N.W.A, Freddie Gibbs, Julinho KSD e a linguagem universal que não poupa a polícia e apoquenta os mais sensíveis

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

“Isto é tipo N.W.A“. Foi desta forma bastante sucinta que alguém entre a multidão tentou explicar a um dos seus companheiros onde se encaixavam Freddie Gibbs & Madlib, minutos antes do concerto da dupla na edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura. Nem de propósito, uma hora e tal depois, seria uma ligeira variação (repetida até à exaustão) de uma linha de uma das músicas mais reconhecidas do mundo — “Fuck Tha Police” — a causar alguma consternação em algumas das pessoas que não estavam à espera de verem dois homens negros a mostrarem-se descarados e sem filtros numa actuação no palco principal que aconteceu entre as prestações de Patti Smith e Suede, levando uma audiência maioritariamente branca a cantar palavras de desordem com a veemência de quem está a ser legitimado por um artista que se está pouco ralando para o que os outros pensam. Adoraríamos ver o mesmo tipo de entusiasmo e contestação quando os assuntos forem discutidos noutros poisos em que se tomam decisões e não apenas quando queremos sentir por uns segundos (e no papel do pendura) os perigos que outros sentem na vida real, mas isso são outros quinhentos.

Começando a “partir pedra”, e não deveria ser preciso explicar por esta altura, mas cá vamos: quando a polícia é utilizada como uma espécie de punchline nestes momentos, é preciso notar que isso nem sempre pretende ter correspondência literal — muitas das vezes, as forças de segurança são utilizadas como o símbolo de um qualquer sistema que oprime das mais diferentes formas e que, de forma mais clara nos EUA, continua a ser a cara de uma batalha incessante e esquizofrénica em que se dão passos para trás e para a frente com a mesma velocidade. No entanto, e o MC de Gary, Indiana, sabe isso melhor que ninguém, o problema não é só real no seu país: em 2016, aquando de uma passagem pela Europa, o autor de Shadow of a Doubt foi acusado de abuso sexual, encarcerado e, só mais tarde, depois de presente a julgamento, absolvido. A situação arrastou-se por alguns meses e acabou por ser o combustível para Bandana, disco que trouxe a Portugal e que, muito provavelmente, tem os pedaços de reflexão mais sinceros, profundos e poéticos da sua carreira.



Importante clarificar que aqui não existe uma tentativa de legitimar a violência, a prática de crimes ou até os erros que certamente existem no passado de Gibbs — nem somos ninguém para fazê-lo –, mas não deixa de ser um tanto ou quanto hipócrita que as vozes angustiadas pelas palavras de um homem que nasce condicionado pela sua cor de pele e outro tipo de situações sociais desfavoráveis, tentando virar-se (com inegável qualidade na sua arte, diga-se) com as ferramentas que tem à mão, receba imediatamente um selo de reprovação com base na linguagem e na forma como se apresenta (e não pela sua música, pelos vistos, da qual ouvimos falar pouco), enquanto uma figura pública que usa blackface e repete a “n-word” em horário nobre num canal generalista passa praticamente incólume e sem represálias de qualquer tipo. As balanças acabam inevitavelmente por pender para o mesmo lado quando toca a escolher indignações.

Num país como o nosso em que a discussão sobre o racismo institucional, estrutural e quotidiano é discretamente afastada da praça pública — o reconhecimento do que foi realmente o colonialismo será uma das conversas que teremos obrigatoriamente que ter para começar a reparar erros passados e educar (nas escolas e não só) cabeças para o futuro, por exemplo –, torna-se difícil dizer que não existe um subtexto discriminatório em abordagens como a de André Borges Vieira no Público que, baseando-se em lugares comuns que se pensavam abandonados há muitos anos, escreve que Gibbs é “vazio de mensagem”, mostrando-se completamente absorto nas suas próprias crenças e incapaz de passar para lá do superficial. Os poleiros de Patti Smith e Freddie Gibbs até podem ser bastante diferentes, mas a liberdade não se pratica de uma só forma. O maior erro está em achar que as regras do jogo são iguais para todos.



Dentro do campo das coincidências, e asseguramos que não se está a forçar ligações por aqui, um olhar para o panorama nacional leva-nos para uma das canções mais badaladas de 2019, que tem como vértebra principal o “mantra” “Fuck fuck fuck the police”. Em “Sentimento Safari”, Julinho KSD, nome promissor que parece cada vez mais encaminhado para se tornar uma certeza em 2020, mistura crioulo, inglês e português e canta-nos, entre outras coisas, que “cada palavra tem o seu preço”. Pegando noutra frase, dita pelo escritor Ta-Nehisi Coates, “palavras não têm significado sem contexto” e não deixa de ser incrível que, tal como reforçado por Gibbs, a revolta contra a polícia (e tudo o que está por trás) seja uma linguagem tão universal, sinal de que as coisas a um nível intrínseco ainda continuam iguais. Se os N.W.A escreveram a famosíssima música porque se sentiam completamente desgastados com as injustiças que sofriam em 1988, Freddie Gibbs e Julinho KSD fazem-no com a mesma motivação em 2019, mesmo que os cenários em que se movem sejam diferentes. As portas que estavam fechadas passam a abrir-se a partir do momento em que as palavras começam a valer dinheiro, se quisermos ir por aí, e o contexto adapta-se consoante a capacidade de comprar a corrente de ouro mais cara na loja ou o vinho mais caro da garrafeira, mas a verdade é que lá no fundo todos sabemos que o ciclo de discriminação se repete até à exaustão enquanto não reflectirmos seriamente sobre o porquê de estarmos a ter a mesma conversa nas últimas quatro décadas. Sem que realmente se consiga chegar ao que é mais importante…

Quando se nasce com condicionantes que sem apelo nem agravo encaminham para a derrota e durante esse percurso se é constantemente relembrado disso, o dedo do meio levantado pode valer tanto (ou mais até) do que um “paz e amor”. E agora é hora de levantá-lo.