Musikmesse em Frankfurt e o regresso dos míticos Palais Schaumburg

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

São muitas centenas de stands e muitos mais milhares de visitantes numa das maiores feiras do mundo dedicadas à indústria do equipamento musical. Todo o que se possa imaginar: de sistemas de som para concertos de estádio a microfones para todos os fins, de guitarras e pianos a gira-discos e controladores para DJs, de cabos, mesas de mistura, processadores de efeitos a stands para instrumentos. Nada falta nesta edição 2019 do Musikmesse em Frankfurt. Nem sequer um festival que pretende levar a agitação da feira a cerca de 50 salas de todos os tamanhos espalhadas pela cidade. Conferindo o programa para o dia de arranque da feira e do respectivo festival, a descoberta do nome Palais Schaumburg e a promessa de uma apresentação num pequeno clube — Nachtleben — eliminou quaisquer dúvidas que a oferta massiva — são mais de 100 concertos neste festival que se prolonga até ao próximo sábado — pudesse impor.



O Nachtleben é um insuspeito café cuja decoração sóbria e genérica não deixa perceber que na sua cave se esconde um clube rock clássico, com as paredes cobertas de stickers com logos de bandas ou de marcas de instrumentos, tectos baixos e circuitos de ventilação expostos, conferindo-lhe um apropriado ar industrial que parece indicar que, apesar das óbvias renovações no andar superior do café, naquela cave nada se alterou desde os anos 80. Ou algo que o valha. O que faz sentido, já que os próprios Palais Schaumburg deixaram de dar notícias ainda a década de 80 não ia a meio, tendo apenas editado três álbuns: Palais Schaumburg (1981), Lupa (1982) e Parlez-Vous Schaumburg (1984).

O grupo foi criado por Holger Hiller (voz e guitarra), Thomas Fehlmann (sintetizador e trompete), Timo Blunck (baixista), e Ralf Hertwig (bateria), todos presentes ontem, depois de terem regressado aos palcos apenas em Dezembro último. Hiller abandonou a banda após o primeiro álbum para se dedicar a uma carreira a solo, ligou-se à britânica Mute nos anos 90 e assinou algumas remisturas para gente como Renegade Soundwave ou Barry Adamson e Chicks On Speed antes de se concentrar numa carreira no ensino do alemão. A língua parece, aliás, ser matéria de trabalho para mais gente da banda já que o baixista, Timo Blunck, alcançou alguma notoriedade recente como romancista.

Com um primeiro álbum produzido por David Cunningham (The Flying Lizards, produtor de gente como This Heat, David Toop ou Michael Nyman) e o seguinte trabalhado por Andy “Sugar Coated” Hernandez (Kid Creole, Dr. Buzzard’s Original Savannah Band), os Palais Schaumburg parecem ter, num par de anos, percorrido a distância que separava as esferas experimentais das mais pop, tensão que mantêm até aos dias de hoje, como o concerto da última noite deixou perceber de forma perfeita. Esta banda chegou a contar con Moritz Von Oswald na bateria, posição, aliás, que também chegou a ser ocupada por F.M. Einheit dos Einsturzende Neubauten. Grupo com sólidos pergaminhos, portanto.

Ao vivo em 2019, Hiller, Blunck, Fehlmann e Hertwig são uma coesa unidade de ritmo e dissonância que a espaços faz pensar em LCD Soundystem ou Liquid Liquid para, logo depois, o teclista/trompetista ajudar a responder à provavelmente nunca antes formulada questão “e se Miles Davis e não James Chance liderasse os Contortions?” O grupo parece ter regressado aos concertos impulsionado pela atenção resultante da reedição, há meia dúzia de anos, do seu homónimo trabalho de estreia através da Bureau-B, etiqueta que, juntamente com a Groenland, tem vindo a assumir a reposição no presente das mais relevantes memórias da melhor música alemã das décadas de 70 e 80. Como a destes expoentes da chamada “neue deutsche welle” (pós-punk ou new wave alemã).

Com um Hiller ultra teatral e em plena forma (parece mais novo que James Murphy…) e Thomas Blunck com ar de quem passa o dia a levantar pesos, esta é uma banda em topo de forma que se tivesse surgido há uns meses num qualquer bairro hipster de Nova Iorque estaria agora, certamente, a receber aplausos da Pitchfork e a aguentar nos ombros o peso da responsabilidade de ter que salvar o rock ou algo parecido. Pianos bêbados, synths nervosos, baixo pulsante, breaks na tradição “motorik” de Klaus Dinger, trompete de vocação dub e clássicos como “Wir Bauen Eine Neue Stadt” ou, sobretudo, “Telephon” arrebataram uma audiência maioritariamente acima dos 40 que esgotava o pequeno clube. Apresentação irrepreensível: os Palais Schaumburg soam como se não tivessem parado de ensaiar desde 1984, à espera deste momento. Para o ano estão no Primavera Sound e se houver justiça no mundo antes disso passarão pela ZDB. Nunca se sabe…



Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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