou medir forças com Eminem, após este ter trocado versos com Everlast, um dos mestres da escola dos Dilated Peoples, veterano com carreira que se estendia até aos House of Pain.

Com quatro discos no mercado, Ev abrandou, a partir de 2007, o ritmo nos Dilated Peoples para se dedicar mais a sério à sua carreira a solo. The Weatherman LP, o seu álbum de estreia, foi o primeiro grande passo para cimentar a sua posição no circuito underground do hip hop. Um disco que foi bastante aplaudido pela crítica musical e no qual participaram nomes como Jake One, Planet Asia, Defari ou Phonte. Tal como nos álbuns lançados ao lado de DJ Babu e Rakaa Iriscience, era também o próprio Evidence quem assinava uma parte considerável da produção do projecto. No capítulo das batidas, o maior destaque iria, claro, para The Alchemist, um dos artistas mais próximos do MC de Los Angeles, com quem formou mesmo uma dupla — os StepBrothers estrearam-se em 2014 com Lord Stepington, após largos anos a colaborar juntos nas mais diversas ocasiões.

Cats & Dogs foi a sua última aparição a solo no registo LP e também a sua primeira edição pela Rhymesayers Entertainment. “To Be Continued…” e “You” foram os singles que ajudaram a promover Cats & Dogs nos meios de divulgação musical — o segundo tornou-se num clássico instantâneo com a letra de Evidence a ganhar asas numa batida memorável de DJ Premier. Também The Alchemist, Statik Selektah ou DJ Babu se juntaram à produção do álbum. No microfone, Prodigy, Raekwon, Roc Marsiano, Ras Kass, Aesop Rock ou Termanology fizeram as delícias dos ouvintes de Cats & Dogs.

Amanhã, Weather or Not é um regresso ao local do crime e “Throw It All Away”, “Jim Dean” e “10,000 Hours” são as únicas pistas dadas. Investigue-se.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira