Não Consegues Criar o Mundo Duas Vezes é o novo documentário a retratar o rap do Porto

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

 

Não Consegues Criar o Mundo Duas Vezes é um novo documentário sobre a história e memória do rap do Porto com realização de Francisco Noronha, colaborador do Rimas e Batidas, e Catarina David.

A vontade de documentar o rap nacional tem surgido ultimamente com força redobrada: olhe-se para a TV Chelas a vasculhar o passado e a entrevistar intervenientes cruciais desta cultura que dia após dia ganha força; De Sol a Sol, série documental, tentou perceber o futuro nas palavras de Bispo, Holly, DJ X-Acto e Jordan.

O Porto é agora o foco principal e Francisco Noronha e Catarina David contam-nos como tudo surgiu: “A ideia deste documentário parte, antes de mais, de uma amizade e de um amor comum pelo rap – e dizemos ‘rap’ porque este é um documentário sobre rap, não sobre a cultura hip hop no seu conjunto (embora, lateralmente, o graffiti e o breakdance sejam, inevitavelmente, convocados). Depois, é a nossa vontade de contar uma história, de registar no tempo algo que está por contar, enquadrar, compreender. A história do rap do Porto, exceptuando a música propriamente dita que obviamente fala por si, não está feita, não está documentada, pelo menos daquilo que nós sabemos. Só os artistas e os ouvintes mais atentos conseguem, com precisão, estabelecer a genealogia do rap do Porto; quem está mais de fora, não. Esse é o nosso propósito: documentar a árvore genealógica de um movimento e perceber as suas origens, nuances, cambiantes, transformações. Todavia, mais do que a história cronológica e factual dos acontecimentos, mais do que a ‘grande história’, interessa-nos, acima de tudo, as pequenas histórias de cada um, as memórias individuais daqueles que, nas suas vidas, contribuíram, no início sem o saber, para o nascimento e consolidação de uma expressão artística.”

 


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“Como já referimos, o documentário incide única e exclusivamente sobre uma das vertentes clássicas da cultura hip hop, o rap. Não temos, pois, a pretensão de contar a história de toda a cultura, mas apenas uma parte dela, não só porque, em termos de disponibilidade e tempo, era o mais adequado, mas também porque é do rap que, em termos afectivos, ambos estivemos sempre mais próximos. De todo o modo, é um documentário que, sendo sobre a história e a memória do rap do Porto, é, inevitavelmente – e nós queremos que seja –, sobre mais do que isso: é sobre uma cidade, as suas transformações, os seus lugares, as suas pessoas, as suas idiossincrasias.Tudo isso nos interessa e é algo que se reflecte na própria ideia que temos do espectador deste filme: não queremos que o filme seja visto apenas por fãs de rap, mas também por qualquer pessoa que se interesse pela história e a memória dos movimentos culturais e dos lugares, enfim, pela música. Não é preciso gostar do David Bowie para ver e apreciar um filme sobre a sua vida e/ou obra. Do mesmo modo, não é preciso gostar de rap para gostar de um documentário sobre rap”, esclareceram os dois realizadores sobre a motivação que moveu a concepção deste documentário.

O distanciamento dos principais órgãos sociais  do Porto cria uma ideia de que não existe a mesma visibilidade para os artistas hip hop do norte.Em conversa com o ReB, Catarina David e Francisco Noronha, que também é crítico de cinema no jornal Artes Entre As Letras e no sítio À pala de Walsh, não se querem intrometer nessa luta: “Este filme pretende, essencialmente, criar um documento, mapear as origens, o desenvolvimento e o estado actual do rap do Porto e de todas as pessoas e movimentos que estão à sua volta. Portanto, a resposta mais directa à pergunta é: não, não passa tanto por aí. Não temos absolutamente nenhum propósito quixotesco de “defender” a nossa dama ou seja o que for. Simplesmente, o filme é sobre o rap da cidade onde crescemos e onde, por isso, criámos naturalmente vínculos afectivos especiais. Quanto a esse “aproximar” de que falas, há um bom remédio: ouvir, ouvir, ouvir. Com toda a música disponível na Internet, não há desculpa.”

A informação sobre o rap portuense está apenas documentada pela música lançada, tornando este tipo de peça uma espécie de serviço público, ajudando a definir cronologicamente os acontecimentos. Os protagonistas, como não poderia deixar de ser, foram escolhidos a dedo: “Foi um processo bastante natural e baseado, sobretudo, nos testemunhos de artistas do Porto – mas não só artistas de Porto e não só artistas. Procurámos ser o mais abrangentes possíveis, embora sempre com a consciência, desde o início, de que nunca é possível falar com ‘toda a gente’. ‘Toda a gente’ não existe, há sempre mais alguém, há sempre a pessoa “X” que também seria interessante de ouvir por causa disto ou daquilo. É um processo infinito. Relativamente às disponibilidades, toda a gente se mostrou entusiasmada em participar. Só houve uma excepção, pela qual temos mesmo muita pena pois é um elemento fundamental da história do rap do Grande Porto, mas compreendemos e respeitamos os seus motivos para não entrar no filme. Além de artistas, também temos gente ligada, de outras formas, ao rap ou à música. O Rui Miguel Abreu, por exemplo, também entra no filme. De fora do Porto, o Sam The Kid, por exemplo. Por questões de agenda e oportunidade, as entrevistas ainda não estão totalmente fechadas. Logo que possível, ainda gostaríamos de entrevistar mais quatro ou cinco pessoas que nos parecem importantes para o filme.”

Apesar de já estar a ser antecipado, Não Consegues Criar o Mundo Duas Vezes ainda não tem data de lançamento definida: “Ainda estamos a trabalhar no filme, até porque, como já referimos, ainda queremos incluir mais 4 ou 5 entrevistas que nos parecem relevantes. O documentário foi e está pensado para cinema, para sala, e é aí que será visto. Não podemos revelar datas por agora.”

Podem acompanhar as novidades na página oficial de Facebook e espreitarem um pouco do que se vai passar no teaser disponível em baixo, no qual, acompanhado da voz de Ace (Mind Da Gap), se vê o interior do antigo Comix, bar mítico do Porto nos anos 90, localizado na Rua de Cedofeita, e onde as primeiras festas de hip hop começaram a ser dinamizadas por Serial e Ace.