Música portuguesa de dança em 2015: 5 pedradas no charco

[TEXTO] Marco Rodrigues

 

Qualquer um dos vários miúdos que estão neste momento, no território português, a olhar impacientemente para os 95% da instalação de uma cópia crackada do Ableton – com intenções de com ela transformar o panorama da música de dança, naturalmente – enfrentam à partida uma série de forças contrárias inteiramente relacionadas com o facto de terem nascido, sem escolha, neste rectângulo de terra artificialmente definido por fronteiras imaginárias tornado tribo e identidade – país.

Vindo de dentro, um binómio muito difícil de vencer por aqueles que tenham algum tipo de ambição artística: de um lado uma condescendência acrítica em relação a tudo o que seja uma imitação vagamente competente de algo que venha de fora; por outro, a ideia de que os tugas são sempre, necessariamente e à priori, os últimos “em tudo o que é ranking, menos nos maus rankings”. Na raiz de ambos está um complexo de inferioridade esmagador e que às vezes parece intransponível para quase toda a gente envolvida, à excepção de alguns optimistas crónicos – onde me incluo.

Temos os nossos Guettas, os nossos Skrillexes, Ed Bangers, Prins Thomas, Ben Klockes, etc, em abundância, e não o digo como equivalentes a estes em importância, mas apenas enquanto suas cópias. Temos também artistas de outra estirpe, para mim mais interessante; os (relativamente) poucos que, pelo seu génio de referenciar transformando profundamente – em vez de apenas copiar – fintam arduamente a ideia de que todo o projecto musical é mero branding, ou que criar é apenas o surfar engenhoso de uma qualquer onda de interesse que dependa directamente das trends do momento.

Por sua vez, o público em geral, confiando inocentemente nos sinais aparentemente espontâneos que são friamente maquinados em campanhas de marketing por tipos de management, acha que os primeiros (as cópias) são óptimos, o que faz com que estes figurem frequentemente nos lineups dos palcos electrónicos dos grandes festivais e noutras iniciativas patrocinadas pelo top dollar corporativo – que não se limita a namorar com os nossos fazedores de leis mas que, agora, através de eventos, faz também a curadoria cultural do nosso mainstream musical. Os segundos, artistas de visão singular, por sua vez, não encaixam sequer nas gavetas do marketing musical disponíveis na máquina, resignando-se, sobretudo, à actuação ocasional nos poucos espaços que ainda não se demitiram do nobre papel de serem terreno privilegiado para ocorrências culturais de grande poder transformador.

De fora existe também uma não assumida – logo insidiosa e penetrante – tendência moribunda (espero) para julgar à priori os nativos deste rectângulo à beira-mar arbitrado como sendo apenas uma tribo de preguiçosos e supersticiosos do sul; tipos pouco mentais que consistentemente elegem bestas para os governar – uma generalização que, em dias maus, é difícil de rebater, eu sei, mas que é uma generalização, logo é errada. No entanto, a pegada fortíssima deixada pelos nossos DJs e produtores nos anos 1990 permaneceu sempre no imaginário da nossa música de dança como um reminder de que podemos ser nós, os deste rectângulo imaginário, a transformar uma qualquer influência de fora em algo nosso, em música que leva orgulhosamente o nosso cheiro proverbial para junto de outros, para ser apreciado como fina e fresca fragrância nas pistas de Berlim, Londres ou Nova Iorque.

Nos últimos anos temos assistido a um novo engrossar dessa nossa pegada e, aos ombros de gigantes como António Cunha (R.I.P), DJ Vibe, Rui Da Silva, Rui Vargas, J Daniel, Luís Leite, Jiggy, os irmãos Garcia, entre muitos outros, espreita já, em bicos-dos-pés, uma nova geração de artistas que tem merecido a atenção global a diferentes níveis, com DJ MarfoxIVVVO, Trikk, Nigga Fox ou Lake Haze como alguns dos nomes maiores que encabeçam essa crescente nova onda de DJing e produção musical desafiantes. Em 2015 essa tendência não mostra qualquer sinal de abrandamento e, em espírito de celebração, vale a pena salientar cinco dos releases de música portuguesa de dança mais marcantes do ano até agora.


 

[IVVVO & Lake Haze] – #1
(Creme Organization, 2015)

Faixa largada no YouTube ainda em 2014 para celebrar duas datas em conjunto de IVVVO e Lake Haze, em Lisboa e Porto. Foi encontrada pelo Danny Wolfers aka Legowelt, que a partilhou elogiosamente no Twitter, e acabou por ter sido lançada oficialmente este ano com um remix do mesmo na lendária holandesa Creme Organization. Melancolia rave cuspida directamente sem grandes cuidados de mistura. Para vaguear na madrugada portuguesa, luz de rua nos calcários ou nos granitos, de garrafa de água em punho.


[DJ Nigga Fox] – Um Ano
(Príncipe Discos, 2015)

Rogério Brandão continua imparável no próximo lançamento da lisboeta Príncipe depois de ter recentemente participado no EP Cargaa 1, editado pela inglesa Warp (wow!) e onde participa em família ao lado de DJ Marfox, Blacksea Não Maya, DJ Ly-COox e DJ Nedwyt Fox. Em “Um Ano” os ritmos continuam esmagadores, vicerais e irresistíveis, com sobreposições complexas de ritmos e melodias que, misteriosamente, resultam num todo indivisível e apostado todo em frente, sem bloqueios ou hesitações. Rei.


[Niagara] – Falcão
(From The Depths, 2015)

Antes de ser editora, From The Depths já era o programa de rádio do inglês Charles Drakeford, na estação londrina NTS. Charles é também um dos membros fundadores da plataforma Boiler Room e um terço da crew Principals, em conjunto com Bradley Zero, das badaladas festas Rhythm Section, a sul do Tamisa, e Nick Tasker, A&R da Young Turks. Para segundo lançamento na sua própria editora, agendado para Maio deste ano, Drakeford escolheu os nossos Niagara, que se estreiam fora da sua casa Príncipe Discos e apostam na continuação de um percurso até agora feito fugindo, de forma inspirada, às estruturas rígidas do house e techno, mas pela primeira vez verdadeiramente capazes de concentrar tensão que faça explodir cabeças na pista. Momento charneira para os Niagara – os seus primeiros bangers.


 

[Sabre] – Morning Worship
(Royal Oak, 2015)

Sai pela subsidiária da Clone, a Royal Oak, e isso é por si só um endorsement fortíssimo e razão para celebrar – mais uma vez a realeza holandesa mostra estar atenta. Dreamy é a palavra aqui. Saudades do futuro à Detroit mas com clima ameno balear, com drama e emoção sabiamente transformados em intensidade para a pista. Controlo incrível da narrativa e espaço em cada faixa, do ponto focal ao cosmos. Notavelmente rico a nível harmónico e rítmico, embora cresça a partir de estruturas clássicas de house e techno anos 1990. Lembra Carl Craig de 69 ou Lone, às vezes, mas está mais perto da praia que das fábricas da Ford ou do nevoeiro londrino.


[Silvestre] – Frank Pike EP
(Diskotopia, 2015)

Chamado de techno innovator pela FACT, que lhe deu destaque, Silvestre editou Frank Pike pela japonesa Diskotopia no passado mês de Fevereiro. Techno solto mas sem romantismo, perdido na noite de Dalston. Incrível gestão de espaço e referências numa matriz rítmica que parece não querer encontrar forma fixa. Samples surgem no mix como punters bêbados a entrar no nosso campo de visão enevoado, a tropeçar à saída do The Passage. Música de Londres, late-night, pelo génio de um tuga.

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