Há 29 anos, Chico Science, líder da Nação Zumbi (NZ) e um dos criadores do manguebeat, faleceu após um acidente de carro. Propositalmente ou não, no dia que a música brasileira perdeu um dos seus gênios, 2 de fevereiro, a NZ fez o primeiro de dois concertos de comemoração dos 30 anos do álbum Afrociberdelia. O lugar escolhido para essa celebração foi o histórico Theatro Municipal de São Paulo. Minutos depois de começarem a ser vendidos, os ingressos se esgotaram. Mesmo assim teve quem fosse até à bilheteria procurar por eles. Os sentimentos estavam aflorados. Havia uma expectativa de como seria a execução das 18 músicas desse que se tornou um clássico atemporal, apreciado por ouvintes de estilos distintos
Sem nenhum minuto a mais, às 20h os membros da Orquestra Experimental de Repertório tomam seus lugares. Na sequência entra o maestro Wagner Polistchuk, que convida Jorge Du Peixe, Dengue e Toca Ogan, únicos integrantes da formação inicial, e também Marcos Matias, Da Lua, Tom Rocha e Neilton Carvalho para o palco. Diferente das apresentações convencionais, nesta o público tem que acompanhar sentado nas poltronas vermelhas do Theatro. Mesmo assim é impossível manter o corpo estático. No silêncio, entre os aplausos e a introdução de “Mateus Enter”, alguém grita: “Chico vive”. Jorge Du Peixe responde: “Tá aqui hoje!” Ao longo das quase duas horas, nos intervalos,repetem-se as afirmações: “Viva Chico!” “Viva Nação!” “Chico presente!”
Quando as batidas do mangue começam, quem pode, dança. Quem não pode, mexe o corpo, balança a cabeça, bate os pés, canta. A pulsação se junta à delicadeza erudita. Ambas se complementam, criando algo ainda mais psicodélico. Hipnotiza. Algo que não tem como ignorar. Du Peixe é menos efusivo e performático que Science, mas nem por isso deixa o sarrafo abaixar. Sua voz rouca pontua bem. Quando não canta, assume a alfaia, a percussão ou a meia lua. Dengue é o único que se movimenta de uma extremidade à outra com toda a tranquilidade. Na maioria das vezes fica ao lado dos contrabaixistas da orquestra. Sem mudar a sequência do disco, as versões encorpadas pela orquestração de Mateus Alves (responsável pelas trilhas sonoras de filmes como Bacurau e O Agente Secreto) reverberam pela sala centenária do teatro de uma forma única. É impressionante a forma que as ondas batem nas paredes e se espalham, chegam aos ouvidos e descem pelo corpo todo.
Ao meu lado, Eduardo Bidlovski (BID), produtor do disco de 1996, observa com atenção. Meio que faz sua regência de longe, movimenta os braços e as mãos como se estivesse tocando instrumentos. Comenta alguns pontos com seu filho, se emociona. Pelas suas reações parece ter aprovado o que viu.
“Não tinha forma melhor. Ele é um pouco complexo, arranjos diferentes, mapas não tão certeiros, assim, não tão básicos, como… não é tudo 4-4-4. Então foi um trabalho à parte”, disse ele ao final do concerto. “A orquestra está de parabéns, o maestro, e o arranjador. Vou ter que vir na outra sessão para poder ouvir mais detalhes, porque hoje tudo se misturou com um monte de emoção junto. É um repertório delicado de… sensível da gente mexer, né? É muito especial, assim, ver agora… e ainda coincidir no mesmo dia do acidente do Chico. Eu acho que é uma forma madura do disco voltar, sabe? Assim, como se tivesse crescido e ficado mais velho”.
Afrociberdelia foi o projeto de estreia de BID na produção musical. Ele foi arquitetado durante um mês e meio, no Rio de Janeiro, sendo depois mixado em São Paulo. Quando a introdução de “Maracatu Atômico” começou com toques nos cowbells, as vozes bradam em celebração. Esse se tornou o hit que impulsionou a banda ao “pop”, mesmo Science não querendo que ela fizesse parte do álbum. “Ela acabou não entrando nas gravações iniciais. E aí o diretor da gravadora (Jorge Davidson) ficou louco porque na cabeça dele era a música de trabalho, e realmente ele tinha razão”, afirma BID. “Mas diferentemente do que é falado nos documentários, de que foi ele que apresentou a música, é mentira. O Jorge Du Peixe tá aí pra provar. Estava eu, o Jorge e o Chico no meu estúdio, em São Paulo, quando eu mostrei o (álbum) Nightingale do (Gilberto) Gil para o Chico”. Ela só entrou porque a Sony pagou mais algumas horas de estúdio e convenceram Chico Science a gravar essa versão explosiva da música composta por Nelson Jacobina e Jorge Mautner, gravada por Gil e depois pelo próprio Mautner. “O Chico não queria de jeito nenhum fazer cover de música nenhuma, né? Essa foi uma que tinha muito a ver com o contexto da Nação”.
Antes dessa, “Macô” ganha um tempero especial. As linhas de flauta se multiplicam. Na parte instrumental, que fica entre as estrofes, duas flautistas ganham protagonismo. Ficam de pé e reproduzem a melodia com uma beleza difícil de se explicar. Só ouvindo mesmo para entender. “Manguetown” fez o salão “pegar fogo”. Não teve como conter os ânimos. Alguns se levantaram e foram para o corredor dançar. Quem estava nos andares superiores também não se conteve com a fusão de reggae, rock e maracatu. A aura de Chico Science brilhou. Tinha a sensação de olhar para o tablado e vê-lo fazendo sua dança e os movimentos inimitáveis, que era meio capoeira, maracatu, break. Esse momento catártico foi seguido pelo frenesi de “Um Satélite na Cabeça”. Apesar de Lúcio Maia não ser o responsável pela guitarra, Neilton segura a onda com riffs tão pesados quanto os originais. Pensava-se que a orquestra traria mais suavidade. Porém, isso não aconteceu.
Essa experiência reafirmou o quão singular e imperecível é a obra de Chico Science e Nação Zumbi. A parte triste dessa trajetória é Chico não ter usufruído tanto dos frutos do seu trabalho. “Era um cara leve, um cara divertido de tá junto”, reflete BID. “Ele se foi um ano depois que o disco foi gravado, né? Muito louco isso, de você fazer um negócio e não poder colher. Mas ainda bem que a Nação Zumbi segurou o bastão. O legado tá vivo. Acho que isso que é o mais bonito… saber que a música dele vai tá com todo mundo pra sempre, e está passando gerações e gerações”.
Antes do final, Jorge Du Peixe diz que vai fazer o bis com uma música fora do repertório de Afrociberdelia. Em homenagem a Chico, cantou “Um Sonho”. Introspectiva, ela fez os pelos do braço arrepiarem. Depois dela encerraram de vez [novamente] com “Maracatu Atômico”. Muitos da plateia se convidaram e foram para frente do palco. Não tinha como segurar. Momento único, que precisa ser repetido mais vezes.