Mura sobre v1.0: “Resolvi que queria ser o director da minha própria vibe neste projecto”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Foi no arranque deste mês que Mura nos deu a conhecer o seu primeiro projecto a solo, v1.0.

Mura é o alter-ego utilizado por Tiago Moreira para assinar temas que descaem para o lado mais pessoal e introspectivo da arte da rima. O primeiro contacto com o MC do Laranjeiro aconteceu por intermédio de Tayob J., produtor e mentor do colectivo Noss-One, do qual Mura faz parte, bem como Visco, Xhafan e Syncope, e de onde saíram as suas primeiras músicas.

Tiago assume toda a direcção daquele que é o seu primeiro trabalho a solo, uma espécie de mini-mixtape com beats extraídos da Internet, encarregando-se da captação e mistura das três canções, assim como do artwork que sela o projecto.

Aproveitámos o lançamento de v1.0 para saber mais sobre o rapper do colectivo Noss-One.



Já tinha tido a oportunidade de falar de ti no ReB, na altura por fazeres parte do colectivo Noss-One liderado pelo Tayob. Agora que te apresentas a solo, gostava de perceber como e quando é que o hip hop entrou na tua vida.

O hip hop apareceu muito cedo na minha vida, ainda era daqueles miúdos que perdia tempo em casa a ver vídeos tanto no Sol Música como na MTV. Tive a sorte da minha zona viver mesmo a cultura do rap, portanto acho que ajudou bastante a crescer o bichinho de experimentar as primeiras letras ou até os primeiros improvisos. Mas foi por volta de 2012 que decidi levar a cena mesmo a sério. Na altura tive a ajuda do Vester, de Alverca, com quem perdi horas e horas nos nossos primeiros sons. Aí sim, foi o começo de tudo, não sabia nada de produção, o que fosse, e ele ajudou-me muito naquela altura. Entretanto eu, o Visco e o Burnay começámos uma aventura nos Nirvana Studios, já em 2016, onde era música 24 sobre 7, também com a grande ajuda do Tayob J., da Syncope e do Xhafan. Criou-se ali uma vontade de enorme de fazer música. Estas pessoas, basicamente, foram as que me motivaram para que o hip hop fizesse parte da minha vida e que fosse possível criá-lo.

O que é que te fez arriscar neste v1.0 de forma totalmente independente?

A vontade de mostrar trabalho. Quis apenas mandá-lo cá para fora. Acho que, a certo ponto, senti a necessidade de mostrar a minha visão, até mesmo para me testar a mim próprio e do que posso vir a ser capaz de fazer. Nada mais do que isso. Deixei de meter limites e resolvi que queria ser o director da minha própria vibe neste projecto. O meu foco também sempre passou por fazer algo a solo, gosto de desafios e de mostrar o que faço de melhor.

O que representam estes três temas?

Estes temas basicamente representam o que eu sou e como eu sinto o que está ao meu redor, uns mais positivos outros menos. Acaba por ser o meu yin-yang. É um retrato da minha consciência a falar de como devia agir e pensar, de às vezes não me sentir bem com a sociedade em si, mas não são nada mais que desabafos em poesia.

De que forma foi “cozinhado” este projecto? Foi um processo bastante mais solitário do que aquele a que estás habituado, certo?

Este projecto basicamente foi feito com beats da net, alguns que eu tinha aqui, sobre os quais dava improvisos até ganhar alguma inspiração. Mas alguns deles ficaram tão bons, na minha opinião, que decidi trabalhar mais neles. Fiz então a captação, a mix e o artwork aqui, no Laranjeiro. Foi o meu primeiro projecto a solo e também sem participações, é diferente do que estou acostumado, de facto. Foi desafiante, mas eu gosto de absorver informação, portanto serviu também de aprendizagem até chegar ao ponto que desejo.

Agora que já pudemos escutar a “primeira versão” do teu rap, o que se segue daqui para a frente? Tens estado a trabalhar noutros projectos, sozinho ou com os Noss-One?

Está já outro projecto a ser cozinhado, desta vez um álbum. Vou trabalhar com o Burnay num projecto em que ambos estamos a produzir. Mas como não gosto de meter datas não consigo dizer uma em concreto para o lançamento. Irão sair mais sons tanto como Noss-One, claro, como a solo. Estou focado neste projecto com o Burnay em específico porque sinto que está a ganhar asas e ando com muita vontade em trabalhar nele. Portanto nestes próximos tempos é provável que venham a ouvir mais coisas com o meu nome incluído.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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