Nandele: “Este álbum é uma resposta para as minhas inquietações”

[TEXTO] Tavares Cebola [FOTO] Flying Around

 

Afirmações com convicção pontuadas por interrogações retóricas, a hesitação (e a nostalgia) quando lembra um episódio do passado, as comparações com o presente, a música e os seus protagonistas e um entusiasmo que aumenta à medida que a conversa avança. No alpendre, onde nos encontramos, os cães correm à volta, cercando-me de quando em vez. Ignoro se é um ritual que cumprem com todos os visitantes ou se estão animados por outra razão qualquer.

Depois do ensaio nos estúdios da Kongoloti Records, na véspera de um espectáculo, comprámos pizzas para o jantar e reunimo-nos para a conversa em casa de Nandele Maguni, tendo como pretexto o lançamento do seu primeiro álbum Likumbi, previsto para 2017. Falámos sobre vinis, Fela Kuti, os anos em que fazia freestyle no Sindicato dos Jornalistas, J Dilla, a infância em Chimoio e os ritos de iniciação maconde.

Nandele Maguni lançou em 2015 o primeiro EP, Argolas Deliciosas, uma homenagem a J Dilla, afirmando-se como um dos mais criativos beatmakers de Moçambique.

 


De que nomes é que te lembras quando pensas no teu histórico musical?

Eu sempre tive interesse por música, mas o que me fez sentir parte de alguma coisa foi ter conhecido um rapaz chamado Hélder Dimande. Tínhamos um interesse em comum: o rap. Havia grupos em outros bairros e nós queríamos fazer parte dessa coisa. Éramos fãs do Snoop (Dogg), criámos a nossa versão moçambicana dos Tha Dogg Pound e conhecemos uns tanzanianos que integraram o nosso grupo. Havia um sítio, em 1993, onde fazíamos actuações: o Sindicato Nacional dos Jornalistas. O Zito Doggystyle, o Eduardo PM  e o Hélder Lionel iam todos lá para fazer freestyle. Chamava-se Long Beach e eu às vezes entrava de borla porque levava novidades e dizia : “tenho um novo Redman, mas estou com uns amigos”. Era assim que nos deixavam entrar. Em casa assistia às cassetes dos meus ídolos. Era uma casa extremamente rica em música e eu ouvia muitos estilos além do rap. O meu pai trabalhava na rádio [foi o primeiro director da Rádio Moçambique no pós-independência]. Ouvia Foo Fighters, Green Day, Nirvana e apercebi-me que música não era só rap. Algumas pessoas ficavam com interrogações porque não era normal um jovem ouvir os Prodigy ou Fela Kuti. Estamos a falar de 93. Tudo culmina com a criação da banda Projecto Camuflado com o Hélder Dimande. Eu tocava bateria e o Hélder tocava teclado. Havia um amigo chamado Valter que tocava baixo e o Carlitos KG era o vocalista. O KG era muito bom e foi convidado para uma mixtape da GPRO, tendo feito o melhor verso. O Projecto Camuflado morreu porque o Carlitos foi para o Brasil e não conseguimos encontrar outro vocalista. Criei a Amuhive Records com o Mak da P e o Jack. A Amuhive existe até hoje. No movimento hip hop, eu nunca gostei de participar activamente, era um simples observador a ser influenciado por aquilo que os outros faziam. Ver o Duas Caras com O País da Marrabenta, o Azagaia, ou o Masta Bad naqueles eventos que aconteciam no Txova, onde eu já ia mesmo antes do hip hop quando tocavam bandas. Foi lá que descobri o Texito Langa, o Xavier e o Elton, dos Rockfellers (banda de rock popular em Moçambique). Os Rockfellers encontraram-se ali, se não me engano. Não sou muito de movimentos. Queremos fazer parte de um todo que na essência não existe.

Voltando à tua casa, havia muitos vinis e cassetes?

Meu pai tinha muita música. Nos fins-de-semana era um ambiente de festa e a casa ficava cheia. Eu nasci em 1981 e fui viver para o Zimbabué. O meu pai era maconde e os macondes são um povo muito alegre. Há música para todos os momentos. Eles expressam-se através da música, para além do mapico (dança do povo maconde, de Mueda, província de Cabo Delgado). Nos ritos de iniciação maconde há uma canção para quando estás a levar a criança para o mato (ritos de iniciação) ou quando ela está a regressar. O meu pai tinha uma cassete de vídeo do Paul Simon, do espectáculo Graceland, que passou muito nas televisões. Muita gente conheceu o Fela através do hip hop porque houve samples e artistas influenciados pela forma de luta do Fela. Falo do Talib Kweli, do Common e do Mos Def. Eu conheci o Fela vendo os meus pais dançar Lady. Eles ouviam aquilo até dormir e a minha prima, farta, escondia a agulha do leitor. Quando o meu pai ouvia música fazia-o com todos. Nos anos 80 e 90, a aparelhagem era sagrada, mas o meu pai deixava-me mexer e ensinou-me como limpar os vinis, como assentar a agulha, o peso, o que tocavas em mono e em stereo. O meu pai deu-me a conhecer Michael Jackson, o Franco da RDC e Papa Wemba. Eu já experimentava tocar Bob Marley e Fela, e chegou uma altura em que eu descobri que afinal Just Blaze tinha “samplado” uma música deles. Dançávamos música africana até amanhecer. Eu conheci Orquestra Marrabenta e ainda tenho os vinis deles. Ouvi “Sapateiro” no vinil, com aquele ruído. O vinil é uma maravilha. Tive essa possibilidade de ouvir música de forma genuína.

Essas influências eram possíveis para pessoas que não tinham música em casa?

Aprendi ‘ritmo’ em Chimoio [na província central de Manica] onde andava descalço em frente à nossa casa. Todas as brincadeiras tinham que ver com a música: faziam-se ritmos com o corpo e as pernas. A música é a interpretação humana dos sons do ambiente. O som das árvores, dos animais, dos utensílios que o homem utiliza para executar um trabalho. A primeira vez que vi tufo (dança do norte do país, executada por mulheres) fiquei fascinado, o mesmo com mapico, diferente da reacção habitual que é o susto. Tudo isto influenciou-me. A noção de tempo na música eu aprendi com as brincadeiras em Chimoio a contar, 1, 2, 3 com as batidas. Vais a uma aldeia e vês as pessoas na miséria, mas estão felizes e a cantar.

O que é que aconteceu depois do Projecto Camuflado?

Criámos a Amuhive, uma espécie de produtora, mas aquilo não funcionou e entrámos em conflitos na direcção artística. O Pedro Amaral, meu amigo de infância, que também tinha pertencido ao Projecto Camuflado, ensinou-me a fazer djing, onde comecei a aplicar todas aquelas combinações de música. Nós tocávamos as músicas que os DJ de cá não tocavam. Fazíamos festas no Tofo (província de Inhambane, sul de Moçambique),num bar em Maputo e em festas privadas. O Pedro introduziu-me o trip hop,  o downtempo, a música electrónica, o jazz, o drum and bass, chill out e nós tocávamos tudo isso. A certa altura, uma rapariga convidou-me para fazer um evento às terças: o “Live Rhymes”. Ela queria ter uma banda que acompanhava os artistas, rappers, poetas e outros elementos do hip hop. Eu era o baterista e DJ. O DJ Speech tinha turntables e eu podia levar os vinis que tinha em casa para tocar. O programa corria tão bem que tínhamos a casa sempre cheia. Formei uma banda que acompanhava os MC. Um dia decidi abrir uma jam session. O Pedro a tocar o baixo e o Miguel dos Grah Mah a bateria. Eu comecei a fazer um freestyle e depois a dar instruções ao público para toda a sala levantar os braços. Isso captou a atenção da gerente do Gil Vicente (café e bar histórico na cidade de Maputo), a Rute Borges. O Paulo Borges convidou-me pouco tempo depois para fazermos o karaoke e eu ser o apresentador. Era uma oportunidade para aprender. Passavam no Gil os melhores músicos da cidade. Sugeriram-me animar o espaço, entreter, fazer covers e cantar Guns and Roses, Louis Armstrong, Queen, Red Hot Chilli Peppers, Da Weasol, Lionel Richie. Consegui animar a casa e às terças era incrível, as pessoas saíam do Gil às três da manhã. A casa completamente cheia. Havia dias com corte de electricidade e as pessoas ficavam a cantar e a tocar copos. Tínhamos quase duzentas músicas e ensaiávamos só um dia.

E fazias outros trabalhos?

Tocava nos Caminhos-de-Ferro, trabalhava na Logaritimo a produzir eventos, fazia de MC e trabalhava como técnico de som com o Azagaia na produção de espectáculos, no Mafalala Libre. Fiz o programa paralelo do Kinani [maior evento de dança contemporânea em Moçambique] em 2010, fiz festas na Rua d’Arte num projecto chamado Awesomemakossa onde se ouvia Afrobeat e colaborei com o Gonçalo Mabunda, que expunha as suas obras e fazia festas dos anos 80. Eu tinha um tio que vivia fora que gravava música da MTV e enviava as cassetes. Quando o meu pai viajava gravava cassetes de 90 minutos, às vezes com publicidade. Tudo isso deu-me um conhecimento musical abrangente. Uma vez fomos receber o Hip Hop Pantsula no aeroporto e quando apresentei-me ele diz-me: “tu és o Nandele, a enciclopédia de música. Disseram-me que sabes muito de música”. As minhas festas eram isso: uma experiência de partilha onde ouvias os Temptation e Curtis Mayfield. O que definiu o meu trajecto foi esse conhecimento abrangente. O Argolas Deliciosas reflecte isso. As pessoas estão a ouvir uma música com componentes de épocas importantes na evolução da música. Na década 60 e 70 tens Bob Marley, Jimmy Hendrix e os Beatles. Na década de 80 tens o Prince, Michael Jackson e o Thriller. Nos anos 90 tens o auge do hip hop. O meu EP tem essa diversidade. A golden age com A Tribe Called Quest, De La Soul, os Bush Baby, a Wu Tang Clan, os Boot Camp Clik, Common Sense, The Roots com o álbum Organix, Notorius BIG e 2 PAC começaram a ganhar notoriedade. Noutros estilos tivemos os Nirvana, Alice in Chains, o movimento do trip hop em Bristol, Prodigy, os Portishead, Morcheeba. Eu sentia-me perdido em Maputo porque não havia um sítio onde pudéssemos ouvir todos esses ritmos. Depois descobres amigos com os mesmos interesses. Havia um que curtia rock e eu tinha Green Day em cassetes de vídeo. Ele emprestou-me um CD e desgravei uma cassete do meu pai. Aprendi a tocar bateria no rock.  Cosmic Fow das Argolas Deliciosas é a minha interpretação de trip hop, da sonoridade dos Massive Attack e dos Portishead. Os do hip hop samplavam a soul e a música que ouviam com os pais. Os do trip hop samplavam outras coisas, gotas de água a cair, papel a amachucar-se e avant garde jazz.

Quais são as tuas referências hoje na música instrumental e ambiente?

Agora ouço muito Pretty Lights, produtor pioneiro de um género chamado electro soul que mistura  hip hop com elementos electrónicos. Gosto do Gramatik, da Eslovénia, que emigrou para os EUA  e está a fazer um tremendo sucesso, do Grizzly e dos Orelha Negra, uma grande influência – são da pesada –  que vão lançar agora um álbum.

O Dilla está entre as tuas referências… O que é te parece este novo movimento de produtores? Estou a lembrar-me agora do Knxwledge, por exemplo.

Umas das minhas maiores influências agora é Flying Lotus. Fiquei um mês sem ouvir You’re Dead e parecia estar doente, agora tenho-o no telefone. O movimento de Los Angels exerce uma grande influência, é um movimento pós-Dilla; Dilla migrou de Detroit para Los Angels e foi nesse período que ele gravou o álbum com Madlib, o Jaylib. O Madlib é um produtor versátil e às vezes subestimado. O pai é um grande músico de jazz. O Madlib simplesmente expressa o jazz em vários meios no hip hop com o MPC, o sample. O Dilla criou uma nova sonoridade, naquilo que se chama boom bap, os beats de Dilla já não tinham a dinâmica de Nova Iorque, popularizada pelo Tribe Called Quest [Nandele faz beatbox retrospectivamente, a acompanhar as etapas do hip hop]. O J Dilla atrasou o tempo, começou a usar outros registos. A Mute Band [banda dirigida por Nandele] gostaria de tocar uma música do Dilla, porque temos um reportório que inclui clássicos do hip hop. O Dilla tinha uma forma única de cortar. O Knxwledge  aproxima-se do Dilla porque corta e faz atrasos parecidos. No ano passado recebi dezenas de álbuns do Knxwledge e eu só ouvi quatro. O Mndsgn é outro, o meu álbum favorito dele é o Breatharian. São todos diferentes, todos com as suas influências a criar coisas distintas.

O que é que se segue depois do Argolas Deliciosas?

Eu quero fazer live performances, trabalhar com a Mute Band, que vai gravar um EP. Tenho um álbum pronto, que sairá provavelmente no próximo ano, chamar-se-á Likumbi, um álbum obscuro; entrei, em termos psicológicos, num território distante, entre a vida e a morte, uma meditação transcendental. Para o Likumbi quero ter vinis, e mesmo o Argolas Deliciosas planeio daqui a uns anos colocar em vinil. Em termos de sonoridade exploro os vértices, as zonas obscuras que sempre existem. Produzi 40 beats e escolhi 15 para o álbum. O Likumbi é um álbum que vai seguir um outro caminho em termos de expressão artística. É uma forma de prestar homenagem ao povo maconde, de que sou originário. Likumbi é como se chamam os ritos de iniciação masculinos dos macondes. É uma experiência em certa medida traumática, metem-te no mato a correr. Este é um álbum muito pessoal, é uma resposta para as minhas inquietações. Tenho mixs para lançar, e outros pequenos projectos de artes performativas e composições musicais para cinema.

 


 

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