“Eu penso que raros são os festivais que têm coragem de colocar um som tão autoral, tão experimental e psicodélico assim, desse jeito. Então, tô muito agradecida por essa oportunidade, né, de poder pisar nesse palco com a banda dos meus sonhos e fazendo o que eu gosto de fazer, sabe? Para mim, é uma felicidade imensa”.
Logo depois de um concerto irrepreensível que apresentou para os fãs da pop Sabrina Carpenter, que na noite anterior levou o público a chegar cedo para pegar lugar na grade, Jadsa estava satisfeita pelo que tinha apresentado na abertura do segundo dia (21 de Março) do Lollapalooza Brasil no palco principal. Ela faz parte da lista da cena alternativa brasileira (indie, rap, funk) que se destacou ao longo dos três dias de um dos maiores festivais do país, com um público de mais de 280 mil pessoas, realizado no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Para alguns, como o Febre90’s, aquela foi a primeira oportunidade de tocar em um evento daquele tamanho. “Eu nunca tinha ido nem para curtir um festival grande assim. Vir para tocar e ver a energia de toda rapaziada que veio uma para ver, deixa a gente fica feliz demais. Tô realizado”, ressalta o produtor e beatmaker SonoTWS, que é complementado pelo seu companheiro PumaPJL. “Esse palco é importante para realmente ter uma noção do nosso tamanho mesmo”. A oportunidade não foi desperdiçada. Dos que eu acompanhei, todos conseguiram envolver, gerar curiosidade e impactar quem estava ali em busca de algo diferente.
“É diferente essa atmosfera de um festival grande, que tem várias bandas, e às vezes as pessoas não te conhecem e vão ser impactadas pela sua música”, observa Jadsa. “Aqui pode acontecer de tudo, entende? E, sei lá, num teatro, um lugar fechado, é tudo meio controlado, né? Aqui é abertão”.
Prestes a fazer a turnê europeia do álbum Big Buraco, que passará pelo Porto (8 de Abril) e Lisboa (9 de Abril), Jadsa diz que seu som agora, definitivo a partir desse mais recente registo, funde MPB mais jazz e psicodelia ali, principalmente no show.
“Eu trago muito dos efeitos especiais, assim, uma coisa mais delayzada, reverberada”. Essa sonoridade faz parte de uma música brasileira que foge dos tradicionalismos da cena popular brasileira, porém carrega elementos dela, unindo o regional com elementos do que se ouve globalmente. O mesmo acontece com a Mundo Livre S/A, uma das bandas fundadoras do movimento mangue bit (manguebeat), Oruã, que conquistou a Europa antes de bater nos ouvidos locais, e Papisa. Ambos seguem linhas parecidas. Porém estão bem longe de soar iguais. Apenas correm pela margem da indústria. Fazem o que precisa ser feito sem seguir receitas prontas.
A responsável por abrir o domingo (22 de Março) foi a cantora, produtora e multi-instrumentista Papisa. Na plateia já estavam a postos os aficcionados por Tyler, the Creator, o headliner que fecharia o Lollapalooza, e aqueles que não viam a hora de fazer mosh pit com o Turnstile. Mesmo tocando para públicos distintos, ela conseguiu dominar o espaço e manter todos atentos ao seu som.
“Acho que superou a minha expectativa, porque eu trouxe um show que tem momentos muito para fora, momentos introspectivos também”, afirma. “Eu quis trazer essa pegada do meu primeiro disco e eu me senti muito à vontade. O público estava muito dentro, uma galera muito receptiva… foi muito gostoso. É uma super oportunidade para mostrar para mais gente, e também um desafio, porque algumas pessoas estão conhecendo as músicas ali na hora, eu trouxe uma música nova até, mas foi muito, foi muito legal para a gente estar no palco, sentir esse calor e perceber que a galera estava aberta, ouvindo, e tinha gente cantando, e tinha gente conhecendo. Foi muito interessante”.


[A Vez do Rap]
No palco direcionado à música eletrônica, a regra foi a mesma. O funk brasileiro ganhou protagonismo com MU540 e Marcelin O Brabo. Uma das boas descobertas foi o trio Crizin da Z.O., que funde funk com rap e rock. Já o Febre90’s reforçou a valorização do rap do Brasil (o rap nacional) e a cultura hip hop. “Gostaria muito que tivesse mais grupos de rap que levassem um dos pilares mais importantes da cultura”, diz Sono. “Porque já é um público que nasceu numa geração do trap, tá ligado? E a gente poder mostrar para eles o rap do começo, da fundação, o boom bap, a nossa estética. E é muito maneiro, mano. Eu acredito que a parada do hip hop é isto: é para o mais novo, criança, adolescente, adulto e velho, tá ligado?” Apesar de acreditar que está totalmente fora da proposta do festival, mais voltada para o indie, N.I.N.A disse que teve suas expectativas ultrapassadas. “Ver a galera abraçando uma mina preta do rap e falando de futebol dessa forma, foi lindo”, observa ela, que dedicou sua apresentação ao EP O Jogo Virou, que faz uma ode ao futebol.
Na visão da MC do Rio de Janeiro, uma das vozes mais potentes no rap BR atual, as mulheres estão vivendo numa era em que finalmente o poder feminino está ganhando protagonismo. “Como a gente trabalha como comunicadora, eu acho que o esporte não pode ficar de fora, principalmente quando se trata de mulheres, tá ligado?”, ressalta. “Acho que é muito importante a gente lembrar e frisar que mulheres fazem parte de arquibancada, fazem parte de torcida organizada, jogam futebol dentro do campo e fora também. A gente tá sempre dominando tudo. Então, acho muito importante ter essa representatividade. Como eu não estava vendo isso no rap, eu falei: ‘Ah, vou fazer’.” Fanática pelo Flamengo, inclusive mandou fazer um casaco de dupla face sendo uma do seu time do coração, N.I.N.A reforça que as mulheres precisam ocupar todos os lugares. Inclusive passa a visão para as mais novas.
“Não dêem importância para o que outras pessoas falarem sobre você em momento algum. Você vai ter dúvida e é muito importante seguir a sua intuição, seguir o seu coração, não se perder no caminho por conta de ninguém, seja homem, seja mulher, seja familiar, porque no final das contas, é só você”, observa. “A mulher tem uma coisa que é muito importante: o sagrado feminino. É o que vai guiando ela pela vida afora. Independente de acontecer algo ou não, só fica você e o seu sagrado feminino”.
De bandeira da Palestina empunhada, FBC fez um dos concertos mais políticos do festival. Dos nacionais, foi provavelmente o mais comentado não apenas pelas polêmicas. A qualidade da apresentação falou mais alto. Também se faz necessário levar em consideração que a maioria daqueles e daquelas que estavam lá esperavam por KATSEYE, que viria na sequência. Mas o Padrim, como é conhecido, acendeu a chama. Até quem estava sentado não resistiu quando ele entrou na fase mais dançante, dos discos O AMOR, O PERDÃO E A TECNOLOGIA IRÃO NOS LEVAR PARA OUTRO PLANETA e BAILE.
É verdade que, antes de chegar lá, iniciou com os tons críticos contidos nas músicas de ASSALTOS E BATIDAS, de 2025. Teve imagens geradas por IA do ex-presidente tentando abrir a tornozeleira com um ferro de solda e outros políticos com a cabeça sendo explodida [o próprio Bolsonaro, Trump, Milei, Netanyahu]. Como não estava no seu território, teve que adaptar o repertório. E conseguiu com maestria.
“O show é sempre político, do começo ao fim, mas igual você pontuou, ele vai crescendo, vai se transformando”, diz. “Tinha uma garotada lá na frente. Teve uma hora que eu falei assim: ‘Vamos abrir um mosh pit aí.’ E a galera respondeu: ‘Não, não, não, não’. Pô, é uma meninada nova, mas acredito que essa galera é esclarecida. Sabe o que que tá acontecendo, né? A galera entende. E a gente acredita naquilo que faz”, afirma. “Eu acredito que a galera saiu tocada. Acho que atingimos algo dentro de cada um e cada uma que estava ali na frente, porque esses eventos têm uma grande cultura de grade, né? Pessoal vai pra ficar na grade e esperar até o artista dele chegar. Essa é a oportunidade de fazer o som expandir”.
No balanço final, todos souberam aproveitar o espaço concedido. Não ficaram à sombra dos que vieram de fora. Talvez esse lineup tenha sido um dos melhores dos últimos anos. Porém, erraram na escolha dos palcos de alguns artistas. Poderiam ter colocado FBC no mesmo palco que Tyler e Turnstile. Mesmo assim, a maioria conseguiu chamar a atenção de diferentes ouvidos. Os citados, e que conversaram comigo, não foram os únicos a representarem o Brasil. No entanto, é impossível assistir tudo sendo apenas um (e tendo andado pouco mais de 27km no festival todo).

